terça-feira, abril 17, 2007

Problemas de simetria

Ambiente agitado em Vouzela, na sequência das reacções aos estudos que propõem o encerramento de vários serviços. “Não passam de estudos”- diz o PS. “Quem cala consente”- responde o PSD. Pena foi que as duas principais forças políticas do Concelho tenham parado o debate, já que é isso mesmo que por aqui tem faltado. O problema não está em saber se o Governo vai ou não aplicar as propostas do polémico estudo. O problema está em avaliar a capacidade de Vouzela para o impedir e saber que alternativas propõe. O líder local do Partido Socialista, Adélio Fonseca, colocou o dedo na ferida quando criticou a falta de articulação entre as edilidades de Lafões e a necessidade de “adequar os meios disponíveis às funções que mais e melhor sirvam os vouzelenses”. Era aí que o debate devia ter começado, já agora com a participação de todos os restantes partidos, grupos de cidadãos, associações.

A parte irónica de toda esta história é que, a confirmar-se o encerramento do Tribunal, isso obedece às linhas orientadoras de uma “reforma da Justiça”, feita com o acordo dos dois maiores partidos. Os mesmos que devem responder, caso Vouzela revele não ter força (e ideias) para travar a medida. De facto, desde os anos 90 (quando se acentuou a recessão demográfica do Concelho), até aos nossos dias, PS e PSD têm o mesmo número de mandatos: dois para cada um. Seria interessante saber se, na hora de propor soluções, agora que as “vacas emagrecem”, podemos contar com algo mais do que as simples “composições simétricas” que têm caracterizado a sua acção à frente da autarquia.

sábado, abril 14, 2007

Capela de São Frei Gil

Tem mais esta villa hua Capella de S. Frey Gil natural desta mesma villa que he administrada pellos moradores della... Beatificado pella Igreja Romana e santificado pella vós do povo foi Religioso da Ordem dos Pregadores... esta seu corpo sepultado em o Convento de S. Domingos da Villa de Santarem e nesta Capella esta a Imagem do ditto Sto.
Tem mais hum sacrario onde esta hua reliquia do ditto Sto. Que he o queixo de baixo com alguns dentes que faz muitos millagres assim nesta freguesia como nas circumvezinhas está esta Reliquia metida em hum cofre de prata com suas vidraças fechada no divino Sacrario com tres chaves esta mais na dita capella a Pia em que foi Baptizado o ditto Sto...- Padre Manoel Lopes, 1732, in Vouzela- A Terra, os Homens e a Alma, Vouzela, 2001

Apesar da fachada em "estilo D. João V", não se sabe ao certo a data da construção da Capela. Dúvidas que alimentam a lenda, tal como sucede com o próprio "Fausto Português", de seu nome Gil Rodrigues de Valadares (1185- 14 de Maio de 1265). Estudou medicina em Paris, professou na Ordem de São Domingos e faleceu em Santarém. Foi canonizado em 1749.

quarta-feira, abril 11, 2007

Os maiores

Serguei, in Le Monde

Nós gostamos destas coisas: a maior árvore de Natal, a maior feijoada, a maior não sei o quê. Desta vez, conseguimos a “maior central fotovoltaica do mundo”! Os especialistas que avancem com as explicações, mas a mim cheira-me a complexo. Na verdade sempre quisemos ser a Espanha e confundimos tamanho com qualidade. Enfim, nem me fica bem estar a falar nestas coisas.

Pois a nossa “maior central”, localizada em Serpa, são sessenta e não sei quantos hectares de painéis solares (52 mil), com uma potência de 11 megawatts (MW). Melhor do que isso, brevemente o concelho de Moura irá receber outra com uma potência de 62 MW. Digno de registo, sem dúvida. Só não percebo porque é que ninguém faz aquela pergunta que desde logo ocorre: porquê só agora?!!!

Portugal tem condições privilegiadas para a produção de electricidade a partir do Sol. É daquelas coisas que nos acontecem: nada fizemos para isso, nem dependeu de um qualquer governo. Foi, muito simplesmente, um brinde que a “Mãe Natureza” decidiu oferecer-nos, logo, resultou. Já Byron se espantava com o fenómeno: “Why, Nature, waste thy wonders on such men?”- os “such men” éramos nós, mas também consta que tinha levado nas trombas de um marido ciumento... Bom, a verdade é que até agora, pouco se fez para aproveitar a vantagem climatérica, muito menos do que outros de muitas nuvens, como a Alemanha, o Reino Unido, a Suécia ou a Finlândia.

