sexta-feira, dezembro 21, 2007

Quando o fiscal se sente fiscalizado

Na sequência da petição “Não às novas medidas de higiene alimentar da ASAE”, o organismo responsável pela segurança alimentar e económica decidiu emitir um esclarecimento que pode ser consultado aqui. Saúda-se a iniciativa e lamenta-se que não tenha sido tomada mais cedo. Sobretudo, lamenta-se que não tenha sido tomada antes de terem iniciado uma actuação ferozmente repressiva, a propósito da qual a comunicação social divulgou atitudes que o esclarecimento, agora, nega. Nessa altura, o responsável máximo da ASAE chegou a afirmar que a acção pedagógica não faz parte das competências da organização. Se calhar não faz, mas devia fazer das de alguém.

O facto de, finalmente, a ASAE ter compreendido que deve explicar a sua acção (como, aliás, qualquer outro serviço) leva-nos a concluir que a tomada de posição de milhares de cidadãos, valeu a pena. E para que não nos acomodemos, aconselhamos a leitura deste texto publicado no “Arrastão”. São muito sinuosos os caminhos da aplicação da Lei...

terça-feira, dezembro 18, 2007

Portugal, Europe’s West Coast

As imagens da campanha (procurar aqui)

Eis a campanha com que se pretende “vender” a imagem do país. É da responsabilidade do Ministério da Economia e da Inovação, a partir de imagens do fotógrafo inglês Nick Knight. Os objectivos, de acordo com os seus mentores, são associar-nos “ao Oeste da Europa (Europe’s Weast Coast) e a conceitos de modernidade, inovação, tecnologia, empreendorismo e qualidade de vida, promovendo Portugal como um todo, desde o turismo, economia, comércio e cultura, e qualificando a oferta dos recursos, pessoas e produtos nacionais”.

Nos anos 30, preparando um conjunto de iniciativas que visavam promover o país no estrangeiro (Exposição Internacional de Paris em 1937 e a Exposição de Nova Iorque e de São Francisco em 1939), António Ferro, responsável pelo Secretariado da Propaganda Nacional, meteu uma série de notáveis num comboio e levou-os a conhecer o “Portugal profundo”. Setenta anos depois, apetece dizer que faltou idêntica viagem aos autores da actual campanha. O problema é que o comboio já não passa por aí...

Limitando-nos às imagens divulgadas (desconhecemos se há outras), do país há muito pouco e o que há limita-se a sol, areia, mar e vento. Pelos vistos, Portugal não só é a “Europ’s West Coast” , como nada existe para além do litoral. Afinal de contas, talvez os nossos governantes tenham consciência de que abandonaram o resto às silvas, o que não fica bem na fotografia.

Mas as personalidades escolhidas (que quase recuperaram a trilogia fado-futebol-Fátima) permitem um duplo sentido, o que, nestas coisas da propaganda, é extremamente perverso. Em grande parte dos casos, são pessoas que ou trabalham no estrangeiro por opção (e não vale a pena vir procurá-las aqui), ou têm actividades de altíssimo risco em Portugal. De facto, ser investigador entre nós, sobrevivendo à custa das incertezas das “bolsas”, muito mais do que uma profissão é um acto de coragem.

Aguardamos com curiosidade a mensagem que vai ser usada para mostrar que temos “qualidade de vida”. Porque, numa primeira observação, a ideia que fica é que se esconde tudo quanto, entre nós, tem vida. Quanto mais qualidade. Fica o sol, o vento, a areia e o mar, apresentados sem relação com qualquer vida e que tanto podem ser nossos como de outro qualquer lugar. Ficam pessoas- umas conhecidas, outras nem por isso- que simbolizam o sucesso conseguido... fora de portas.

Mas, bem vistas as coisas, talvez seja isto mesmo que melhor representa aquilo em que nos tornamos: um deserto que só reconhece os seus quando lhe viram as costas.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Os pasteis do Tratado

Alinhados para a fotografia oficial

Não há cimeira sem croquete, mas algumas têm direito a Pastel. Foi o caso. O Pastel de Belém foi o digno representante da família pasteleira portuguesa por entre os maxilares dos reformadores assinantes do Tratado. Daqui lhe mandamos um caloroso abraço.

Outra história seria contada se, logo no início, os ilustres representantes das nações da Europa tivessem sido presenteados com um cartuchinho de meia-dúzia. Não imaginamos a senhora Merkel, língua a enrolar-se na massa doce, lábios colados pelo folhado, ter ânimo para impor a ditadura do “apfelkuchen” de um extremo ao outro do continente. A cada país os seus pasteis, a cada folhado o seu recheio, a cada tratado… o seu referendo.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Petição contra os abusos da ASAE


Para os que pensam que chega de abusos nas medidas impostas pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), está disponível uma petição on-line para manifestarem o seu desagrado (aqui).

Para além dos pormenores anedóticos que têm sido amplamente divulgados, o assunto é sério, revelando uma arrepiante indiferença por hábitos culturais e condições económicas- já aqui o tínhamos dito. Mas o que mais incomoda é o facto de começarem a ser evidentes os interesses que se defendem e que pouco ou nada têm que ver com a saúde do consumidor. Quem beneficia com a imposição de copos de plástico e com a proibição da venda de produtos de “fabrico caseiro”?

