quarta-feira, outubro 10, 2007

Para guardar em local seco

(Foto: José Campos)

O rio ainda corre livremente, as vindimas estão feitas, os presidentes das nossas câmaras têm permanecido em silêncio- gozemos a paz enquanto dura. Estamos em tempo de armazenar. “Colher a castanha, noz e avelã e, para guardar em local seco, abóboras e melões(...)”- assim manda o “Borda d’Água”, para o mês de Outubro. Pois colhemos e guardamos o que outros dizem e nos ensinam. Para consumir mais tarde.

Sobre as 10 novas barragens

No “Estrago da Nação” são feitas algumas reflexões interessantes sobre o assunto. O Plano está em discussão pública, mas, segundo o ministro, não vale a pena termos o trabalho de opinar porque nada será alterado. Entretanto, começa a ficar claro como a água que os charcos só vão servir os interesses do “lobby das eólicas”. Depois da selvajaria dos eucaliptos, a das “ventoinhas”.

Empresas e defesa do ambiente

Já que falamos das eólicas e se prevê longo debate sobre as chamadas “empresas verdes”, é de elementar justiça divulgar a "Associação de Conservação do Habitat do Lobo Ibérico nas Serras da Freita, Arada e Montemuro" . A organização para a defesa da espécie, conta entre os fundadores as seguintes empresas: Eólica da Cabreira, S.A., Eólica da Arada – Empreendimentos Eólicos da Serra da Arada, S.A. e Eólica de Montemuro, S.ª Para conhecer actividades desenvolvidas e a desenvolver e para se tirarem conclusões sobre a relação entre iniciativa privada e defesa do ambiente, visite-se o sítio da associação na Internet (procurar a partir daqui)

Por uma assembleia de condóminos

É um projecto lançado pela “Quercus” que consiste em pensar o Planeta como se de um condomínio se tratasse. Para além de áreas- “micro-reservas”- de Portugal, o projecto conta já, também, com a participação de regiões do Brasil. A estudar com atenção, até porque o "condomínio" que temos frequentado, precisa mudar de... administrador.

Em busca da “Ilha da Utopia”

Pois é: constroem, constroem e depois começam a suspirar por bosques verdejantes, águas cristalinas e passarinhos a chilrear. A partir da “Barriga de um Arquitecto” ficamos a conhecer o concurso “The Park at the Center of the World: Five Vision for Governors Island”. A nova “ilha da Utopia” e uma forma de acabarmos em beleza.

domingo, outubro 07, 2007

Águas paradas

Lembraram-se de nós. Infelizmente. Fomos contemplados com uma das barragens com que o governo de Sócrates quer salvar o mundo, pelo menos o dele. Nós, os pós- socráticos, assumimo-nos cépticos, preferindo realçar que a obra é lançada sem que nada tenha sido feito para reduzir o desperdício de energia. E que desperdício…

Mas na antevisão do charco gigante previsto para o Vouga, os autarcas opinaram. E um deles deu largas à imaginação, falando de “actividades geradoras de mais valias económicas, como sejam os desportos náuticos” (Lusa, 4 de Outubro de 2007). Já estou a ver: um enorme recreio com monitores, quem sabe se umas máquinas de fazer ondas e aulas de surf ou jet- ski e, de certeza, aparelhagens sonoras a berrarem “levante o seu astrauuuuu!”, com sotaque brasileiro, porque tem mais ritmo. Nada de novo. Apenas o assumir de um conceito de turismo que nos vai arruinando o território, a paciência e tudo o resto. Sobretudo, um conceito que não percebe que o segredo do turismo está na diferença e não na uniformidade.

A região de Lafões será procurada enquanto a deixarem mostrar o que é. Deixará de o ser, quando a quiserem transformar numa espécie de Algarve, de Lisboa, ou o raio que os parta. Mas, com a retenção de águas que se avizinha, ainda vai aparecer algum a querer bordejá-la de palmeiras, prática que fez escola na gestão autárquica portuguesa. Talvez- porque não?- um coqueiro, que até pode justificar uma visita presidencial.

Vão-nos prender as águas, mas vai-se libertar a asneira. Querem apostar?

quinta-feira, outubro 04, 2007

Lindo serviço...

Integrada na “Quinzena da Habitação” (iniciativa no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia), foi feita a divulgação pública de parte do trabalho da equipa responsável pelo Plano Estratégico da Habitação (PEH). As conclusões finais só estão previstas para o próximo mês de Março, mas existem já indicadores que merecem reflexão.

De tudo quanto foi divulgado, o mais surpreendente talvez tenha sido o facto de ainda faltarem perto de 200 mil fogos para responder às necessidades da população (Público, 3/10/2007). Lindo serviço. Andámos nós a “cimentar” o país de lés a lés e chegamos à triste conclusão que ainda não chega! É desta que nos lançamos à conquista de Espanha...

