sexta-feira, fevereiro 23, 2007

O momento era solene

Imagina-se uma tarde de domingo, pela disponibilidade dos gestos e o traje cuidado das crianças. De manhã, as famílias tinham saído em conjunto para ir à missa, embora muitos homens optassem por esperar à porta da Igreja da Misericórdia, pondo a conversa em dia e aguardando vez para engraxar os sapatos. Depois de almoço, as senhoras tinham permanecido em casa, ou aproveitaram para uma ou outra visita. Os homens, concentraram-se no café, dos 8 aos 80, até porque o momento era solene: ia ser inaugurado o novo placar à porta do Café Central que também era cervejaria e que, com o patrocínio do jornal “O Século” (que se auto-intitulava como o de “maior circulação”), garantia, fresquinhas, as novidades do Mundo em Vouzela. Desde que a censura deixasse, claro. Depois, até podemos imaginar discurso por uma qualquer “força viva” local, seguida de taças de “Lafões” branco e um ou outro pastel. Acabada a fotografia, o grupo retirou-se para o interior, em animada tertúlia ou concentradas partidas de dominó e xadrez. E assim terá corrido a tarde, até que as crianças, fartas dos ritmos dos adultos, começaram a puxar pelos casacos dos pais e a pedir regresso a casa.

PS: Não sabemos em que data foi tirada a fotografia. Mas, pelas pessoas retratadas, talvez remonte aos finais dos anos 40. Quanto ao resto, talvez tenha sido assim, ou talvez não...

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Desenvolvimento sustentável

Quo

Claro que já ouviu falar em "desenvolviemto sustentável". Mas, já alguém lhe explicou o que seja e como lá chegar? Está convencido que é uma disciplina das "ciências ocultas" só acessível a iniciados? Então, carregue aqui e, em pouco mais de sete minutos, terá direito a um lugar no Olimpo, partilhando o "segredo dos deuses". Depois, interrogue-se sobre o que tem impedido a mensagem de passar, tanto mais que o filme está na página do "Eurostat" , acessível, portanto, às navegações de qualquer director-geral. Será a parte da viagem de camioneta que assustou os nossos "quadros"? Já agora, tome lá mais esta, para começar a falar de cátedra. Pode manter o sotaque, porque até lhe dá uma certa graça.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Baile de máscaras

1. Henrik Litske, membro da Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho (in “Público”, 18 de Fevereiro), pronunciando-se sobre os resultados de um estudo comparativo entre a qualidade de vida nos meios rurais e nos meios urbanos: “É o resultado mais surpreendente do estudo: as pessoas na Europa rural têm em média pior qualidade de vida do que aquelas que vivem nas áreas urbanas”. Surpreendente? Alguém tem andado a confundir agricultura com jardinagem...

2. Fernando Santos, bastonário da Ordem dos Engenheiros (Público, 19 de Fevereiro), sobre a capacidade da maior parte das construções em Portugal resistirem a sismos: “(...) não há uma garantia porque não há uma qualificação rigorosa dos técnicos que podem subscrever projectos. (...) Os técnicos não são sempre engenheiros e o ordenamento do território não é o nosso melhor domínio. Muitas construções foram feitas (...) em zonas onde não devia ter sido permitida a construção (...) Deixar construir naquelas condições é (da responsabilidade) das entidades públicas que aprovam”. É sempre reconfortante ouvir uma opinião autorizada garantir que... a casa vai mesmo cair-nos em cima!

3. Carmona Rodrigues, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, em declarações televisivas, a propósito das trapalhadas na autarquia: "É preciso relativizar as coisas (...) Se todos os autarcas que são arguidos tivessem de suspender o mandato, de certeza que o país não estava a funcionar neste momento". A casa não só nos cai em cima, como ainda ficamos com a certeza de ser... “a bem da Nação”.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Sinais

Conhecemos os sinais: deixa-se de investir, permite-se a degradação e depois acaba-se com o serviço, argumentando com a falta de comodidade que se provocou e a falta de segurança que não se evitou. Aconteceu com a antiga Linha do Vale do Vouga e tudo indica que se repete a estratégia na Linha do Tua. Pelos vistos, desde 2001 que o acidente estava anunciado e não faltavam medidas que, se aplicadas, podiam ter evitado o desastre. Ninguém ligou. Os cerca de 42 mil passageiros transportados anualmente, não devem ser suficientes para justificar o investimento. E, no entanto, não é difícil prever que, com o agravamento das medidas impostas para combater as alterações climáticas, ainda vamos assistir a muito “ministro” a recordar a falta que faz um qualquer comboio que não rime com TGV. Mas, para já, é certo e sabido que nós, os que pensamos ser para estas coisas que se pagam impostos, somos uns demagogos. Tudo bem. Só gostava que o anunciado “Cartão do Cidadão”, registasse o valor que os “contabilistas do Estado”, atribuem a cada um de nós...

