domingo, novembro 18, 2007

Falar de água em tempo de seca

Imagem dos anos 30 (retirada de Vouzela, Antiga Capital de Lafões e seus Arredores, Edição da Comissão de Iniciativa)

De acordo com os nossos “entendidos”, estamos num “ano seco, mas não de seca”. As albufeiras estão nos 40% da sua capacidade, mas o ministro defende que é necessário “desdramatizar” a situação. Grande erro. As secas previnem-se, não se resolvem. Agora era o momento certo para estimular a adopção de medidas de racionalização do consumo. Sobretudo, era a altura para assumir que a água é um problema prioritário do nosso país, já que os estudos apontam para uma redução, a curto prazo, de cerca de 20% nos nossos recursos hídricos.

Por aqui, o Vouga vai baixo. Com o desaparecimento da agricultura e o consequente uso (e abuso) dos “químicos”, alguns pensaram estar arredada a principal fonte de maus tratos da nossa água. Puro engano. A recuperação e defesa dos nossos rios e nascentes nunca foi entendida como uma necessidade urgente pelos responsáveis locais e, no ano passado, houve mesmo falta de água em algumas freguesias.

Convém explicar para os de fora que a água sempre foi, para nós, um elemento dominante da paisagem. Ela pura e simplesmente existia, a partir de inúmeras nascentes, correndo, ao sabor das necessidades, por regos e quelhas orientadores, muitas vezes transbordando e escorrendo pelos muros, estrada abaixo, alimentando os cursos principais. Estava lá, em quantidade e qualidade, não se pensava nisso.

Uma agricultura, mais desesperada do que pensada, foi responsável pelas primeiras agressões. Depois, um saneamento básico atamancado, entendeu os rios e ribeiros como uma espécie de “cloaca máxima” que, à borla, nos afastava a merda da porta. Os hotéis das Termas foram sempre uma das principais fontes de poluição do Vouga. Nos anos 70, os desperdícios dos aviários eram o grande inimigo dos que, no Verão, procuravam a Foz (zona de confluência dos rios Zela e Vouga) para um mergulho. Enfim, o perigo cheirava-se.

Foi desaparecendo a agricultura, foram abandonados os moinhos, iniciou-se a desordenada ocupação do solo pela construção. Os cursos de água perderam a sua função económica, ficando limitados ao estatuto de esgotos ou de empecilhos. Muitas nascentes foram atulhadas. A isto, responderam as autoridades com a medida mais ridícula que ainda há-de ser alvo de estudo: espalharam tabuletas a dizer “água imprópria para consumo”. E as tabuletas foram-se multiplicando...

Com a chegada dos primeiros fundos refinou-se a intervenção: vieram dinheiros para as ETARs que... nunca funcionaram. Luisa Schmidt no seu trabalho “Portugal Ambiental” (Portugal Ambiental. Casos & Causas, Oeiras, Celta Editora, 1998), diz que foi um claro caso de polícia- não deve haver polícias suficientes para tantos casos. Agora que se rapa o fundo ao tacho dos dinheiros europeus, não consta que a recuperação da qualidade da água mereça rótulo de PIN.

Estamos em ano seco e ameaçados pela seca. Diga o ministro o que disser, é preciso criar uma opinião pública forte que privilegie a recuperação e protecção dos recursos hídricos. É necessário criar uma cultura de consumo racional da água. Já!

quinta-feira, novembro 15, 2007

Hoje vamos à bola

A vida não está fácil para os “Vouzelenses”. Para todos, mas agora é mesmo de futebol que estamos a falar. Tendo iniciado a época com uma crise directiva, esteve quase para abandonar a competição na Divisão de Honra da Associação de Futebol de Viseu. Tal como o país, os nossos “Vouzelenses” têm uma longa experiência de crises. Veja-se, por exemplo, o que era publicado no “Comércio do Porto” de 15 de Outubro de 1949:

