segunda-feira, setembro 17, 2007

Rua da Ponte

Vista geral (juramos que a foto foi retirada daqui, apesar do endereço estar desactivado)

Igreja de São Frei Gil e início da rua com o mesmo nome (imagens da Região de Turismo Dão Lafões)

Casa dos Távoras e pormenor da rua. Em frente, a mancha verde da Costeira (fotos de José Campos e da Região de Turismo Dão Lafões)

Ponte romana sobre o rio Zela (fotos de Vouzela, Antiga Capital de Lafões e Seus Arredores e da Região de Turismo Dão Lafões)

Fonte da Nogueira. Imagem dos anos 60 (José Campos)

Desenvolve-se pelas duas margens do rio Zela e é um dos mais antigos núcleos populacionais que deram origem à vila. Vulgarmente conhecida por Rua da Ponte ou Bairro da Ponte, é um exemplo perfeito da harmonia entre a vegetação luxuriante e as solenes edificações em granito. É, também, um encontro com três pilares da memória dos homens: Fé, História e Lenda. Começa na Igreja de São Frei Gil (ver também aqui), continua pela rua com o mesmo nome, passa o rio por uma ponte romana e termina na Fonte da Nogueira, refúgio de moura encantada que faz cair de amores todos quantos nela bebam. Pelo caminho encontram-se casas brasonadas de diferentes épocas, destacando-se a que terá pertencido aos Távoras- ostenta, ainda, o seu brasão picado, preço menor do muito que pagaram pelos azedumes do Marquês de Pombal.

Visita obrigatória para os que queiram conhecer Vouzela, aqui se encontra (ainda) o segredo da harmonia que outrora dominou toda a região: a envolvente verde da zona da Costeira, realça o edificado, mas impõe o domínio da natureza. Com pouco tempo para estes pormenores, os poderes locais já lhe quiseram acabar com o estilo, projectando-lhe estradas e urbanizações. Não sei se por influência do santo, se da moura, não conseguiram. A conhecer enquanto dura.
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PS: As imagens foram colhidas nos anos 30, 60 e na actualidade.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Lá se vai a paisagem...

No Guia de Portugal, editado pela primeira vez nos anos vinte pela Biblioteca Nacional, Amorim Girão escrevia a propósito de Lafões :

“(...) a paisagem da região lafonense, de tão acentuada beleza policrómica (...) pode distingui-la das regiões vizinhas. Os seus campos de cultura, xadrezados pelos comoros de divisão da propriedade, onde a vinha se abraça às árvores de fruto, e emoldurados ainda pelas matas de pinheiros, carvalhos e castanheiros que revestem as maiores elevações do terreno, oferecem, com efeito, ao turista um espectáculo sem dúvida interessante: um pequeno retalho do Minho perdido em plena região montanhosa da Beira Central”.
- retirado da edição feita pela Fundação Calouste Gulbenkian, 3º volume, 1985.

Em Portugal Património, edição deste ano do Círculo dos Leitores, coordenada por Álvaro Duarte de Almeida e Duarte Belo, pode ler-se na introdução ao levantamento apresentado para o território entre Oliveira de Frades e Sever do Vouga (Leste):

“O coberto vegetal, quer nas áreas baixas que se desenvolvem a oeste, quer nas faldas da serra, tem sido progressivamente tomado pela plantação extensiva de eucalipto, que se impõe na paisagem, tornando-a monótona. Apenas algumas áreas aplanadas no fundo dos vales ou no cimo dos interflúvios apresentam mosaicos agrícolas, com hortas e pomares, ou então com pastagens. O povoamento é disperso, com a maioria das aldeias quase despovoadas”.
- in volume III, pág. 128.

De referir que, neste volume, já é feito um levantamento do património de algumas freguesias do concelho de Vouzela: Alcofra, Cambra, Campia, Carvalhal de Vermilhas e Paços de Vilharigues.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Claro que sim!



“Os signatários entendem que a pobreza constitui uma grave negação dos direitos humanos fundamentais e das condições necessárias ao exercício da cidadania, situação que reputam eticamente condenável, politicamente inaceitável e cientificamente injustificável”.

