segunda-feira, maio 07, 2007

Em terra firme

Ignat Mihai- Roménia

1. A simplificação anunciada pelo Governo para aprovação dos Planos Municipais, começa a revelar as suas fragilidades. Previsível. A Ordem dos Arquitectos já chamou a atenção para a necessidade de se rever a “Lei dos Solos”, de modo a evitar perversões. A dúvida reside em saber se não foi mesmo a “perversão”, o objectivo de tal medida “simplex”. De facto, não se percebe que se tenha ignorado a necessidade de, antes de mais, criar mecanismos de controlo que agilizassem o processo e, simultaneamente, fugissem da influência dos diversos interesses. Tal como a coisa foi feita, finge-se acreditar na inocência das autarquias e na eficácia de uma responsabilidade individual de técnicos, economicamente dependentes dos investidores. Dificilmente se conseguiam juntar tantas garantias de... fracasso.

2. Terá sido mesmo por acaso que, na recente alteração do Instituto de Conservação da Natureza (que, estranhamente, se passou a designar Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade), se menosprezou a “geodiversidade”? O Professor Galopim de Carvalho (Público, de 5 de Maio), atribuiu a coisa à pouca formação dos governantes. No entanto, a experiência diz-nos que a Geologia tem sido empurrada para a área dos “conhecimentos malditos”, onde já estavam arrumadas a História, a Filosofia ou a Sociologia- veja-se quantas autarquias usam cartas geológicas como instrumentos de planeamento. Num país onde o solo foi limitado ao estatuto de “mercadoria”, urge que as associações de defesa do consumidor reivindiquem rótulos elucidativos para o produto. Por exemplo: “Está sobre uma falha sísmica- dê trepidação à sua vida”; “Solo de elevada aptidão agrícola- construção aconselhada a nabos”...

3. Paulo Morais, antigo vereador do Urbanismo da Câmara Municipal do Porto que se demitiu, denunciando a corrupção do sector, vai estar presente na Conferência Nacional a realizar na Moita (18 e 19 de Maio), sobre política de solos, mais- valias urbanísticas e ordenamento do território. Significativo, o tema da sua intervenção: “Urbanismo- cancro da democracia portuguesa”.

4. “Dizem-nos os botânicos que Portugal já foi em tempos um território coberto de florestas de carvalhos, sobretudo nas regiões a norte do Tejo. No entanto, quem percorre as paisagens do nosso país tem alguma dificuldade em encontrar vestígios dessa floresta do passado.
(...)
Na verdade os dados mais recentes referem que, apesar da maior consciencialização sobre o seu valor, os carvalhos continuam a declinar em termos de área ocupada (9% nos últimos 10 anos), o que é um motivo de grande preocupação.”
- Joaquim Sande Silva, Árvores e Florestas de Portugal: Os Carvalhais- um património a conservar, Edição Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.

sábado, maio 05, 2007

5ª edição de “folhas soltas”- Feira do Livro de Vouzela

Num meio como o nosso, é fácil desenvolver-se a ideia de que as iniciativas culturais estão condenadas ao fracasso, por falta de público. A Feira do Livro, “folhas soltas” , há cinco anos que desmente o preconceito. Através de uma boa mobilização dos recursos locais, sem “tiques” megalómanos e com uma noção clara do público a atingir, conseguiu-se uma iniciativa que já marcou o calendário e merece destaque. O “Pastel de Vouzela” também lho vai dar. Entre 6 e 14 de Maio, total prioridade à 5ª edição de “folhas soltas” (o programa, já pode ser consultado na coluna da direita). No último dia, feriado municipal dedicado a São Frei Gil, prometemos uma prenda. Para todos os que gostam de ler... mesmo que ainda não saibam.

terça-feira, maio 01, 2007

Encantam-me os livros...


Encanta-me que a minha primeira vez seja com livros, difusão de livros, propôr uma actividade que, pela quinta vez, decorre FELIZMENTE em Vouzela.