O mesmo se passa, com as pequenas instalações individuais que, na opinião de muitos, é preferível às grandes centrais. Parece que os novos regulamentos para a construção, obrigam à instalação de painéis solares nos edifícios que venham a ser construídos, mas, também aí, estamos com um considerável atraso em relação à Europa do frio e dos nevoeiros. Em 2005, Tínhamos 16 mil metros quadrados de painéis instalados, enquanto a Alemanha já andava pelos 980 mil e a Áustria pelos 240 mil.

Por cá, a construção civil insiste em limitar-se ao amontoar de tijolos e abertura de roços, indiferente às inovações tecnológicas que, nos materiais e nas técnicas, procuram soluções que permitam um menor consumo de energia. Vão aí ao “Google” e pesquisem, na língua que quiserem, “materiais de construção alternativos”, “eco-casa”, “casa inteligente”, etc. Se optarem pelo Português, a maioria sai com sotaque do outro lado do Atlântico... mas, são milhares e milhares os resultados obtidos. Pelos vistos, o “Choque tecnológico” ainda não chegou à nossa “malta do betão”. Estranho. Ou talvez não, já que neste campeonato dos “maiores”, estamos muito longe do pódio no que diz respeito à organização, ao planeamento, à antecipação. Arriscamo-nos, mesmo, a sair com a coroa dos “maiores tansos”, caso nos falte a “energia” para "cortar o pio" de uma certa gentinha que eu cá sei e que já no tempo do grande Eça, tinha rigorosa classificação: "umas bestas!"

sexta-feira, abril 06, 2007

Não pode ser por acaso...

Não pode ser por acaso; ninguém é tão burro. Esta forma de encarar o território, olhando apenas para a faixa litoral e abandonando todo o restante, como quem despeja uma casa para a devolver ao senhorio. Não pode ser por acaso. Certamente não vamos desistir e entregar todo o interior aos "espanhóis". Ou vamos?

Há oitenta anos, Vouzela vivia o drama da supressão da Comarca. Há precisamente oitenta anos, pairavam as incertezas, numa luta contra o tempo, em que se avançava com a construção do tribunal e das casas dos magistrados, tentando contrariar a fatalidade. A notícia acabaria por chegar a 11 de Julho de 1927, originando uma violenta reacção do Presidente da Comissão Administrativa, Dr. Guilherme Coutinho: “(...) tendo chegado a esta terra, cuja autonomia judicial e administrativa tem séculos e ininterrupta existência, o incrível decreto da supressão da sua Comarca, tinha convocado esta sessão extraordinária para se deliberar a atitude a tomar em face da consumação d’este atentado governamental contra a vida d’uma das mais florescentes do paiz e d’uma das mais rendozas comarcas da sua classe, premeditado em proveito das vilas visinhas, modernamente desmembradas da Comarca de Vouzela, por juízes funcionários do Conselho Superior Judiciário inimigos de Vouzela, cujos relatórios parciais e informações tendenciosas enganaram a bôa fé do Exmo. Ministro da Justiça”(1). Seguiu-se a demissão de toda a Comissão Administrativa, porque os homens tinham “vergonha na cara”.

Oitenta anos depois, estamos na mesma. São apenas boatos, ou simples ideias, ou estudos, nada de concreto- seríamos os maiores idiotas se não percebêssemos que o terreno está a ser preparado. Encerraram escolas e até houve quem achasse graça. Encerram as urgências e vai encerrar o Tribunal, substituído por uma “Casa de Justiça”. O mais grave disto tudo, é que nem se pode dizer, como em 1927 se disse da Comarca, que se trata de um “atentado (...) contra a vida d’uma das mais florescentes do paiz e d’uma das mais rendozas comarcas da sua classe”. Vouzela tem estado em processo de morte lenta, com os seus responsáveis distraídos a jogar “Sim City”.

