sexta-feira, novembro 02, 2007

O carro de bois

Carro de bois a subir a Rua da Ponte. Desconhece-se a data (foto retirada do "Burro quando foge"- clique para ampliar)

Tinha um chiar arrastado, como arrastado era o tempo da sua viagem. Um barulho inconfundível que chegava muito antes dele chegar, o carro de bois. Transportava os cestos cheios de cachos depois das vindimas, transportava o bagaço para o alambique, transportava as pipas. O carro transportava carradas. Bens e pessoas com o tempo próprio de outro tempo. À frente dos bois só o homem, aguilhão em riste, qual batuta a marcar o passo e o compasso. “Ouuuuuu”! Pára a besta, pára o carro, pára o tempo. Fica a memória, uma imagem. Tremida.

quinta-feira, novembro 01, 2007

O "verde sujo" dos eucaliptos

(Cartaz brasileiro para campanha contra a desertificação)

“A Comissão não pode, por um lado, encorajar a aposta nos biocombustíveis e biomassa e, por outro, ser completamente contrária às espécies de crescimento rápido”.

A “pérola” é da autoria de Jaime Silva, ministro da agricultura (ainda) em exercício, comentando a recusa de Bruxelas em aprovar o Plano de Desenvolvimento Rural português (PDR), enquanto nele estivesse previsto o apoio em 30 por cento a novas plantações de eucalipto (Público, 25/10/2007). Já não está devido à pressa em deitar a mão aos milhões que nos hão-de amparar até 2013, mas o ministro promete voltar à carga. Acrescente-se que outra questão polémica do nosso PDR era a aposta no regadio.

Dificilmente se voltará a encontrar uma declaração que mostre tão claramente os fundamentos da política ambiental deste governo. Sim ao “verde”, desde que seja área de negócio. Melhor: desde que não ponha em causa um qualquer negócio. Preferencialmente de "crescimento rápido". Como os eucaliptos.

Repare-se que o financiamento não estava pensado para reconverter e limitar a mancha de eucaliptal, completamente desordenada, que vai dominando o território. O objectivo era criar novos eucaliptais o que, segundo o ministro, será apoiado de qualquer maneira. Falta saber se ainda vai sobrar dinheiro para pagar a conta da água, já que a única que se prevê subsidiada é para o regadio. E quando falamos em regadio, devemos pensar nas margens do Alqueva e naqueles tapetes verdes com buracos, onde se enfiam umas bolinhas brancas...
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PS: Vêm aí os últimos fundos. Todos às trincheiras e olhos bem abertos!

segunda-feira, outubro 29, 2007

O "ranking" das escolas

Doisneau

Já tudo foi dito sobre o “ranking” das escolas e sobre a manipulação de que é alvo. Ao fim e ao cabo, tudo se reduz a problemas sociais e a condições que umas conseguem evitar e têm e as outras não. Mas talvez valha a pena olhar para estas listas como indicadores de uma geografia da exclusão que não só existe, como é fácil marcar num mapa. Não se trata de limitar tudo a uma espécie de determinismo que reduz os resultados escolares ao dinheiro, mas de perceber que os melhores resultados estão onde há mais condições, onde há mais emprego e, sobretudo, onde faz mais sentido ter bons resultados escolares, porque daí resultam vantagens. As reformas da escola fazem-se na economia e na sociedade.

Talvez por isso, a pressa com que a Ministra da Educação veio relativizar os números. Não interessa que se generalize a ideia de que a Escola está a ser usada como a única medida social de integração, em regiões onde a resposta do Estado se tem limitado a pagar a exclusão (o RSI não tem sido outra coisa)- repare-se no novo regime de faltas dos alunos. E não interessa, porque os resultados vão ser catastróficos: ninguém investe em algo (formação escolar) cujas vantagens não percebe, sobretudo se viver rodeado de referências (a família) que há muito deixaram de ter objectivos e que, mais do que viver, sobrevivem.