“Completa 20 anos de vida no próximo mês de Novembro, a Associação ‘Os Vouzelenses’.
Fundada em maré de entusiasmo, pela gente moça daquele tempo, tendo como finalidade principal o desporto, a educação cívica e o auxílio mútuo, nem sempre logrou viver em mar de rosas e, assim, ao atingir o seu vigésimo aniversário é verdadeiramente precária a sua acção. Apesar de tudo não a quizemos dispensar destas notas, talvez as únicas com que o seu aniversário será recordado!
Foram, se não estamos em erro, Joaquim Souto e Melo, Vitorino Figueiredo de Almeida Campos, António Francisco de Paiva, João Ferraz, Celso Giestas e Guilherme Cosme, os fundadores da colectividade.(...)
Não vingou, como era de desejar, o ideal da primeira hora. A Associação ‘Os Vouzelenses’, ora em franco progresso, ora em maré de abandono, tem vivido aos ‘arrancos’ fazendo dispersar rios de dinheiro. Mas se não foi feliz à nascença, nem por isso deixa de ter a sua história- história que é no final um pouco da própria vida da nossa terra!
E vem a propósito recordar: a primeira e última conferência levada a efeito na sua sede pelo distinto caramulano- o professor José Manuel da Silva; a escola nocturna de onde dois ou três adultos conseguiram sair soletrando; o teatro de amadores em que António Joaquim de Almeida Campos pôs, mais uma vez, à prova, a sua perseverante actividade; a época da ‘promoção’ com o esforçado dr. Eurico Gomes de Almeida; o ano áureo da sua existência com Armando Ribeiro de Almeida na presidência; e tanta e tanta coisa mais (...)”

O texto é longo, pelo que só transcrevemos uma pequena parte. Respeitamos a grafia da época e sublinhamos as ideias principais: para além do desporto, “Os Vouzelenses” foram pensados com o objectivo de promover a “educação cívica” e o “auxílio mútuo”. Tinham “escola nocturna”, grupo de teatro e promoviam conferências. Tudo isto, numa época que começava a ser avessa a associativismos. Quanto a momentos de crise, pelos vistos, já eram familiares. Talvez a reflexão sobre a história da colectividade contribua para ultrapassar a actual. E um bom resultado no “derby” do próximo fim-de-semana, também ajudava.
_________________________
Nota: Por coincidência, no momento em que publicávamos este "post", eram detidos dois árbitros da Associação de Futebol de Viseu e dois dirigentes do Lamego, por suspeitas de corrupção. Ao que parece (ver aqui), um dos jogos em que se tentava obter favores, era o que se vai realizar nas Chãs dentro de uma semana. De facto, quando até nos escalões distritais se chega a este ponto, não há dúvida de que o associativismo tem hoje outro significado (16/11/2007).

segunda-feira, novembro 12, 2007

Vouzela e Tentúgal: dois pasteis, uma causa comum

Caiu-nos há tempos na caixa do correio, o curioso “mail” que transcrevemos tal como nos chegou:

“Porque não um post dedicado ao quase desconhecimento geral da população portuguesa face aos pastéis de vouzela versus pastéis de tentúgal, dado que estes são muito semelhantes na forma, mas os primeiros muito superiores em tudo o resto? Em miúda, os meus pais traziam para casa, de longe a longe, uns pastéis folhados deliciosos com um creme de ovos ainda melhor. Não morámos em Vouzela, por isso suponho que isto acontecesse quando por acaso por lá passavam. Quando fui estudar para Coimbra, senti uma enorme alegria ao verificar que os tais pastéis se encontravam nas montras de qq pastelaria. Não tardou muito que decidisse, numa tarde, pedir um desses pastéis para recordar... Foi a desilusão! Conheci os tentugais...Nunca mais comi um tentúgal, tal deve ter sido a desilusão que o meu estômago sentiu naquele dia. Mas hoje continuo a tentar saber onde é que é possível encontrar pastéis de Vouzela para além de Vouzela.”

A verdade é que tudo gira em torno de ovos, farinha, manteiga e açúcar- o resto bebe na imaginação, no gosto e no engenho de quem os criou. Ambos nascidos na rica doçaria conventual, são indiscutivelmente obras abençoadas que, pelo caminho da boca, nos enriquecem o espírito.