Será interessante analisar o relatório final, mas pensamos que a perversão esteja relacionada com o êxodo rumo ao litoral, tendo havido excesso de construção precisamente onde não era necessária. Isto reaviva a polémica sobre a capacidade da iniciativa privada, por si só, conseguir responder às necessidades de uma área socialmente tão importante como a da habitação, para além de deixar de rastos os critérios dos nossos autarcas.

As restantes conclusões divulgadas, vão ao encontro da percepção que vamos tendo do fenómeno: necessidade de privilegiar a reabilitação, peso excessivo da compra da habitação devido à falta de um mercado de arrendamento (provocando um endividamento equivalente a 117% do rendimento das famílias!), ineficácia da política social. Registe-se pela sua importância, o facto de cerca de 20% da população portuguesa não ter condições para aceder à habitação sem apoio.

Os trabalhos do grupo responsável pelo PEH podem ser acompanhados aqui. Pela semelhança com a realidade de Lafões, chamamos a atenção para a síntese das conclusões do Fórum Regional de Vila Real (aqui).

quarta-feira, outubro 03, 2007

O passado e o presente da linha do Vale do Vouga

(Foto de Pastel de Vouzela)

Para recordar um comboio que já houve e que não se soube aproveitar. Façam o favor do "clicar".

3- Comemoração do Centenário da chegada do comboio a Vouzela: "Temos um comboio para apanhar"- 05/11/2013
2- Linha do Vale do Vouga: uma viagem ao que resta (01/10/2007)
1- Era uma vez, o comboio... (30/01/2007)

segunda-feira, outubro 01, 2007

Linha do Vale do Vouga:uma viagem ao que resta

Aproximava-se o fim. A poucos metros do local de onde foi conseguida esta imagem, está hoje um prédio
(foto de Guilherme Figueiredo)

Não vale a pena perder muito tempo com o assunto: o encerramento da linha do Vale do Vouga foi, na hipótese mais suave, uma tremenda irresponsabilidade; na mais dura, uma vigarice, cuja história há-de ser contada sem poupar nos pormenores sórdidos. Ponto final. O que nos parece ser de realçar é o modo como muitos trabalham para manter a memória viva, publicando estudos, organizando arquivos de imagens e até divulgando petições pela sua reactivação. Todos, lá bem no íntimo, mantêm viva a esperança de que a asneira não seja irreversível. Ao fim e ao cabo, para além do recurso turístico que podia ter sido, o comboio é a melhor alternativa a uma circulação automóvel que o futuro, inevitavelmente, irá limitar.

A construção da linha do Vale do Vouga sucedeu ao projecto de tornar o rio navegável desde Aveiro até São Pedro do Sul. Não tivessem as tropas de Junot invadido o país e talvez a obra fosse concretizada (1).

A verdade é que, depois de muita polémica a propósito do melhor traçado, a data oficial de inauguração da via férrea que nos havia de ligar ao litoral fixou-se a 23 de Novembro de 1908 (troço entre Espinho e Oliveira de Azeméis). Já depois da instauração da República, foi feita a ligação entre Aveiro e a Sernada (Setembro de 1911) e, finalmente, em 5 de Fevereiro de 1914, até Viseu.

A velha linha resistiu às dificuldades de duas guerras mundiais, mas não conseguiu enfrentar o “boom” do automóvel em Portugal (e das empresas de camionagem), nem as exigências de maior velocidade e comodidade. Na verdade, sendo uma linha de via estreita, nunca beneficiou de modernizações significativas e a tentativa de aumentar a velocidade de circulação através de automotoras, revelou-se pouco satisfatória.

Foi isso que deu força à ofensiva favorável ao encerramento, que teve o seu auge nos anos 70. Do mesmo lado da barricada, misturaram-se os argumentos dos que defendiam investimentos para a melhorar e dos que preferiam acabar com ela: que não justificava as despesas, que havia meios de transporte alternativos, que... causava fogos. Em 1972, o comboio era substituído por camionetas da CP, embora isso não fosse assumido como definitivo. A verdade é que, dois anos depois, a 10 de Janeiro de 1974, o Notícias de Vouzela publicava, na sua primeira página, o seguinte desabafo, ilustrado por uma fotografia da estação: “O que irá ser um dia, este terreno enorme, no centro da vila, que foi, durante sessenta anos, estação do caminho de ferro? Porque já não acreditamos que o comboio regresse (...)".

A população nunca se resignou. Logo após o 25 de Abril, há registo de diversas tomadas de posição que obrigaram os governantes a prometerem não só o regresso do comboio como, também, a melhoria das suas condições. Ele voltou, mas nunca melhorou. E íam começar os tempos dourados da construção civil.

