segunda-feira, novembro 12, 2007

Vouzela e Tentúgal: dois pasteis, uma causa comum

Caiu-nos há tempos na caixa do correio, o curioso “mail” que transcrevemos tal como nos chegou:

“Porque não um post dedicado ao quase desconhecimento geral da população portuguesa face aos pastéis de vouzela versus pastéis de tentúgal, dado que estes são muito semelhantes na forma, mas os primeiros muito superiores em tudo o resto? Em miúda, os meus pais traziam para casa, de longe a longe, uns pastéis folhados deliciosos com um creme de ovos ainda melhor. Não morámos em Vouzela, por isso suponho que isto acontecesse quando por acaso por lá passavam. Quando fui estudar para Coimbra, senti uma enorme alegria ao verificar que os tais pastéis se encontravam nas montras de qq pastelaria. Não tardou muito que decidisse, numa tarde, pedir um desses pastéis para recordar... Foi a desilusão! Conheci os tentugais...Nunca mais comi um tentúgal, tal deve ter sido a desilusão que o meu estômago sentiu naquele dia. Mas hoje continuo a tentar saber onde é que é possível encontrar pastéis de Vouzela para além de Vouzela.”

A verdade é que tudo gira em torno de ovos, farinha, manteiga e açúcar- o resto bebe na imaginação, no gosto e no engenho de quem os criou. Ambos nascidos na rica doçaria conventual, são indiscutivelmente obras abençoadas que, pelo caminho da boca, nos enriquecem o espírito.

A semelhança aparente entre os pastéis de Vouzela e os de Tentúgal, sempre alimentou um conjunto de crenças pouco documentadas e uma rivalidade sem qualquer sentido- ao fim e ao cabo, a diversidade é, ela própria, a maior riqueza. Estratégias comerciais diferentes, provocaram um maior conhecimento dos que são feitos lá para os lados de Montemor-o-Velho e levaram muitos vouzelenses a defenderem promoção semelhante para os da terra. Puro engano. Como se conclui do escrito da nossa leitora, nem sempre o que está mais ao alcance nos oferece a melhor qualidade.

Saídos da inspiração das freiras do Convento das Carmelitas de Tentúgal, só muito tarde adoptaram o nome da terra como identificação. A proximidade de Coimbra permitiu-lhes beneficiar da divulgação feita por professores e estudantes universitários que, sobretudo a partir da segunda década do século XX, tinham por hábito visitar Tentúgal para provar a iguaria. Se nesta fase os benefícios conseguidos pela terra foram indiscutíveis, já o mesmo não se pode dizer da opção industrial. Hoje, encontram-se pasteis de Tentúgal em toda a parte, quase todos os portugueses os provaram, mas a verdade é que poucos os conhecem. Os verdadeiros. Esses, tal como os de Vouzela, só mesmo no local.

Os pasteis de Vouzela não são melhores, nem piores- são diferentes. Isso basta. Um dos produtos mais conhecidos da região, verdade se diga que não são satisfatoriamente conhecidos e divulgados por ela. A sua história está pouco estudada e a sua origem perde-se nas curvas do tempo, tal como o convento que os criou. É, pois, um dos principais veículos promocionais de Vouzela com considerável margem de progressão. Até porque se lhe disserem que os pode provar numa qualquer área de serviço, ou numa pastelaria fora da terra, desconfie. Os verdadeiros pastéis, de Vouzela e de Tentúgal, não têm conservantes, nem são compatíveis com a frieza da produção industrial. Ainda bem. Um bom motivo para nos visitar(em).

quinta-feira, novembro 08, 2007

Há bons ventos que sopram de Espanha

Benidorm nos anos 60 e na actualidade- um "filme" também nosso conhecido (imagem retirada do documento Estrategia para la Sostenibilidad de la Costa)

O tempo vai encarregar-se de mostrar que é muito mais o que nos aproxima dos nossos vizinhos espanhóis, do que aquilo que nos afasta. Mesmo na asneira. Por exemplo, lá como cá apostou-se num crescimento económico muito baseado no mercado interno, colocando a especulação imobiliária na vanguarda. Só que em ponto grande. De ambos os lados da fronteira, “litoral” é hoje sinónimo de caos, com impressionantes áreas de edificado inútil de que alguns lucraram, mas que vai precisar do contributo de todos para ser recuperado. Os nuestros hermanos já fizeram as contas.

Prevendo como consequência das alterações climáticas, a entrada das águas 15 metros terra dentro, o Ministério do Ambiente lá do sítio apresentou um documento intitulado “Estrategia para la Sostenibilidad de la Costa” (ver aqui), onde se define como terapia a devolução ao domínio público de vastas áreas hoje privadas. Lê-se na página 19 : “La gran apuesta de la estrategia es, no obstante, el establecimiento de nuevos modelos de desarrollo en la franja costera. Modelos que no estén basados en la ocupación urbanística de la franja costera sino, al contrario, que se apoyen y potencien el recurso 'naturalidad' del litoral y permitan, de este modo, conservar para futuras generaciones lo que nosotros hemos recibido de nuestros ancestros”.

