domingo, agosto 05, 2007

RE.CI.PRO.CO.

Trata-se da abreviatura de Relações de Cidadania entre Produtores e Consumidores (RE.CI.PRO.CO), projecto que pode vir a dar resposta à necessidade de se organizar a distribuição e promoção de produtos locais. Conta com a colaboração da ADDLAP (Associação de Desenvolvimento Dão Lafões e Alto Paiva), do Projecto Criar Raízes e da Câmara Municipal de São Pedro do Sul e quer alargar o conceito a nível nacional. Experiência a acompanhar com atenção e a conhecer melhor, aqui (e aqui). Às quartas-feiras estão em Vouzela a vender os seus cabazes, constituídos, para já, por frutos e legumes “colhidos na véspera", ervas aromáticas, mel e compotas.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Construção a preços controlados: quem se vai "picar"?

(Alfinete, Regina Silveira)

No acordo entre o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda para a Câmara de Lisboa, consta a promessa de revisão do PDM, de modo a garantir uma percentagem de construção a preços controlados. De um modo geral, os comentadores não sabem o que dizer sobre a medida, oscilando entre a desvalorização e a denúncia de radicalismo. Só a AECOPS (Associação das Empresas de Construção e Obras Públicas) parece ter compreendido que o céu lhes pode cair em cima.

Naquela linha “generalista” dos nossos políticos, que tanto dá para concorrerem a uma câmara municipal, como à chefia do Ministério da Educação, o candidato do PSD, Fernando Negrão, logo agitou o papão da “extrema-esquerda” que, segundo ele, passaria a dominar a autarquia da Capital. Carmona Rodrigues, como de costume, não sabia o que dizer. Mas, a AECOPS, primeiro pela boca do seu presidente, depois, em comunicado da própria Associação, gritou contra o que considerou ser uma “ilegalidade” (irónico, vindo de quem vem...) e ameaçou com os tribunais. Agora, depois de terem dormido sobre o assunto, os arautos da infalibilidade do “livre mercado” ensaiam opiniões mais estruturadas, confundindo a medida proposta pelo PS-BE com a “Lei das Rendas” e culminando com o “argumento de ouro” desta corrente (veja-se o artigo de Helena Matos no “Público” de 2 de Agosto): “quanto vai custar o controlo proposto?” É bom que se lancem às contas porque, até agora, nunca conseguiram adiantar os valores do “descontrolo” que nos tem lixado o território e a paciência.

Se a medida for mesmo concretizada (e nestas coisas, a experiência mostra que o “se” faz todo o sentido), é a primeira vez que se admite uma intervenção disciplinadora num mercado que nunca funcionou, que fabricou as fortunas mais fáceis e suspeitas dos últimos anos e que mais contribuiu para o desordenamento do nosso território. Como já foi reconhecido pelo próprio Sá Fernandes, não se trata de uma “revolução” na gestão autárquica, mas tão somente de aplicar normas que existem em grande parte das cidades do mundo, de modo a evitar perversões como as que temos vivido, em que o excesso de oferta (calcula-se em cerca de meio milhão o número de fogos excedentários) não se traduz num abaixamento dos preços. Como é que isso pode ser feito? As possibilidades são várias, baseadas na criação de áreas em que, por exemplo, se controla a aplicação de margens de lucro, se condicionam valores ao rendimento do cliente, etc. Longe de serem novos bairros sociais, é precisamente o contrário desse princípio. Com inevitáveis impactos no mercado...

Não sabemos de que modo vai ser aplicada a medida e não temos ilusões quanto à necessidade de se fazer mais, nomeadamente alterando a “Lei dos Solos”. Mas, se for bem pensada, pode ter consequências importantes no combate à especulação imobiliária. Sobretudo se fizer “escola”. Resta saber se António Costa não vai encontrar resistências da parte de quem menos espera, nomeadamente do governo a que, até há pouco pertenceu, “espetando-se” nalgum PIN (Projectos de Interesse Nacional) que lhe acabe, também, com “corredores verdes” e frentes ribeirinhas. Gentinha de alfinete em punho, é coisa que não falta.

terça-feira, julho 31, 2007

RSI ou o preço da indiferença

Nos últimos dias têm sido divulgados números sobre o Rendimento Social de Inserção (RSI) que representam sinais de alarme sobre a sociedade que estamos a construir(1). De facto, para além das muitas deficiências detectadas no apoio aos cidadãos mais carenciados, corre-se o risco de uma medida pensada como apoio transitório, ser transformada em modo de vida. A nossa região, não é excepção à regra.