A semelhança aparente entre os pastéis de Vouzela e os de Tentúgal, sempre alimentou um conjunto de crenças pouco documentadas e uma rivalidade sem qualquer sentido- ao fim e ao cabo, a diversidade é, ela própria, a maior riqueza. Estratégias comerciais diferentes, provocaram um maior conhecimento dos que são feitos lá para os lados de Montemor-o-Velho e levaram muitos vouzelenses a defenderem promoção semelhante para os da terra. Puro engano. Como se conclui do escrito da nossa leitora, nem sempre o que está mais ao alcance nos oferece a melhor qualidade.

Saídos da inspiração das freiras do Convento das Carmelitas de Tentúgal, só muito tarde adoptaram o nome da terra como identificação. A proximidade de Coimbra permitiu-lhes beneficiar da divulgação feita por professores e estudantes universitários que, sobretudo a partir da segunda década do século XX, tinham por hábito visitar Tentúgal para provar a iguaria. Se nesta fase os benefícios conseguidos pela terra foram indiscutíveis, já o mesmo não se pode dizer da opção industrial. Hoje, encontram-se pasteis de Tentúgal em toda a parte, quase todos os portugueses os provaram, mas a verdade é que poucos os conhecem. Os verdadeiros. Esses, tal como os de Vouzela, só mesmo no local.

Os pasteis de Vouzela não são melhores, nem piores- são diferentes. Isso basta. Um dos produtos mais conhecidos da região, verdade se diga que não são satisfatoriamente conhecidos e divulgados por ela. A sua história está pouco estudada e a sua origem perde-se nas curvas do tempo, tal como o convento que os criou. É, pois, um dos principais veículos promocionais de Vouzela com considerável margem de progressão. Até porque se lhe disserem que os pode provar numa qualquer área de serviço, ou numa pastelaria fora da terra, desconfie. Os verdadeiros pastéis, de Vouzela e de Tentúgal, não têm conservantes, nem são compatíveis com a frieza da produção industrial. Ainda bem. Um bom motivo para nos visitar(em).

quinta-feira, novembro 08, 2007

Há bons ventos que sopram de Espanha

Benidorm nos anos 60 e na actualidade- um "filme" também nosso conhecido (imagem retirada do documento Estrategia para la Sostenibilidad de la Costa)

O tempo vai encarregar-se de mostrar que é muito mais o que nos aproxima dos nossos vizinhos espanhóis, do que aquilo que nos afasta. Mesmo na asneira. Por exemplo, lá como cá apostou-se num crescimento económico muito baseado no mercado interno, colocando a especulação imobiliária na vanguarda. Só que em ponto grande. De ambos os lados da fronteira, “litoral” é hoje sinónimo de caos, com impressionantes áreas de edificado inútil de que alguns lucraram, mas que vai precisar do contributo de todos para ser recuperado. Os nuestros hermanos já fizeram as contas.

Prevendo como consequência das alterações climáticas, a entrada das águas 15 metros terra dentro, o Ministério do Ambiente lá do sítio apresentou um documento intitulado “Estrategia para la Sostenibilidad de la Costa” (ver aqui), onde se define como terapia a devolução ao domínio público de vastas áreas hoje privadas. Lê-se na página 19 : “La gran apuesta de la estrategia es, no obstante, el establecimiento de nuevos modelos de desarrollo en la franja costera. Modelos que no estén basados en la ocupación urbanística de la franja costera sino, al contrario, que se apoyen y potencien el recurso 'naturalidad' del litoral y permitan, de este modo, conservar para futuras generaciones lo que nosotros hemos recibido de nuestros ancestros”.

Aliás, todo o documento defende que o desenvolvimento económco, longe de ser conseguido com a apropriação privada do território, só será possível, pelo contrário, com a defesa dos espaços naturais mantidos no domínio público. Os números das expropriações estão lá bem contados e o jornal “El País”, numa série de reportagens publicadas até ao princípio deste mês, identifica as demolições necessárias (ver aqui um exemplo).

Ora, sabendo nós que quando os nossos vizinhos tiverem os pés de molho, já precisamos andar com as calças arregaçadas até aos joelhos, perguntamos de que se está à espera. Sobretudo, de que se está à espera para assumir que a visão mercantil do território (solo) que nos tem dominado, não serve. Todo o território. Porque se pensamos estar, finalmente, resguardados do mal, na nossa condição de homens do interior, com a vantagem de termos que fazer menos quilómetros para estender a toalha ao sol, não nos esqueçamos das barbaridades que se têm cometido na gestão dos recursos hídricos que uma subida das águas do mar vai degradar ainda mais.