Aliás, todo o documento defende que o desenvolvimento económco, longe de ser conseguido com a apropriação privada do território, só será possível, pelo contrário, com a defesa dos espaços naturais mantidos no domínio público. Os números das expropriações estão lá bem contados e o jornal “El País”, numa série de reportagens publicadas até ao princípio deste mês, identifica as demolições necessárias (ver aqui um exemplo).

Ora, sabendo nós que quando os nossos vizinhos tiverem os pés de molho, já precisamos andar com as calças arregaçadas até aos joelhos, perguntamos de que se está à espera. Sobretudo, de que se está à espera para assumir que a visão mercantil do território (solo) que nos tem dominado, não serve. Todo o território. Porque se pensamos estar, finalmente, resguardados do mal, na nossa condição de homens do interior, com a vantagem de termos que fazer menos quilómetros para estender a toalha ao sol, não nos esqueçamos das barbaridades que se têm cometido na gestão dos recursos hídricos que uma subida das águas do mar vai degradar ainda mais.

Há bons ventos que sopram de Espanha. Já que andamos armados em vanguarda das energias alternativas, seria bom que os aproveitássemos.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Mosaico

Se forem ao “Google” e escreverem “Vouzela” no motor de busca, aparecem cerca de 330 mil entradas na pesquisa “web” e mais de 6 mil nas “imagens”. Há de tudo, desde páginas comerciais- onde se incluem anúncios de solitários encontros (para ambos os sexos)- até listas de receitas culinárias, passando por estudos genealógicos, observações astronómicas, colecções de postais, registos de viagens. Em muitas delas assinala-se a passagem por estas terras com uma fotografia de uma paisagem, de um pormenor. São imagens que de algum modo reflectem como nos vêem e o conhecimento que têm de nós. Imagens que revelam o mais conhecido e também o muito que falta conhecer.

Navegando um pouco ao acaso, recolhemos alguns desses registos ilustrados que aqui deixamos como uma espécie de mosaico de nós próprios. Façam o favor de “clicar”, apreciar e reflectir. Muitas das páginas apresentadas, têm outros registos de Vouzela. É só procurar.

Festas
Ligação 1
Ponte do comboio
Ligação 1
Ligação2
Reserva Botânica de Cambarinho
Ligação 1
Temas diversos
Ligação 1
Ligação 2
Torres medievais
Ligação 1

sexta-feira, novembro 02, 2007

O carro de bois

Carro de bois a subir a Rua da Ponte. Desconhece-se a data (foto retirada do "Burro quando foge"- clique para ampliar)

Tinha um chiar arrastado, como arrastado era o tempo da sua viagem. Um barulho inconfundível que chegava muito antes dele chegar, o carro de bois. Transportava os cestos cheios de cachos depois das vindimas, transportava o bagaço para o alambique, transportava as pipas. O carro transportava carradas. Bens e pessoas com o tempo próprio de outro tempo. À frente dos bois só o homem, aguilhão em riste, qual batuta a marcar o passo e o compasso. “Ouuuuuu”! Pára a besta, pára o carro, pára o tempo. Fica a memória, uma imagem. Tremida.

quinta-feira, novembro 01, 2007

O "verde sujo" dos eucaliptos

(Cartaz brasileiro para campanha contra a desertificação)

“A Comissão não pode, por um lado, encorajar a aposta nos biocombustíveis e biomassa e, por outro, ser completamente contrária às espécies de crescimento rápido”.

A “pérola” é da autoria de Jaime Silva, ministro da agricultura (ainda) em exercício, comentando a recusa de Bruxelas em aprovar o Plano de Desenvolvimento Rural português (PDR), enquanto nele estivesse previsto o apoio em 30 por cento a novas plantações de eucalipto (Público, 25/10/2007). Já não está devido à pressa em deitar a mão aos milhões que nos hão-de amparar até 2013, mas o ministro promete voltar à carga. Acrescente-se que outra questão polémica do nosso PDR era a aposta no regadio.

Dificilmente se voltará a encontrar uma declaração que mostre tão claramente os fundamentos da política ambiental deste governo. Sim ao “verde”, desde que seja área de negócio. Melhor: desde que não ponha em causa um qualquer negócio. Preferencialmente de "crescimento rápido". Como os eucaliptos.