Digo que escrever a primeira vez neste espaço de/para/com Vouzela é a alegria de divulgar a feira do livro "folhas soltas". Actividade de divulgação do livro e da leitura com todas as expressões em volta. Sempre foi, com livros, música, cinema, dança, pintura, fotografia e as palavras ditas com sons...

Este 6 de Maio, às dezasseis horas e trinta, a Filarmónica Verdi Cambrense tocará para os cinco mil livros expostos, para as trinta editoras presentes, para nós que estaremos na abertura da Feira. No Jardim. Livros e sons.

À noite, no Cine-teatro João Ribeiro, Hijas del Flamenco, a dança na primeira noite desta festa que durará até ao dia 14 de Maio. Daremos notícia do que os livros vão atraindo a Vouzela.

segunda-feira, abril 30, 2007

Licenciar o licencioso

Não era difícil prever. Um país que tem cerca de 30% da sua população activa dependente da construção, não pode ser levado muito a sério quando fala de “ordenamento do território”. Também dificilmente conseguirá sair da “cepa torta”, mas isso são contas de outro rosário... Ora, sob a capa do “simplex” e com a bonita desculpa do "combate à burocracia", o Governo prepara-se para anular qualquer controlo sobre o licenciamento de obras com possível impacto negativo sobre o território.

Entendamo-nos: o que está em causa, não é a anulação da necessidade do Conselho de Ministros emitir parecer, medida que esteve muito longe de provar ser eficaz; o que está em causa é o desinteresse em melhorar os mecanismos de controlo, deixando o País entregue aos ditames da iniciativa privada e à sensibilidade das autarquias. Se quiserem, de forma mais directa, está em causa a entrega do “ouro ao bandido”, já que ninguém tem mais responsabilidades nos diversos atentados ao ordenamento do território, do que a iniciativa privada e as autarquias.

Quando José Sócrates esteve na pasta do Ambiente, denunciou o facto dos Planos Directores Municipais proporem construção que chegava para uma população de 30 milhões de habitantes. Na recente polémica sobre a distribuição dos diversos serviços (e a necessidade de encerrar alguns), foi argumento de peso o facto das autarquias não terem uma visão global do território, dificultando a racionalização dos investimentos. Tudo isso foi agora ignorado, mostrando não haver um projecto ou, sequer, uma simples ideia, sobre como “arrumar a casa” e acabar com o “país de barracões” em que nos tornámos. O raio da economia nunca mais arranca, a meta dos “150 mil novos empregos” limita-se ao anedotário nacional, vêm aí os últimos “fundos” e essa coisa do “ordenamento” é luxo para ricos. Há, pois, que colocar em leilão as “jóias da família”, a herançazinha, ou seja, o solo. Licencie-se a licenciosidade e... o último a sair que apague a luz.

quarta-feira, abril 25, 2007

A imagem do tempo

Foto dos arquivos do "Notícias de Vouzela"
Curiosa imagem que regista o muito que passou, nestes 33 anos que passam. Sobressai o ar grave dos rostos, os trajes cerimoniosos, o número de presentes. Numa observação mais atenta, torna-se evidente o predomínio dos homens. De chapéu. O local, era a Alameda D. Duarte de Almeida e o 25 de Abril já mexia no País há uns dias. Estava-se a 5 de Maio de 1974 e realizava-se a primeira manifestação em Vouzela, convocada pelo Movimento Democrático. O “Notícias de Vouzela” descreveu o programa: “Cerca das 15.30, o Hino Nacional cantado em coro, deu condigna abertura à manifestação. Ao microfone, um grupo de jovens vouzelenses apresentou algumas canções, entra as quais a já histórica Grândola Vila Morena”.