Claro que sim. Por isso mesmo, aqui fica o “caminho” para a petição a apresentar à Assembleia da República, da responsabilidade da Comissão Nacional Justiça e Paz (para imprimir). Colocar a luta contra a pobreza nas prioridades da agenda política, é algo que tem um significado especial para quem vive no Interior.

terça-feira, setembro 11, 2007

À espera, sentados...

Doisneau

As medidas recentemente anunciadas pelo primeiro-ministro para estimular a criação de empresas no interior e beneficiar as existentes, fazem lembrar aquelas urbanizações que são lançadas sem que, previamente, se organizem as condições necessárias para as pessoas lá viverem. Na realidade, limitam-se a ser um amontoado de casas à espera que o cidadão resolva problemas básicos como a escola onde meter o filho, o transporte que pode usar para o local de trabalho, etc. Também agora, José Sócrates limitou-se a “amontoar ideias”, sem avaliar as reais condições de concretização e os impactos de médio, longo prazo.

O “nosso” interior, nem é dos piores. Estamos longe da depressão que afecta regiões como Sertã, Vila de Rei, Pedrógão Grande. No entanto, sentimos a sangria: se compararmos e evolução da população entre 1996 e 31 de Dezembro de 2006, só Oliveira de Frades não apresenta valores negativos. No que diz respeito a Vouzela, passou de 12300 habitantes (números da Associação Nacional de Municípios Portugueses), para 11755 (números do Instituto Nacional de Estatística). Para além disso, é reconhecida a crise em actividades tradicionalmente fortes como a criação de gado, não tendo surgido qualquer alternativa para uma agricultura que sempre foi pobre, mas que hoje, pura e simplesmente, não existe.

Claro que temos algumas empresas com dimensão e um sector de comércio e serviços (turismo incluído) com potencial de crescimento se... houver vontade de o repensar e reconverter. No entanto, não se prevêem investimentos estruturantes com dimensão para fixar a população residente e conseguir atrair alguma mais, o que apenas seria conseguido com a promoção de marcas (produtos) locais.

Perante isto, será que as ajudas recentemente anunciadas pelo governo são suficientes para inverter a situação? Não nos parece. Que é que pode levar uma empresa a preferir a sua localização nesta zona do país, quando a maior parte dos serviços de que vai necessitar estão no litoral? Depois, num contexto internacional de retracção do investimento, quem ousará avançar terra dentro, sabendo que vai ser obrigado não só a montar uma empresa, como todos os apoios de que necessite e que existem, prontos a usar, no litoral? Finalmente, qual a real capacidade de recrutamento de mão-de-obra no interior ou que vantagens existem para incentivar os trabalhadores a deslocarem-se para cá? Com que ordenados?

A história seria diferente, se já existissem sectores organizados, desde a produção à distribuição, passando pela formação, que se baseassem no que a região tem de específico. Não existem e era por aí que se devia ter começado. Aliás, de específico, com capacidade para atrair investimento, quase só temos a paisagem. Por isso, receamos que tudo o que possa interessar no imediato ao investidor, se revele, a prazo, negativo para a região: terrenos (mais) baratos. Isso mesmo. Daqui a uns anos as empresas encerram ou mudam de ares, porque o que vêm para cá fazer, pode ser feito em qualquer outro lugar. O terreno será o que resta. Com jeitinho, o poder local ainda dá uma ajuda e vai valer bom dinheiro. E nós continuaremos à espera. Sentados. Embora, como diz o Chico Buarque, “quem espera nunca alcança”.

sexta-feira, setembro 07, 2007

ASAE ou AS(A)Elhices?

Já aqui brincámos com a “perseguição” aos vendedores de bolas de berlim nas praias, mas a acção fiscalizadora da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) justifica reflexão mais cuidada. Ao fim e ao cabo, mais do que a protecção da saúde pública, podem estar em causa mecanismos de integração social e manifestações de iniciativa local que, longe de serem reprimidas, deviam ser estimuladas.

Claro que a culpa não é dos funcionários da instituição, que se limitam a cumprir o previsto na lei. Claro que ninguém põe em causa a necessidade de se privilegiar a defesa da saúde pública. O que defendemos, é que se opte por uma intervenção mais formativa do que repressiva, compreendendo a importância social das actividades e arranjando um compromisso entre o necessário para salvaguardar a saúde do consumidor e as reais capacidades económicas de quem presta o serviço.