Repare-se que o financiamento não estava pensado para reconverter e limitar a mancha de eucaliptal, completamente desordenada, que vai dominando o território. O objectivo era criar novos eucaliptais o que, segundo o ministro, será apoiado de qualquer maneira. Falta saber se ainda vai sobrar dinheiro para pagar a conta da água, já que a única que se prevê subsidiada é para o regadio. E quando falamos em regadio, devemos pensar nas margens do Alqueva e naqueles tapetes verdes com buracos, onde se enfiam umas bolinhas brancas...
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PS: Vêm aí os últimos fundos. Todos às trincheiras e olhos bem abertos!

segunda-feira, outubro 29, 2007

O "ranking" das escolas

Doisneau

Já tudo foi dito sobre o “ranking” das escolas e sobre a manipulação de que é alvo. Ao fim e ao cabo, tudo se reduz a problemas sociais e a condições que umas conseguem evitar e têm e as outras não. Mas talvez valha a pena olhar para estas listas como indicadores de uma geografia da exclusão que não só existe, como é fácil marcar num mapa. Não se trata de limitar tudo a uma espécie de determinismo que reduz os resultados escolares ao dinheiro, mas de perceber que os melhores resultados estão onde há mais condições, onde há mais emprego e, sobretudo, onde faz mais sentido ter bons resultados escolares, porque daí resultam vantagens. As reformas da escola fazem-se na economia e na sociedade.

Talvez por isso, a pressa com que a Ministra da Educação veio relativizar os números. Não interessa que se generalize a ideia de que a Escola está a ser usada como a única medida social de integração, em regiões onde a resposta do Estado se tem limitado a pagar a exclusão (o RSI não tem sido outra coisa)- repare-se no novo regime de faltas dos alunos. E não interessa, porque os resultados vão ser catastróficos: ninguém investe em algo (formação escolar) cujas vantagens não percebe, sobretudo se viver rodeado de referências (a família) que há muito deixaram de ter objectivos e que, mais do que viver, sobrevivem.

Mas o “ranking” pode ser o auxiliar de planeamento, se tal coisa houver. Por exemplo, escolhendo uma das muitas listas publicadas, vemos que a Escola de São Pedro do Sul ocupa a posição 188, a de Oliveira de Frades a 210 e a de Vouzela a 393. Comparando com outras listas, há pequenas diferenças que alteram a posição entre Oliveira e São Pedro- pouco significativo. Agora, como explicar a posição de Vouzela que no passado já obteve resultados bem melhores e que trabalha num meio com características semelhantes às dos outros dois concelhos? Pequenas respostas a dúvidas como esta, são o que verdadeiramente interessa e o que pode dar algum sentido a um “ranking” que tem tido um uso exibicionista de ataque pouco fundamentado à escola pública.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Sublinhados nossos

Já devíamos ter falado no assunto que vimos, pela primeira vez, no “A Ilusão da Visão”, mas que tem informação actualizada no “Notícias d’Aldeia”. Trata-se de reivindicar a proibição da caça numa área que tem o estatuto de “Important Bird Area” atribuído pela Birdlife International e pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. Se a caça se mantiver, será melhor chamar-lhe “o paraíso do caçador”. Há petição para assinar.

Águas negras

O Instituto Regulador de Águas e Resíduos publicou o relatório sobre a qualidade da água para consumo humano relativo a 2006. Por ele ficamos a saber que ainda existem situações graves de falta de qualidade no abastecimento deste bem essencial à população portuguesa, sobretudo em regiões do Interior. Chamem-nos demagógicos mas, não sei quantos milhões de fundos europeus depois, não sei quantos estádios de futebol e outra tanta obra inútil, é inadmissível este estado das coisas. Vale a pena ler, a este respeito, o “post” do “Estrago da Nação” com o significativo título “Os porcos estão mais protegidos do que alguns portugueses”.

Referendar a cidadania

Já aqui falamos no “Tratado de Lisboa” e na tentativa, assumida mais por uns do que por outros, de não o submeter ao referendo. Multiplicam-se os argumentos a favor e contra, mas, no que nos diz respeito, parece-nos que o assunto tem uma importância particular. Depois das alterações efectuadas na composição dos executivos municipais e do que se ouve a propósito da nova “lei eleitoral”, começa a estar em causa a própria democracia. Não basta calendarizar actos eleitorais- é preciso garantir a submissão dos eleitos aos eleitores. E se os temas são complexos, de leitura difícil, aprendam a apresentá-los com clareza. É por isso que se torna importante conhecer as iniciativas que começam a surgir a favor do referendo (como esta).

Construção alternativa

Há cada vez mais quem pense que arquitectos e engenheiros devem fazer um maior investimento na procura e aconselhamento de novos materiais de construção. Vai acabar por ser inevitável, devido à pressão imposta pela necessidade de reduzir o consumo de energia, mas, para já, o tijolo e o cimento reinam entre nós com custos ambientais significativos. Por isso, pensamos ser de todo o interesse divulgar experiências práticas neste domínio. A que apresentamos, fomos buscá-la ao “Quinta do Sargaçal” (que felizmente não acabou), mas tem um blogue onde se mostra a evolução da obra e se fala nas dificuldades encontradas.