No entanto, talvez seja altura de se reflectir sobre estas medidas dirigidas a serviços estruturantes do ordenamento do território e que estão a ser tomadas assim à laia de quem empurra para o fundo, a cabeça do afogado. Com a facilidade de comunicação que hoje existe entre litoral e Interior, com os “I-Pês”, “I-Cês” e as auto-estradas, porque se insiste no sentido único, “rumo ao mar”? Que justificação “técnica” (obviamente!) impede que a circulação se faça ao contrário, usando serviços bem apetrechados, localizados no Interior? Aparentemente, esta seria a medida racional, já que dispersava os fluxos de trânsito, contribuindo para manter um importante movimento de pessoas em zonas tão deprimidas que já não há psiquiatra que lhes valha.

Mas os senhores autarcas, estejam caladinhos! Lembrarem-se agora que “o Estado está a demitir-se das suas funções”, quando eles próprios se demitiram, abandonando as populações aos ditames do “mercado”, soa a falso. Dizer que “sem serviços, em pouco tempo o que restará a Vouzela será só a cobrança de impostos” é hipocrisia. Na verdade, a sua grande preocupação tem sido o alargamento da área urbana, precisamente para garantir... maior cobrança de impostos. Onde estão as ideias para reordenar as actividades económicas locais, lançar “marcas”, proteger actividades? Nada! A “santa iniciativa privada” havia de aparecer, saída do nevoeiro, e tratar do assunto. Tratou: encostada aos "favores autárquicos" e a tudo o que valesse subsídio, assistiu, interesseira, a um dos mais violentos processos de reconversão social vividos no nosso país. As pessoas foram abandonadas, os mecanismos de apoio social foram subvertidos e o território foi despejado. Agora, talvez possa ser comprado a “pataco”- os "espanhóis" estão entre nós. Não, não pode ter sido por acaso...
________________

(1)- in, Vouzela- A Terra, os Homens e a Alma, Vouzela, 2001, p. 128

segunda-feira, abril 02, 2007

Sobre os “ventos” que sopram em Montemuro: as coisas podem e têm que ser diferentes

Foi do blogue “a barriga de um arquitecto” que retiramos as informações que se seguem. Trata-se de perceber como se podem desvirtuar as chamadas “energias alternativas”, limitando-as a mais um negócio com impactos extremamente negativos na nossa paisagem. Ao fim e ao cabo, os mesmos que espalharam selvaticamente eucaliptos pelo território, que exploraram cada metro quadrado na especulação imobiliária, colocaram a mais perigosa das máscaras: a “verde”. Aparecem, hoje, como os “salvadores” do que antes destruíram, aproveitando a receptividade da população para as questões da defesa do Ambiente (e a falta de informação).

Juntamo-nos, pois, aos que têm reflectido e alertado para este estado das coisas, que até já mereceu crónica de Pacheco Pereira (procurar em 25.03.07). Desta vez, com a Serra de Montemuro, como cenário de fundo.

O petróleo branco das serras
Para Montemuro já é tarde

quinta-feira, março 29, 2007

Cem anos de solidão

“(...) Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo com factos conhecidos de mais e começou a decifrar o instante que estava a viver, decifrando-o à medida que o vivia, profetizando-se a si mesmo no acto de decifrar a última página dos pergaminhos, como se se estivesse a ver a si mesmo num espelho falado.”
- Cem anos de Solidão, Gabriel Garcia Marquez

Há livros que registamos na memória, não apenas pelo que dizem, mas também pelo momento em que com eles contactamos. Livros que um qualquer acaso permitiu que se cruzassem com a nossa realidade pessoal. “Cem anos de solidão”, que agora comemora os 40 anos de publicação, foi um desses livros. Abri-o nos primeiros dias de um Outubro particularmente chuvoso, de que me lembro do forte cheiro a terra e do verde ainda intenso das videiras. Foi aí que me misturei com as venturas e desventuras de Macondo, de Melquíades, dos Buendia, com o sonho e a ingenuidade dos homens e a lucidez e a bondade das mulheres. À medida que ia avançando naquele mundo fantástico, em que os excessos dos homens se confundem com os do meio, embalado pelo som do gotejar dos beirados, senti-me a misturar a ficção com a minha realidade, nesta terra em que, como diz o “nosso” Manel, “a sabedoria das pedras é tanta que dos homens pouca história reza”. Foi aí, num final de férias, que vi, como nunca tinha imaginado ser possível, que a solidão é o contrário da solidariedade. Foi também aí, que tive a certeza de apenas faltar um Gabriel Garcia Marquez, com o talento necessário para cantar o mundo fantástico das mulheres e dos homens desta minha terra, construído por mouras encantadas e tentações do demo, perpetuado nas pedras, mas guardado nos corações.