Mas o “ranking” pode ser o auxiliar de planeamento, se tal coisa houver. Por exemplo, escolhendo uma das muitas listas publicadas, vemos que a Escola de São Pedro do Sul ocupa a posição 188, a de Oliveira de Frades a 210 e a de Vouzela a 393. Comparando com outras listas, há pequenas diferenças que alteram a posição entre Oliveira e São Pedro- pouco significativo. Agora, como explicar a posição de Vouzela que no passado já obteve resultados bem melhores e que trabalha num meio com características semelhantes às dos outros dois concelhos? Pequenas respostas a dúvidas como esta, são o que verdadeiramente interessa e o que pode dar algum sentido a um “ranking” que tem tido um uso exibicionista de ataque pouco fundamentado à escola pública.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Sublinhados nossos

Já devíamos ter falado no assunto que vimos, pela primeira vez, no “A Ilusão da Visão”, mas que tem informação actualizada no “Notícias d’Aldeia”. Trata-se de reivindicar a proibição da caça numa área que tem o estatuto de “Important Bird Area” atribuído pela Birdlife International e pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. Se a caça se mantiver, será melhor chamar-lhe “o paraíso do caçador”. Há petição para assinar.

Águas negras

O Instituto Regulador de Águas e Resíduos publicou o relatório sobre a qualidade da água para consumo humano relativo a 2006. Por ele ficamos a saber que ainda existem situações graves de falta de qualidade no abastecimento deste bem essencial à população portuguesa, sobretudo em regiões do Interior. Chamem-nos demagógicos mas, não sei quantos milhões de fundos europeus depois, não sei quantos estádios de futebol e outra tanta obra inútil, é inadmissível este estado das coisas. Vale a pena ler, a este respeito, o “post” do “Estrago da Nação” com o significativo título “Os porcos estão mais protegidos do que alguns portugueses”.

Referendar a cidadania

Já aqui falamos no “Tratado de Lisboa” e na tentativa, assumida mais por uns do que por outros, de não o submeter ao referendo. Multiplicam-se os argumentos a favor e contra, mas, no que nos diz respeito, parece-nos que o assunto tem uma importância particular. Depois das alterações efectuadas na composição dos executivos municipais e do que se ouve a propósito da nova “lei eleitoral”, começa a estar em causa a própria democracia. Não basta calendarizar actos eleitorais- é preciso garantir a submissão dos eleitos aos eleitores. E se os temas são complexos, de leitura difícil, aprendam a apresentá-los com clareza. É por isso que se torna importante conhecer as iniciativas que começam a surgir a favor do referendo (como esta).

Construção alternativa

Há cada vez mais quem pense que arquitectos e engenheiros devem fazer um maior investimento na procura e aconselhamento de novos materiais de construção. Vai acabar por ser inevitável, devido à pressão imposta pela necessidade de reduzir o consumo de energia, mas, para já, o tijolo e o cimento reinam entre nós com custos ambientais significativos. Por isso, pensamos ser de todo o interesse divulgar experiências práticas neste domínio. A que apresentamos, fomos buscá-la ao “Quinta do Sargaçal” (que felizmente não acabou), mas tem um blogue onde se mostra a evolução da obra e se fala nas dificuldades encontradas.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Mentiras em tom esverdeado

A reprodução desta imagem é proibida... por muito que apeteça.

Promover o pedestrianismo, o uso da bicicleta, a partilha do transporte individual, tudo excelentes ideias. Certo? Talvez não...

Um dos perigos que sempre se disse existir na apropriação do discurso ambiental por parte dos detentores dos cargos de poder, foi o de se criar a ideia de que os problemas se resolveriam apenas à custa da mudança de hábitos individuais. De facto, era previsível que essa seria a estratégia para transferir o preço da solução para o cidadão comum, evitando discussões sobre política económica e modelos de crescimento. É isso que está a acontecer.

Quando, recentemente, o governo lançou o projecto de construção de 10 novas barragens, algumas delas representando a perda irrecuperável de recursos naturais únicos (Sabor), a justificação foi o desenvolvimento das energias alternativas (nomeadamente a eólica) de modo a reduzir a emissão de gases responsáveis pelo efeito de estufa. Ficou por dizer que nada de significativo foi feito, até ao momento, para obrigar as indústrias a repensarem o seu consumo de energia (com reconhecidos desperdícios) e, para além de papel escrito, nada se fez para promover um salto qualitativo na construção, também ela com grandes responsabilidades na factura da electricidade.

Ainda mais recentemente, lemos o que está a ser pensado, no âmbito da União Europeia, para reduzir os estragos provocados pela circulação automóvel. Conselhos, conselhos e mais conselhos. Costumamos dizer, em bom português, que “de boas intenções está o inferno cheio”. Pois é disso mesmo que se trata. Pressão sobre a indústria para reduzir a dependência do petróleo? Isso é que era bom! Pressionar uma maior investimento no comboio? Esperem sentados. Falar claro sobre a irresponsabilidade de alguns governos que se mantêm indiferentes à necessidade de organizarem uma alternativa real ao nível do transporte público? Está bem, está...Cada um faz o que quer, quando quiser e... seja o que Deus quiser. Medidas concretas, só as que dependam de cada um de nós, simples cidadãos, que algum imposto há-de por aí vir para garantir a motivação para a actividade física ou, de preferência, para trocar de carro por outro menos poluente. “Business, just business”. Em tons de verde, claro.