A 27 de Dezembro de 1983, setenta e cinco anos, um mês e quatro dias depois da inauguração do primeiro troço da linha, o Vale do Vouga assistiu à última viagem do seu combóio. Na sua obra “Memórias do Vale do Vouga”, o médico Manuel Castro Pereira antecipou: “Novos e difíceis tempos virão, onde a ferrovia tem de desempenhar um papel decisivo de alternativa de transporte de pessoas e bens”. Esses tempos aí estão, apesar dos nossos governantes, nacionais e locais, assobiarem para o lado, na tentativa desesperada de que não nos lembremos de lhes pedir responsabilidades.

Depois de já termos divulgado páginas de fotografias recordando a linha no seu auge, propomos agora uma viagem pelo que existe. São imagens de abandono, de desleixo, da pressa com que alguns “urbanizaram” o espaço. Nós próprios, apesar de termos limitado o estrago, não evitámos construir lá um prédio (erro já assumido pela Câmara Municipal de Vouzela). Mas, numa altura em que alguns discutem o que fazer com as pontes que eram usadas pelo comboio, esta viagem que propomos à estupidez e ao desperdício, é o nosso contributo para que não se agrave a asneira. E para que ela não seja irreversível. Porque, mais cedo ou mais tarde, o comboio vai regressar.

Que a viagem comece (basta "clicar")
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(1)- As referências históricas foram retiradas da obra Vouzela- A Terra, os Homens e a Alma, Vouzela, 2001.

quinta-feira, setembro 27, 2007

Feito Homem

James Nachtwey

Viveu sempre na mesma casa, no cimo do monte, ao pé do sol posto, como se dizia e nos parecia em miúdos.
Admirava-lhe a resistência, a destreza, o carácter que emanava. Sempre descalço, tinha dias em que brincava e parecia uma criança, mas quase sempre a consciência de si próprio o resgatava para um outro qualquer estado de alma.

Orfão de Pai, levantava-se todos os dias às 6 da manhã, ia apanhar erva para dar de comer aos animais, ordenhava a cabra para alimentar os irmãos, apanhava lenha, acendia o lume, cuidava da mãe doente e só depois saía .

O caminho que fazia para a Escola era muito duro e mal desenhado, apostava todos os dias que chegava só quinze minutos atrasado, talvez dez, e se o professor adoecesse?-pensava- poderia talvez entrar com os outros nesse ritual de brincadeiras cotoveladas e risos cúmplices.

O professor tinha sido considerado herói no exército colonial . A sua disciplina e o seu fervor pedagógico andavam de mãos dadas com os traumas da Guerra em Africa.

A entrada tardia do Jacinto na sala de aula era um instante de angústia, sovado e colocado no parapeito da janela, aí ficava, sem qualquer expressão, como se o castigo não lhe pertencesse. Às vezes fugia, não volta mais... pensávamos.

Voltou sempre, e fez a 4a classe, abrindo nesse dia um sorriso do tamanho da sua liberdade.

Deixei de o ver, tornou-se quase um ermita. Perguntava por ele aos irmãos e diziam-me que estava bem, que trabalhava numa aldeia, vivia na mesma casa e que se ia casar...Mais tarde soube que tinha 2 filhos.

Num dos muitos infortúnios da vida, perdeu o emprego que os sustentava .
A mulher pediu-lhe que procurasse emprego na vila, mas para o Jacinto esse tempo não voltaria, tinha feito vezes sem conta esse caminho mal desenhado...

Decidiu pôr termo à vida, feito Homem.


manel vaca



E TUDO ERA POSSÍVEL


Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer.

Ruy Belo, Homem de Palavra[s], Lisboa, Editorial Presença, 1999

Os esqueletos do nosso armário

Quando, em 27 de Setembro de 1540, Inácio de Loiola fundou a Companhia de Jesus, tinha a seu lado Simão Rodrigues de Azevedo, natural de Vouzela. Não podíamos deixar de assinalar o facto. É verdade que, mais tarde, o nosso conterrâneo veio a borrar a pintura toda, denunciando Damião de Góis à "Santa" Inquisição por heterodoxia, mas no melhor pano cai a nódoa. Este é o esqueleto do nosso armário e não estamos aqui para enganar ninguém.

O Padre Simão Rodrigues nasceu em 1510, estudou em Paris como bolseiro de D. João III, tendo aí conhecido Inácio López de Loiola. Graduado mestre em artes em 1536, foi para Itália, onde conheceu Damião de Góis de quem foi colega. Participou em acções missionárias na Índia e fundou os colégios jesuítas de Lisboa, Coimbra e Évora. Grande percursor da alma lusa, dedicou-se à formação, não propriamente profissional, mas de missionários. Morreu em Lisboa, em 1579.

Dizem que tinha mau feitio. A verdade é que, não satisfeito com o resultado de uma primeira denúncia de Damião de Góis, feita em 1545, voltou à carga em em 1571, com o lamentável desfecho que se conhece. Ainda hoje não é fácil encontrar “jesuítas” nas pastelarias cá da terra e nem um beco foi baptizado com o nome do homem. Mas, se a teimosia e o desperdício da ampliação da Avenida João de Melo for avante, era um bom nome para lhe dar. Apropriado.