Seguiram-se discursos, de que se registam os oradores: Dr. Telmo Teixeira de Figueiredo, Dr. José Pinheiro Lopes de Almeida, Dr. António Alexandrino Figueiredo Matos, Escultora Georgete Horta, Graciano Luís Teixeira, Franklin Dias, Professor José Mendes da Silva, Alberto de Carvalho Correia e Dr. António Pereira Bica. Depois, “de braços levantados” e feita a “contra-prova das votações”, foi eleita a Comissão Directiva Municipal, a partir de uma lista constituída por nove nomes: António Alexandrino Matos, Graciano Luís Teixeira, João Ribeiro, José Maria Ferreira, José Mendes da Silva, Manuel Almeida Neves, Maria Isabel Coutinho, Maria Otília Bica, Maria Teresa Fernandes. Aprovado o tradicional telegrama de saudação à Junta de Salvação Nacional, a iniciativa encerrava com a “Grândola” e com o Hino. Vouzela punha-se a par com os tempos.

Mas, como registo do que então se iniciava, mais do que do que então se fez, nada melhor do que a imagem que se diz valer mil palavras, mas que, neste caso, regista mudanças que não se acredita que caibam no tempo que passou.
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Imagem e informações retiradas de Vouzela- A Terra, os Homens e a Alma, Vouzela, 2001.

segunda-feira, abril 23, 2007

Percursos pedestres: em busca do "som do silêncio"

Mapa turístico do Concelho de Vouzela

(clique na imagem para ampliar)

Já ouviu falar do “som do silêncio”? Para saber o que é, tem que abandonar as vias principais, as ruas asfaltadas, a comodidade das rotas conhecidas. Vale a pena. É desse modo que pode conhecer algumas das paisagens mais deslumbrantes que ainda existem, entrar em contacto com o “Portugal profundo” da pastorícia e do minifúndio e, finalmente, conhecer “o som do silêncio”. Não precisa de equipamento especial, muito menos do “4x4” último modelo. Vá a pé. Basta calçado confortável (de preferência com apoio do tornozelo), chapéu, água, nalguns casos um ligeiro farnel, saco para o lixo e máquina fotográfica. Não se esqueça: nunca deixe mais do que as pegadas; nunca traga mais do que fotografias (e o seu lixo, claro).

Em Lafões, já existe uma interessante oferta de percursos organizados, normalmente da responsabilidade das autarquias e das boas ideias de alguma gente que por lá trabalha. Aproveite, porque estamos na época ideal: nem muito frio, nem muito calor e toda a pujança do despertar da Natureza. Pelo meio, vai cruzar-se com monumentos megalíticos, vestígios castrejos, estradas romanas, torres medievais, os "loendros" em flor (Maio), castanheiros e matas de carvalhos. Menos provável é encontrar gatos bravos, mas pode ser o seu dia de sorte.

Deixamos aqui informações sobre as seis propostas disponíveis no Concelho de Vouzela. Se não conhece o terreno, aconselhamos os passeios organizados ou, pelo menos, um pedido de informação prévio no Posto de Turismo local (até porque alguns dos percursos não são circulares e pode necessitar de apoio de um transporte). Depois, arrisque sem receio. Quando quiser mais, volte aqui- a informação vai ficar disponível na coluna da direita, a bem da “linha” (e, sobretudo, da mente) dos que nos lêem.




Novos percursos

1- Percurso de Cambarinho; 2- Percurso do Rio Zela

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PS: Com a ajuda de “o caricas”, juntamos as propostas existentes no Concelho de São Pedro do Sul. A consultar na coluna da direita, na secção “Queima de calorias” .

PS-2: O percurso-6, "Trilho Medieval", foi incluído em Agosto de 2007.