Já agora, no que nos diz respeito a nós que resistimos fora das grandes cidades, a quem empurraram para o uso crescente do automóvel ou da camioneta, nem se fala. A malta não precisa. Pobrezinhos, mas limpinhos, pois então- antes fosse, mas os motivos são outros. Neste momento, 60% da população europeia vive já amontoada em “urbes” de grande e média dimensão e, muito em breve, serão 80%. Nós, os “outros”, pouco contamos em impostos e votos. Logo, pouco contamos. Ponto final. E na impossibilidade de irmos a Viseu ou a Aveiro a pé ou de bicicleta, pagamos. Pelas emissões do automóvel, pelo uso da estrada (sim, as portagens), pelo estacionamento. Pagamos pela defesa de um ambiente que é de todos, que tem sido destruído, sobretudo, por alguns, mas cuja factura dos estragos será entregue aos do costume: os mais fracos.

Resumindo e concluindo, tudo se limita à tentativa de nos convencerem de que a solução está em andarmos mais a pé, darmos mais ao pedal e não nos esquecermos de apagar a luz. É a mentira “verde”, cor que, pelos vistos, fica bem com tudo (e com todos). Porque as notas de cem também são verdes. Ou esverdeadas.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Obrigadinho

© Robert e Shana ParkeHarrison.

. A redução do número de acidentes na A25, comparativamente com o que se passava no IP5, levou os responsáveis a reconhecer que o traçado mal feito, a pedido de interesses nunca assumidos, esteve na origem de muitas das situações graves ali vividas. Centenas de mortes depois. Calculamos que as famílias das vítimas agradeçam o reconhecimento da sua razão.

. Mantendo-se na lista das mais endividadas, a Câmara Municipal de Vouzela não tem conseguido “fazer obra”, o que contribuiu para que não tenha aumentado a área do concelho afectada por estragos. Os cidadãos que sempre disseram que eles estão bem é quando estão quietos, agradecem o reconhecimento da sua razão e, se prometerem continuar assim, até podem pensar em dar-lhes o voto.

. Portugal atingiu os objectivos na redução do défice. Ao mesmo tempo, ficamos a saber que existem 2 milhões de pobres entre nós e que aumenta a diferença entre os muito ricos e os muitos pobres. Ou seja, tal como suspeitávamos, essa treta do défice em nada contribuiu para a nossa felicidade. Os portugueses que não são filhos do senhor Jardim Gonçalves, agradecem o reconhecimento da sua razão.

. O petróleo prepara-se para, mais uma vez, justificar o avanço para a guerra. Ao mesmo tempo, não há governo que não jure tudo estar a fazer para reduzir o seu consumo, a começar pelo dos Estados Unidos. Aqueles que sempre disseram que enquanto houver um cêntimo a ganhar com o estrago, o discurso ambiental não vai passar de palavras, agradecem o reconhecimento da sua razão.

. Os jornais noticiam que o novo Tratado da União Europeia é incompreensível, depois de já terem noticiado o empenho dos diversos governos em evitar o seu referendo. Todos os que pensam que a grande preocupação desta Europa é arranjar maneira de acabar com os cidadãos, agradecem. O reconhecimento da sua razão.

terça-feira, outubro 16, 2007

Turismo... pois, o turismo

Doisneau

Turismo... pois, o turismo. É a ele que se confiam todas as regiões a que se não sabe o que fazer, assim uma espécie de Senhora dos Aflitos da actividade económica. Na realidade (e com as excepções do costume), tem sido mais um pretexto para construir sem limites nem sentido. Não só em Portugal.

Assim, não admira o diagnóstico feito pela Agência Europeia do Ambiente aos estragos provocados pela actividade: excesso de urbanização, elevado consumo de água, lixo e perda da biodiversidade. Curiosamente, já em Maio deste ano, o senhor Jean-Claude Baumgarten, presidente executivo do Conselho Mundial de Viagens e Turismo, avisava durante a sua estadia em Portugal: “não façam como a Espanha, não construam demais”. Pois sim...