Há bons ventos que sopram de Espanha. Já que andamos armados em vanguarda das energias alternativas, seria bom que os aproveitássemos.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Mosaico

Se forem ao “Google” e escreverem “Vouzela” no motor de busca, aparecem cerca de 330 mil entradas na pesquisa “web” e mais de 6 mil nas “imagens”. Há de tudo, desde páginas comerciais- onde se incluem anúncios de solitários encontros (para ambos os sexos)- até listas de receitas culinárias, passando por estudos genealógicos, observações astronómicas, colecções de postais, registos de viagens. Em muitas delas assinala-se a passagem por estas terras com uma fotografia de uma paisagem, de um pormenor. São imagens que de algum modo reflectem como nos vêem e o conhecimento que têm de nós. Imagens que revelam o mais conhecido e também o muito que falta conhecer.

Navegando um pouco ao acaso, recolhemos alguns desses registos ilustrados que aqui deixamos como uma espécie de mosaico de nós próprios. Façam o favor de “clicar”, apreciar e reflectir. Muitas das páginas apresentadas, têm outros registos de Vouzela. É só procurar.

Festas
Ligação 1
Ponte do comboio
Ligação 1
Ligação2
Reserva Botânica de Cambarinho
Ligação 1
Temas diversos
Ligação 1
Ligação 2
Torres medievais
Ligação 1

sexta-feira, novembro 02, 2007

O carro de bois

Carro de bois a subir a Rua da Ponte. Desconhece-se a data (foto retirada do "Burro quando foge"- clique para ampliar)

Tinha um chiar arrastado, como arrastado era o tempo da sua viagem. Um barulho inconfundível que chegava muito antes dele chegar, o carro de bois. Transportava os cestos cheios de cachos depois das vindimas, transportava o bagaço para o alambique, transportava as pipas. O carro transportava carradas. Bens e pessoas com o tempo próprio de outro tempo. À frente dos bois só o homem, aguilhão em riste, qual batuta a marcar o passo e o compasso. “Ouuuuuu”! Pára a besta, pára o carro, pára o tempo. Fica a memória, uma imagem. Tremida.

quinta-feira, novembro 01, 2007

O "verde sujo" dos eucaliptos

(Cartaz brasileiro para campanha contra a desertificação)

“A Comissão não pode, por um lado, encorajar a aposta nos biocombustíveis e biomassa e, por outro, ser completamente contrária às espécies de crescimento rápido”.

A “pérola” é da autoria de Jaime Silva, ministro da agricultura (ainda) em exercício, comentando a recusa de Bruxelas em aprovar o Plano de Desenvolvimento Rural português (PDR), enquanto nele estivesse previsto o apoio em 30 por cento a novas plantações de eucalipto (Público, 25/10/2007). Já não está devido à pressa em deitar a mão aos milhões que nos hão-de amparar até 2013, mas o ministro promete voltar à carga. Acrescente-se que outra questão polémica do nosso PDR era a aposta no regadio.

Dificilmente se voltará a encontrar uma declaração que mostre tão claramente os fundamentos da política ambiental deste governo. Sim ao “verde”, desde que seja área de negócio. Melhor: desde que não ponha em causa um qualquer negócio. Preferencialmente de "crescimento rápido". Como os eucaliptos.

Repare-se que o financiamento não estava pensado para reconverter e limitar a mancha de eucaliptal, completamente desordenada, que vai dominando o território. O objectivo era criar novos eucaliptais o que, segundo o ministro, será apoiado de qualquer maneira. Falta saber se ainda vai sobrar dinheiro para pagar a conta da água, já que a única que se prevê subsidiada é para o regadio. E quando falamos em regadio, devemos pensar nas margens do Alqueva e naqueles tapetes verdes com buracos, onde se enfiam umas bolinhas brancas...
____________________
PS: Vêm aí os últimos fundos. Todos às trincheiras e olhos bem abertos!