PS-3: Iremos tentar manter esta página actualizada, à medida que surjam novos percursos.

quinta-feira, abril 19, 2007

"Novas oportunidades"... para as cenouras

Já estava a pagar, quando a funcionária me disse “as cenouras que aí leva são francesas”. Várias vezes tinha comprado queijo francês, vinho francês, mas... cenouras?!!! “Porquê, francesas?”- perguntei incrédulo. “Sei lá”- respondeu. “São mais baratas”. Alto! Aquela ida ao supermercado estava a tornar-se perigosa. De repente, no curto espaço entre o corredor das hortaliças e a caixa registadora, caiam por terra os mais indiscutíveis princípios da economia. Como é que um país com uma média salarial muito superior à portuguesa, conseguia produzir mais barato? A rapariga deve ter receado que não levasse as cenouras, porque se apressou a explicar: “Que quer? Não aparecem portuguesas.. E olhe que a batata e as cebolas são espanholas”. Haja alguém que diga à Judite de Sousa ao Carlos Queiroz, à Maria Gambina e ao Pedro Abrunhosa que, se querem novas oportunidades”... dediquem-se à agricultura!

Convém avisar que esta pequena peripécia é totalmente real, tendo acontecido num supermercado perto de si. Em Vouzela.

A rota dos excluídos

Já que falamos de “novas oportunidades”, vem a propósito registar algumas informações apresentados na hora do balanço do “Roteiro para a Inclusão”, organizado pelo Presidente da República. Estudos sobre a distribuição do rendimento, desigualdade e pobreza em Portugal, confirmam as piores suspeitas do cidadão comum: temos o índice de desigualdade mais elevado de toda a Europa.

Duvido que, nos próximos tempos, se volte a dar algum relevo ao assunto- não fica bem na fotografia que se quer divulgar sobre o “défice” e o “crescimento”. No entanto, quem leu as notícias do evento, não pode ter deixado de sorrir perante a reacção de algumas “figuras públicas”. Por exemplo, o economista (e ex-ministro) Daniel Bessa, reconheceu ter ficado “esmagado” com tais conclusões. Quanto ao Presidente da República, apelou a uma maior responsabilização das famílias e à necessidade de “aumentar as metas de escolarização das novas gerações”. O diabo é que às “gerações menos novas”, não há escola que lhes valha, nem família. Talvez haja economia (área que ambas as personalidades tão bem conhecem), caso reveja alguns dos princípios que tem defendido e a crença na “infalibilidade do mercado”. A não ser assim, resta-nos o destino- essa especificidade tão portuguesa- que abrevie a “rota dos excluídos” e diminua o número dos “iletrados”.

“Economices”

Mas, esta forma de analisar os desequilíbrios na sociedade portuguesa é, salvo melhor opinião, uma das grandes responsáveis pelo seu agravamento. Desde há muito que venceu a tese, tal como no poema de Brecht, de ser necessário criar uma “população ideal”, para “encaixar” nas medidas, “indiscutíveis”, dos diversos governos. Quer dizer, em vez de se adaptarem as opções aos recursos existentes, empurrou-se uma significativa percentagem do País para os braços da Segurança Social, enquanto se espera pelo “nascimento” desse “homem novo”, qual “messias redentor”. A Escola passou a ser apontada como o “motor da mudança”, a “vanguarda” que, sob o estandarte das matemáticas e de mais não sei o quê, vai resolver todos os problemas sociais. O próprio Presidente da República disse-o no balanço do “Roteiro da Inclusão”: (a escola) tem sido e vai continuar a ser o mais importante instrumento de inclusão social”.

Bem sei que a História não está na moda. Se assim não fosse, algum “assessor” teria informado o Senhor Presidente de que temos inúmeros exemplos que provam o contrário, a começar pelos actuais 56 mil licenciados sem emprego. A Escola, por si só, não promove “mobilidade social”, até porque, longe de ser “vanguarda”, é uma simples “retaguarda” que responde aos estímulos da sociedade. Se os houver... Desde a reforma do Marquês de Pombal, até aos nossos dias, passando pelas inúmeras medidas dos governos republicanos, encontram-se exemplos mais do que suficientes para mostrar que nunca faltaram leis e tentativas. O que faltou foi o “sinal verde” da economia, mostrando querer integrar esse acréscimo de habilitações. A tal economia que Cavaco Silva tão bem conhece e para onde podia olhar em busca de resposta para as suas (nossas!) angústias. Talvez se evitasse tão longa viagem... às cenouras.