O nosso principal problema, o nosso principal recurso

Este tema levanta importantes áreas de reflexão que interessam- muito- a Lafões. Não temos o caos do Algarve, não somos ameaçados pela cobiça que paira sobre o litoral alentejano, mas temos sido dirigidos por gente que bem gostaria de aqui ver instalados esse caos e essa cobiça. Gente, para quem é preciso “domesticar” o território, construir tudo, desde o simples “parque de merendas” até ao parque de estacionamento em cada ponto de interesse, passando pela plataforma, aplanada, de preferência cimentada para estender a toalha. Gente que se relaciona mal com as características naturais e históricas do sítio onde vive. Este é o nosso principal problema.

Turismo é, por definição, movimento, viagem. Ora, ninguém sai do mesmo sítio se não for para conhecer coisas diferentes. Quem quer estar fechado num hotel, não precisa vir para aqui, nem vem. Optar pela região de Lafões resulta da vontade em conhecer a paisagem serrana com toda a sua riqueza e contrastes, a variedade do seu património natural e edificado, a especificidade da sua gastronomia e do seu artesanato. Tudo isto existe sem necessitar de um tostão ou de uma gota de suor dos nossos responsáveis. Mais: de acordo com todos os estudos são esses os nossos principais recursos, os que mais atraem o turista, os eixos estruturantes obrigatórios de todos os projectos.

Dos responsáveis locais apenas se deseja que saibam organizar, “evitando a decoração pela decoração”, uma rede integrada de serviços que facilite e enriqueça o contacto com o meio envolvente, tendo em conta os destinatários (o mercado). De forma discreta, respeitando as duas regras de ouro destas coisas:
1º- o principal protagonista é o meio e não o presidente da câmara, o presidente da junta, o industrial, o comerciante;
2º- a preservação do meio (a galinha dos ovos de ouro) obriga a definir limites de ocupação, ou seja, o ponto a partir do qual começa o estrago.

Assumir as especificidades da região

Infelizmente, não é isso que se tem feito. Para além das intervenções desordenadas que se têm permitido, com significativos impactos na paisagem, alguns dos empreendimentos pura e simplesmente ignoram as especificidades locais. Veja-se, por exemplo, o sítio na net das Termas de São Pedro do Sul, o nosso principal serviço turístico (aqui). Será difícil encontrar melhor exemplo de incapacidade de assumir a região em que se insere, sentindo-se, ainda, o velho tique provinciano de não querer falar em nada que saia dos estreitos limites do concelho. Por muito simpáticas que consideremos as duas “recepcionistas” da página, nada ali existe que nos revele a relação entre o empreendimento e as características naturais da sua localização. E se a ideia é apresentarem-se como alternativa a uma viagem ao Hawai... esqueçam (já agora, onde será que foram buscar a ideia dos castores?). Só por curiosidade, compare-se com a página das termas de Spa (Bélgica) e veja-se o seu álbum de fotografias (aqui).

Não é, pois, de estranhar a avaliação negativa que mereceram no “Estudo de Planeamento de Marketing para a Região de Turismo Dão Lafões”, da responsabilidade do Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo. Para sermos rigorosos (e independentemente do estilo promocional com que a Câmara Municipal de Vouzela gosta de divulgar os números), a avaliação negativa tem que se estender a toda a região de Lafões e a muitos dos que se têm debruçado sobre este assunto. Recorde-se, a este respeito, que as principais medidas propostas no estudo desenvolvido pelo Instituto de Estudos Regionais e Urbanos da Universidade de Coimbra e intitulado “Que projectos para o desenvolvimento de Lafões”, eram a “instalação de um restaurante com gastronomia regional num grande centro comercial de Lisboa ou Porto” e a abertura de um Hotel Geriátrico, devido ao envelhecimento da população. Estamos a brincar?

De facto, o envelhecimento da população europeia ( e não apenas portuguesa) pode e deve ser encarado como potencial mercado. No entanto, como já por aí escrevemos, hotéis de qualidade, entendidos como unidades isoladas, é o que não falta por essa Europa fora. O que essas pessoas podem vir procurar “é o usufruto do espaço, é a alternativa aos grandes centros urbanos, é o paradigma da diferença. Longe de se contentarem com unidades isoladas ou 'centros históricos' de delimitação duvidosa, vão procurar a vivência só possível numa região inteira, que saiba preservar e permitir o uso do seu património natural e edificado, fornecendo, ao mesmo tempo, as melhores respostas ao nível das comunicações, da saúde e da segurança. Elas vão ter idade e cultura para saberem o que querem e dinheiro para o pagar” . Será que conseguiremos resistir de modo a aproveitar a oportunidade?