terça-feira, março 27, 2007

“Sem ordem, sem plano, sem qualquer consideração pelo espaço natural”

“(...)desde que muita gente, grandes empresas e autarcas em particular, perceberam que havia muito dinheiro a ganhar, acabaram as resistências – ainda se lembram de como as autarquias e as “populações” resistiam às eólicas que lhes estragavam a recepção das televisões? – e começou a competição por traze-las a tudo o que é monte e vento, sem ordem, sem plano, sem qualquer consideração pelo espaço natural. O problema não está nas energias renováveis, que são de apoiar sem hesitação, está, como em tudo, na combinação da ganância com o desenvolvimentismo, na pressa para ganhar dinheiro no primeiro sítio onde ele pareça poder ganhar-se, levando aos parques eólicos e às barragens o mesmo caos intenso que já conhecemos muito bem de todo o lado.”- Pacheco Pereira.

Pacheco Pereira já disponibilizou, no “Abrupto”, a sua crónica sobre o “toque de finados” da paisagem natural no nosso país (também disponível na edição de Sábado do "Público"). Dura, clara, triste, vale a pena ler. Entra até ao osso, nomeando responsáveis, confrontando-nos com o país de barracões em que nos tornámos e denunciando os perigos da anunciada avalancha de “obra verde”, credibilizada por esse novo profeta que é “o ecologista reconvertido aos negócios do ambiente”. Na verdade, a selvajaria com que se começam a espalhar parques eólicos, não é alternativa à selvajaria com que se espalhou cimento e eucaliptos pelo país. A alternativa está em acabar... com a selvajaria.

Só que, Pacheco Pereira, é o mesmo que defende ser necessário recolocar a questão do liberalismo na agenda, defendendo-o como solução para um “crescimento económico” que nunca mais arranca e para uma Europa que hesita. Estranho. Reduzir a intervenção do Estado e transferir para a esfera privada as questões do ordenamento do território, pressupõe aumentar a influência dos que têm poder económico, os mesmos que exploraram o mercado interno até ao tutano, agarrados ao lucro fácil da construção civil. Precisamente os mesmos que contribuíram para o “Portugal feio” que hoje somos, estejamos a falar da “Estrada Nacional número um”, ou do absurdo crescimento do Algarve. Convém não esquecer que mesmo os negócios feitos com a chancela estatal, desde as auto-estradas com traçados absurdos, até aos estádios de futebol, passando por mil e um projectos locais, do interior ao litoral, de Norte a Sul, beneficiaram, sempre, interesses privados. Ou não?

Existe consenso quanto à necessidade de investimentos de longo prazo. Investimentos estruturantes que funcionem como elementos disciplinadores, reduzindo gastos e abrindo, com tempo, novas áreas de negócio- nenhum deles muito apelativo, de imediato, para a iniciativa privada. Costuma haver unanimidade quanto ao exemplo da educação (quanto a mim, “começando a casa pelo telhado”, mas isso é outra conversa). Mas podemos falar da agricultura e dos produtos alimentares, da floresta, da distribuição, de uma nova gama de serviços para os mais idosos (incluindo o próprio turismo) e, também, das “energias alternativas”. Todos eles requerem investimento sem retorno imediato, alguns com uma componente social dominante (a agricultura, por exemplo), com ganhos que, a curto prazo, se “limitam” ao que permitem poupar nos “RSIs” e noutras medidas de apoio. Sobretudo, todos eles exigem que sejamos algo de completamete diferente do que temos sido. Será que há assim tantos “capitalistas desinteressados” dispostos a avançar? Não há. Pelo menos, enquanto existirem áreas mais fáceis onde haja “muito dinheiro a ganhar”. Onde o “laissez faire” permita quase tudo, “sem ordem, sem plano, sem qualquer consideração pelo espaço natural”.