Num total nacional de 106570 famílias abrangidas pelo RSI, o distrito de Viseu contribui com 6157 famílias, depois de, em 2002, terem sido apoiadas 8598. Na lista de candidaturas apresentadas no primeiro semestre de 2007, Viseu aparece em oitavo lugar com 1004 pedidos, apenas sendo ultrapassado pelos distritos do Porto (top nacional), Setúbal, Lisboa, Aveiro, Coimbra, Braga e Faro.

Mesmo o facto do nosso distrito incluir o grupo restrito dos que revelaram evolução positiva entre 2002 e 2007, só por demagogia pode ser entendido com optimismo. Na verdade, a desertificação progressiva e o envelhecimento da população que se têm feito sentir, mais do que quaisquer medidas de integração que tenham sido tomadas, devem explicar a diferença. De qualquer modo, os números mantêm-se muito altos.

Não é difícil perceber que estamos a assistir às consequências do desprezo pelas actividades tradicionais (agricultura, pecuária, etc.), que não só não foram reorganizadas, como ainda não viram surgir alternativas. Mesmo que queiramos olhar o problema com “espírito positivo”, dizendo que o RSI é capaz de ser superior ao rendimento conseguido, antigamente, no trabalho da terra, a desculpa não pega. Se já é difícil compreender que nenhum esforço tenha sido feito na reconversão da agricultura tradicional, tendo em conta o seu valor social e ambiental, mais difícil é aceitar que se pague para que pessoas esperem pela morte, desprezando os seus conhecimentos e recusando-lhes o direito de se sentirem socialmente úteis. Talvez daqui a uns anos venhamos a lamentar a adaptação portuguesa de uma piada dos tempos do “Muro de Berlim”, quando se dizia que a maior aspiração dos jovens da Alemanha de Leste, era serem desempregados na República Federal Alemã. O RSI corre o risco de se tornar modo de vida, para descanso de algumas consciências.

Quando vemos o Presidente da Câmara Municipal de Vouzela, (na apresentação do “Diagnóstico da Necessidades de Qualificação de Recursos Humanos na Região de Lafões”) colocar o acento tónico na inventariação das “necessidades de qualificação ao nível da educação e formação e conduzir a um ajustamento entre a oferta de formação e as necessidades do sector empresarial”, percebemos que poucas lições se têm tirado do estado a que chegamos. Diga o senhor Presidente que empregos tem para oferecer, que as habilitações são o mais fácil de conseguir. O problema, é que não tem. Nem vai ter, enquanto os responsáveis locais acreditarem que as “empresas de ponta” desse mundo inteiro, vão acorrer a montar unidades na região, bastando para tal que se lhes mostre as elevadas competências do indígena (2), a Matemática e a mais não sei o quê. Enquanto assim for, restam os estudos para fingir que se faz alguma coisa e o RSI, para pagar a indiferença.
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(1)- Fonte: "Público" de 30 e 31 de Julho de 2007.
(2)- Indígena: natural da região que habita.

domingo, julho 29, 2007

Alerta laranja

Van Gogh, Campo de Trigo sob céu ameaçador

Passei o fim-de-semana dominado pelo síndroma do “alerta laranja”. Calor que faz favor, naquele patamar do convite à imobilidade, pensei conseguir resistir protegido pelas grossas paredes de granito e munido de tudo quanto é jornal. Pura ilusão. O tom alaranjado espalhava-se pelas páginas dos periódicos através da pena dos pensadores de “reconhecido mérito”- os “inteligentes” da nação querem fazer-nos acreditar que nada de mais importante existe de momento, do que a suposta crise do PSD. Não há pachorra. Da janela via o rio a correr lá em baixo. Uma tentação. Fiz-me ao caminho, mas... acabei de molho na piscina de uns amigos. Valeram-me os “Caladinhos” e as “Raivas” da Vougazela.

Alerta- 1

Não há folha impressa que não concentre atenções na situação interna do PSD e até já por aí se anuncia o fim da ilustre agremiação. Exagero. A este respeito, contaram-me uma história exemplar. Num concelho do nosso país, dominado durante anos por determinada força política das chamadas maioritárias, a campanha eleitoral para as autárquicas fazia prever mudanças. Já não me lembro se do PS para o PSD, ou se o contrário, mas para o caso tanto dá. Em determinada altura, a força que costumava estar na oposição e que se apresentava com possibilidade de vitória, anunciou a inauguração de uma nova sede. Qual não foi a surpresa, quando se percebeu que o novo espaço tinha sido cedido por uma influente personalidade local, habitualmente conotada com o partido político que, até então, tinha dominado o concelho, mas que se preparava para perder essas eleições.

O chamado “rotativismo” é isto mesmo: muitos interesses e poucos princípios. Quando se começa a perceber que não é possível manter uma das forças no poder, avança a outra e tudo (os interesses e os poucos princípios) continua na mesma. Talvez a abstenção aumente. E depois?