Falemos de casos concretos. Os percursos pedestres na região de Lafões e os passeios de BTT, têm sido um sucesso. Milhares de pessoas têm aderido, nas mais variadas épocas do ano, a uma forma diferente de contactarem com o nosso património natural e edificado. Isso mostra que a iniciativa tem potencial para outros voos, podendo constituir uma fonte de recursos para regiões que deles bem necessitam. Uma das medidas que podia ser explorada, era a de acompanhar algumas paragens com o serviço de um petisco, em ambiente típico e privilegiando produtos locais. Não é difícil imaginar a importância que a iniciativa podia ter para economias de âmbito familiar e para a preservação de receitas tradicionais. Só que isto não é possível devido à panóplia de exigências que são feitas para a confecção e conservação dos produtos, incompatível com a disponibilidade económica daquelas pessoas. Será assim tão difícil conciliar as coisas, ou será preferível empurrar toda aquela gente para “rendimentos sociais de inserção” e outras medidas de apoio social, ao fim e ao cabo o que lhes resta depois de verem fechar-se todas as portas?

Outro caso, tem que ver com as festas populares. Li algures que também foram alvo dos agentes da ASAE, sendo confrontadas com a necessidade de respeitarem uma pesada lista de exigências para verem autorizadas as cabidelas, febras e sardinhadas. Talvez convenha levar em linha de conta que estas festas são dos poucos hábitos associativos que restam, depois da pressão económica ter acabado com os restantes. Nalguns casos, são até o único momento de encontro de uma população obrigada a fazer-se ao mundo. Ora, o preço a pagar por lavatórios e bancadas em inox, pode ser a morte do que ainda há de iniciativa local. Ou é isso mesmo que se pretende?

Mais uma vez, parece-nos que os autarcas podiam dar uma ajuda. Não seria desprestigiante meterem-se ao barulho e negociarem um ponto de equilíbrio. Até porque- deixemo-nos de conversa fiada- em todo o mundo servem-se licores caseiros aos turistas e fazem-se gigantescos churrascos no meio da rua, em ocasiões festivas. Depois, a própria ASAE deve estar interessada em que a importância do seu serviço, não se dilua na caricatura da AS(A)Elhice.

quarta-feira, setembro 05, 2007

A invasão dos urbanóides-2: Descoberta do... óbvio

Magritte, The Human Condition, 1935

Vivemos num país governado por urbanóides: gentinha fechada no seu mundo, olhando para o resto do território através da televisão ou de estudos que vão sendo publicados. E publicam-se poucos estudos...

Só assim se compreende que se abra a boca de espanto, perante a constatação, tardia, de realidades óbvias para quem vai arrastando os pés por terra firme. Desta vez, “descobriram” que o produtor agrícola é quem menos beneficia com o preço a que os produtos chegam ao consumidor. De acordo com os dados recolhidos por um tal Observatório dos Mercados Agrícolas, mais de 70% do dinheiro gasto pelos consumidores na compra de legumes e frutas, fica nas mãos dos distribuidores. A “observação” remonta a 2005, mas a situação já se verificava em 2000 e regista tendência para se agravar. Fantástica descoberta... Onde é que esta gente tem vivido?

O assunto, tem sido uma das preocupações dos textos que por aqui temos publicado. Não é possível reanimar económica e socialmente o interior, sem o apetrechar da organização que permita rentabilizar as suas actividades específicas (controlo de qualidade, promoção e distribuição). São essas actividades que permitem a criação de um mercado próprio, mais protegido da concorrência. Ora, com uma população envelhecida, isolada e pouco informada, não existe poder reivindicativo, nem capacidade para tornear a armadilha dos grandes grupos da distribuição e das grandes superfícies.

Era aqui que as autarquias tinham um papel a desempenhar, colocando os seus significativos recursos técnicos ao serviço da comunidade. Dinamizar, informar e discriminar positivamente, não nos parece que fossem actividades transcendentes, incompatíveis com os afazeres da gestão autárquica. Aliás, a divisão dos pelouros cada vez mais tem que facilitar uma análise global do território, não fazendo qualquer sentido separar, por exemplo, a acção social da dinamização económica. Por outro lado, continuar à espera de uma “vaga de fundo” de iniciativa privada, é a tal história de pôr a raposa a gerir o galinheiro: salvo raras e honrosas excepções, os privados com arcaboiço para a tarefa, não estão interessados em investimentos estruturantes de longo prazo. Resta a eficaz mobilização dos recursos locais em torno de objectivos. Sobretudo, ainda restamos nós, cidadãos, que não temos vocação para cobaias, nem pachorra para aturar urbanóides que abrem a boca de espanto, perante a descoberta... do óbvio.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Procurar a ponta da meada