Depois, é desagradável a sensação com que ficamos, ao percebermos que somos os que têm aceitado, de forma mais acrítica, todas as patranhas que os burocratas europeus decidem inventar. Pelos vistos, a teoria dos “bons alunos” degenerou na de “alunos lambe-botas”. Mas, há sempre quem recuse enfiar o barrete.
_____________
Nota: Em resposta a alguns leitores que se nos dirigiram por “mail”, queremos dizer que não somos os autores da petição. Por outro lado, apesar do texto estar intitulado “Não às novas medidas de higiene alimentar da ASAE”, é para ser endereçado ao Ministério da Economia e Inovação, pelo que não há qualquer confusão quanto à “paternidade” da legislação em causa.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Estamos feitos

(Foto: Guilherme Figueiredo)

. Ainda o encontro de Bali estava para arrancar e já se divulgava que Portugal não vai cumprir as metas definidas por Quioto. Claro que o nosso ministro que-se-não-existisse-tinha-que-ser-inventado, vê o problema por outro ângulo: Portugal vai cumprir, mesmo que para isso tenha que comprar direitos de poluição ao estrangeiro. É mais ou menos como quem compra as respostas de um exame para não ter que estudar. Pois...

. Analisada a situação nos diversos sectores, fica claro que entre 1990 e 2005 Portugal aumentou- e muito- as emissões de gases com efeito de estufa. Apenas duas excepções: agricultura e resíduos. A primeira porque quase não existe, os segundos porque, possivelmente, se produz e consome menos. Se nos recordarmos da publicidade que se deu ao menor número de fogos deste último Verão- quando, na realidade, isso só foi conseguido por ter sido excepcionalmente chuvoso- talvez consigamos encontrar a chave da estratégia ambiental de quem nos governa.

. Mas nem tudo é mau na avaliação do Plano Nacional para as Alterações Climáticas (PNAC). De acordo com o "Público" (3 de Dezembro), 11 dos relatórios recebidos no Ministério do Ambiente são considerados bons. É verdade que das 41 medidas previstas no PNAC, apenas receberam relatórios sobre 28, mas também não sejamos tão exigentes. Até porque, como disse o secretário de Estado do Ambiente, Humberto Rosas, “(...) o Governo tem andado muito ocupado com a presidência da União Europeia”.

. Uma das áreas onde as coisas estão a correr melhor, é a da energia. A electricidade produzida a partir de fontes renováveis atinge já os 37% e o objectivo para 2010 é chegar aos 45%.

. Directamente relacionado com isto, está o Programa Nacional de Barragens recentemente aprovado, que inclui a do “nosso” Pinhosão. Vale a pena conhecer os relatórios que o fundamentaram. E vale muito a pena ler o comentário publicado no “ambio” sobre esses relatórios (consultar aqui relatórios e comentário). Não ter em conta as consequências das alterações climáticas na disponibilidade hídrica futura, muito mais do que incompetência, pode indiciar que o Programa visou, sobretudo, objectivos da área da construção civil.
. É preciso estar atento aos estudos de impacto ambiental que venham a ser publicados e contrariar a tendência para a aprovação acrítica destas medidas ((atenção, a este respeito, à campanha que se anuncia de divulgação do País). Se assim não for, é fatal como o destino: estamos feitos!

sábado, dezembro 08, 2007

Copiar o problema, desperdiçar a solução

Doisneau

A semana que agora termina ficou marcada pela anedota da taxa sobre os sacos de plástico. Mas para além do ridículo momentâneo, tivemos uma demonstração da força dos princípios de quem nos governa, das linhas estruturantes da sua política ambiental e de como... o respeitinho é muito bonito. Parece que o protesto veio dos lados da Sonae, o que bastou para que o ministro metesse a viola no saco.

No entanto, o problema causado pelo o uso massivo dos sacos de plástico merece outra atenção. Estão em causa números impressionantes. Mas a dificuldade da sua substituição, está muito relacionada com a organização do comércio, típica das grandes superfícies. Ao acabar com a proximidade face ao consumidor, concentrando múltiplas áreas de oferta, reforçou a necessidade de um material que permitisse o transporte de grandes quantidades de mercadorias. As características daquilo a que chamamos “vida urbana”, fez o resto. O que impressiona é a tendência para se copiar o modelo em meios como o nosso, passando da solução para o problema.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Início

Largo da Feira e Igreja Matriz

É uma espécie de início. Um quase “antes de tudo”. A imagem foi conseguida por volta de 1910 no que era o Largo da Feira, antes da construção da Ponte, antes da construção do Mercado, antes do Palácio da Justiça, antes do desenho do Parque da Senhora do Castelo, antes de... tanta coisa que simboliza a Vouzela dos nossos dias. Foi a partir daqui que se foi fazendo obra do sonho de muitos, num equilíbrio constante entre o edificado e o natural, entre as necessidades quotidianas dos seus habitantes e a consciência da importância da atracção turística. Tinha-se noção da delicadeza do espaço e dos riscos das intervenções excessivas. Vouzela, tal como o seu pastel, é um folhado fino que não está ao alcance de qualquer dente.

Foi precisamente há um ano que o nosso Manel Vaca inaugurou o espaço deste “Pastel”. Era quarta-feira e, talvez influenciado pelo mau tempo que se fazia sentir, foi directo ao “recheio”, que é como quem diz, à alma das coisas. Dava-se corpo a uma ideia simples, com o objectivo de reflectir sobre Vouzela e a região em que se insere. Sobre as “pedras” e sobre os homens. Pastel de Vouzela porque nada melhor para simbolizar a elegância de tudo quanto a “Mãe Natureza” nos legou e que alguns souberam enriquecer. Outros não. A causa continua a valer a pena, mas o objectivo está longe de ser alcançado. Agradecemos aos que nos têm acompanhado e garantimos “fornadas” para muitos mais. Use e abuse.