Alerta- 2

A propósito de um texto publicado há cerca de um mês no “Pastel de Vouzela”, chamaram-nos a atenção para o facto das águas do Vouga continuarem a apresentar um cheiro e um aspecto altamente suspeitos. Empurrado pelo calor que se faz sentir, desci à Foz. Não confirmei cheiro nem aspecto, mas sim o desinteresse em informar o público sobre a qualidade das águas: nenhuma informação no local. Acabei a mergulhar na piscina de uns amigos. A temperatura da água era de 27 graus.

Alerta-3
No seu 60º aniversário, a Vougazela lançou uns deliciosos biscoitos, respeitando a receita tradicional. São os “Caladinhos” e as “Raivas”, famosas iguarias da nossa doçaria tradicional, que a pressão da procura estava a adulterar. Estendidos à sombra, à beira da piscina, os biscoitos foram o bálsamo para a raiva de continuarmos a assistir (cada vez menos calados!) à indiferença perante os recursos da nossa região.

quarta-feira, julho 25, 2007

Águas turvas

Há um generalizado consenso sobre a necessidade de aumentar o preço da água, como forma de promover a sua poupança. Salvo melhor opinião, trata-se de pura demagogia, no melhor estilo do fingir que se muda alguma coisa para que tudo fique na mesma. De facto, grande parte do desperdício da água, está no abandono puro e simples dos recursos hídricos, transformados em esgotos a céu aberto ou cobertos de entulho por obras mal planeadas. Ora, a poupança conseguida com o aumento dos valores da factura, limita-se aos recursos usados, não tendo qualquer impacto na recuperação dos restantes. Por outro lado, penaliza duplamente o consumidor individual, obrigado não só a suportar o acréscimo de custos do seu consumo, como o aumento de preços que a medida irá provocar nos diversos bens, em nada contribuindo para alterar métodos de produção.

Paralelamente, percebemos estar em marcha a privatização das águas. Não para já mas, de acordo com o “Público” de 24 de Julho de 2007 (citando o Ministro do Ambiente), depois do Estado “concretizar o investimento de quatro milhões de euros na construção de infra-estruturas de abastecimento”. Se isto não é apropriação privada de mais-valias conseguidas com investimento público, não sei como lhe chamar. Depois, ainda não consegui perceber o que vamos beneficiar com tal privatização, até porque não conheço nenhuma “fatalidade genética” que obrigue uma empresa pública a funcionar pior do que uma privada. O que conheço, são empresas mal geridas. Públicas e privadas. E conheço medidas suspeitas, como as que se anunciam com louváveis objectivos ambientais e que, na realidade, visam tornar mais aliciante um negócio. O das águas. Turvas.

terça-feira, julho 24, 2007

60 anos

Em tempos de desertificação do interior, o simples facto de uma empresa comemorar 60 anos de actividade, já é uma boa notícia. Quando encontramos duas, é uma festa. Pois é precisamente de festa que se trata, a propósito do 60º aniversário da Vougazela (confeitaria) e da Adega Cooperativa de Lafões, duas entidades que muito contribuíram para nos adoçar e alegrar a existência. Aos seus responsáveis, o abraço doce de “Pastel de Vouzela”.

domingo, julho 22, 2007

A invasão dos urbanóides- 1

René Magritte, Golconde, 1953

Cresceram no tédio do final do Estado Novo, ou nos primeiros anos do pós-PREC, quando as orientações do FMI eram a coisa mais parecida com um sistema de valores alternativo à “desordem da escumalha”. Conheceram a “província”, na companhia forçada de familiares nas deslocações de férias, sentindo-se perdidos perante a imensidão do espaço e do tempo e ameaçados pela constante solicitação do meio: a irregularidade do solo, o andar a pé, a poeira dos caminhos, o calor tórrido ou o frio, nada para comprar- uma maçada. Sonharam com a agitação de Paris ou de Londres, onde era suposto, a cada minuto, uma novidade se lhes vir sentar à mesa, numa efervescência semelhante ao do gás das garrafas de Coca-Cola. Chamavam-lhe “estímulo intelectual”. Nos cafés das “Avenidas Novas”, formularam hipóteses, arriscaram teorias e cimentaram o princípio de que a afirmação suprema do indivíduo está no seu catálogo de compras. Filiaram-se em partidos, muitos foram ministros, concretizaram ideias... não gostaram dos resultados. Entretêm-se a engendrar desculpas, a justificar a asneira para não terem que assumir a derrota. Continuam a fazer opinião e escrevem coisas como estas: “(...)quem vive no horror do Grande Porto ou da Lisboa não vive, pelo menos, no horror de uma aldeia isolada e morta”- Vasco Pulido Valente, Público, 22/07/2007