Na hora de pôr as contas em dia e procurar a ponta da meada, socorremo-nos do que outros escreveram para registar alguns acontecimentos de que importa guardar memória. Apesar da nortada, ou talvez por isso mesmo, Agosto não deu descanso: há mesmo motivos para continuarmos preocupados.

Já no final do mês, o Público (20 de Agosto) destacava as “novas políticas” que, para supostamente ordenar o território, dão prioridade às cidades... ignorando tudo o resto. A este respeito, vale a pena ler o apontamento que, na altura, foi publicado por José Carlos Guinote no seu blogue “pedra do homem”. Registe-se, também, a afirmação do incrível João Ferrão, secretário de Estado do Ordenamento do Território: “O debate sobre o interior ainda é muito emotivo, o que tira lucidez sobre causas, soluções e importância relativa”. Ó ilustre secretário, “ainda é”? Para além do interior do Centro Cultural de Belém, ou do centro comercial Colombo, que outros “interiores” é que conhece? Garanto-lhe que, quando apenas restarem eucaliptos, tojos e terras a monte, poderá ter vossa excelência a calma necessária para reflectir, lucidamente, com os passarinhos, sobre o que podia ter feito e não fez, nem se faz há mais de trinta anos. Já não falta muito, acredite.

PIN, pam, pum

Os Projectos de Interesse Nacional aí estão a mostrar a sua verdadeira face. Num país que, durante anos, baseou o seu crescimento na construção civil e na especulação imobiliária, só quem entenda o desenvolvimento de forma integrada consegue fugir à tentação de abusar do território. Não é o caso de quem vai passando pelo governo. Desta vez foi o Parque Alqueva que envolve a Fundação da Casa de Bragança e o Dr. José Roquette que afirmava nada perceber de futebol, mas que sabe muito bem como jogar à defesa, sempre que avança com os cabedais. O problema é que as consequências deste tipo de ocupação do território, rapidamente se vai transformar numa autêntica política de terra queimada. Já que é do Alentejo que falamos, ainda mais queimada.

Quem manda

Entretanto, o Tribunal Constitucional veio dar como provado aquilo de que, há anos, todos suspeitávamos: há uma enorme promiscuidade entre empresas privadas e partidos políticos. Sobretudo, empresas de construção e, claro, partidos que ocupem os corredores do poder. Todos. Por isso mesmo, o Partido Socialista moderou os comentários à tramóia que, desta vez, envolveu o PSD (ver, aqui, o texto de Nelson Peralta, publicado no blogue "A Ilusão da Visão"). Ocorrem-nos várias máximas da sabedoria popular sobre “telhados de vidro” e “mãos que nos dão de comer”, mas neste caso é preciso chamar os bois pelos nomes: eles bem sabem quem manda.

Desfile de máscaras acompanhado com pipocas

Entrando já em Setembro, regista-se o início de uma abordagem mais racional sobre a questão do milho transgénico ((duas semanas após o caso de Silves). Finalmente. O "Público", depois de ter sido veículo de propaganda dos ofendidos com o desrespeito pela propriedade, tenta emendar a mão e dá voz aos dois lados do problema (vejam-se as edições de 2 e 3 de Setembro). Também vale a pena ler o que Miguel Portas escreve no seu blogue, sobre a legislação que regulamenta o assunto. Mas, sobretudo, vale a pena ler, na página da Plataforma “Transgénicos fora!” (ver, "Cultivo comercial de milho transgénico em 2007"), o modo como o Ministério da Agricultura divulgou a lista de zonas cultivadas com milho transgénico (em Julho, muito antes da acção da “Verde Eufémia”). Repare-se que não há uma única indicação precisa sobre a localização dessas culturas. De quem ficou tão chocado com as caras tapadas dos invasores da propriedade, não podia vir melhor exemplo de coerência. Espera-se que o preocupado jornalista Mário Crespo, como compete a qualquer jornalista, continue em cima do acontecimento.