No referendo do passado dia 11, o Concelho de Vouzela manteve-se fiel à abstenção e ao “Não”. Aliás, pode dizer-se que quanto mais vincada foi a opção pelo “Não”, maior foi a tendência para ficar em casa, talvez revelando que há verdades que não passam pelos confessionários... No entanto, é de registar o aumento de votantes comparativamente com 1998. Desta vez, manifestaram posição, através do voto, 4026 cidadãos (38.29%), enquanto no referendo anterior não se tinha ultrapassado os 3262 (31.08%). Este aumento de votantes, teve o seu ponto alto na freguesia de Vouzela, com uma participação de 51,10%. Aí, venceu o “SIM”. Recordando o padre Malagrida (autor do Juizo da verdadeira causa do terremoto que padeceu a corte de Lisboa no 1.º de Novembro de 1755) e na linha de certas peripécias da campanha, não resisto à inofensiva provocação: a terra tremeu no dia seguinte...

PS: O “velho António”, lá foi eleito como o principal responsável pelo estado a que isto chegou. À mesma hora, Jaime Nogueira Pinto esforçava-se, na RTP, por levá-lo à categoria de "melhor". Respeita-se quem tem convicções e dá a cara por elas, mas o contexto internacional com que tentou justificar a acção do ditador, dificilmente explica a promoção do analfabetismo, o isolamento cultural, o Portugal subserviente, tudo aquilo que ainda hoje limita a cidadania ao sarcasmo e ao encolher de ombros. A História não se apaga e Salazar continua entre nós. Pelos piores motivos.

sábado, fevereiro 10, 2007

Reflectindo

Era uma vez um rei que não conseguia aprender a andar a cavalo. É isso mesmo. Sua majestade bem tentava, comprava os melhores cavalos, contratava os melhores mestres, prometia, ameaçava... mas o resultado era sempre o mesmo: “catrapumba” no meio do chão! Foi então que um dos ministros, já farto de tanta insistência e- porque não dizê-lo- algo receoso das iras régias, concebeu uma teoria que obteve aprovação geral: “se não é possível ensinar o rei a andar a cavalo, então... ensinam-se os cavalos a andar com o rei”. Lá voltaram os melhores mestres para trabalharem com os melhores cavalos, consta até que foi apurada uma nova raça, mais larga e baixa e ainda um complicado sistema de roldanas para colocar o traseiro real na sela. Mas, mal os animais ensaiavam os primeiros passos, aí estava sua majestade estatelada no meio do chão. A paciência esgotou-se. Era evidente a incompetência dos mestres que não sabiam educar os cavalos! Merecedora de PENA DE MORTE! E foi assim que um belo dia, já depois de terem rolado várias cabeças, apresentou-se um mestre que dizia ter a solução para o problema. Com ele estava um animal de bom porte, longas crinas ondulantes, que impressionava pelo olhar fixo e rígida imobilidade. Na verdade, tratava-se de um cavalo embalsamado, mas isso, talvez pela ânsia da experiência, passou despercebido ao rei. Abreviemos o relato e imaginemos o rei receoso em cima do cavalo. A medo, bateu com os calcanhares no dorso do animal, mas não houve qualquer resposta. Bateu com mais força e... nada- o cavalo não se movia. Já irritado, depois de várias tentativas, gritou para o mestre: “Mas este cavalo não anda”! Ao que o mestre lhe retorquiu, fazendo uma cerimoniosa vénia: “E Vossa Majestade não cai...”

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

O PIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE

Cruz de Guerra, João Abel Manta, in Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar

Entrou já na ponta final o maior exercício de cidadania dos últimos tempos. A 13 de Fevereiro, com os primeiros ritmos de samba a afinarem para os cortejos do nosso típico Carnaval e as fogosas “baianas” a enfrentarem, de umbigo ao léu, o frio próprio da época, será desvendado o grande mistério: quem foi o pior Português de todos os tempos? Não perca a oportunidade, até porque dizem que faz bem ao fígado. Avance por aqui. Simultaneamente, andam por aí uns rapazes a admirar, embevecidos, os albuns de família e ésse-éme-éssam à doida no velho “Botas”, o tal António do país “pobrete e nada alegrete” (nas palavras de O’Neill), para o maior de todos os tempos. Pois que leve o melhor e o pior- longe de mim querer influenciar. Mas que se roa todo lá na campa, pelo contributo que está a dar a este inovador acto de democracia. Ah! E não se esqueçam dos autarcas, esses que é suposto serem os maiores filhos da dita. Toca a votar. Sim?

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Estratégia Nacional contra as alterações climáticas

A propósito das conclusões do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (grupo científico criado no âmbito da ONU), os jornais divulgaram, entre o divertido e o resignado, os cuidados de linguagem que envolveram a aprovação das cerca de vinte páginas que vieram confirmar o que há muito se sabia. Por exemplo, de acordo com o “Público”, gastou-se um dia inteiro a discutir se a responsabilidade da acção humana no aquecimento global, devia ser apresentada como “virtualmente certa”, ou “muito provável”, numa demonstração clara da estratégia dos governos para a política ambiental. Registe-se a inocência do governo português na habilidade, já que não se fez representar, embora o ministro do Ambiente não saiba bem porquê...

De facto, tudo aponta para que a estratégia governamental vá oscilando entre o “escondidinho” e o “dramatismo controlado”, de acordo com as necessidades do momento. Até porque, à boa maneira do “chico-esperto”, estão criadas condições para surgirem novas oportunidades de negócio, apresentadas como “inevitáveis” ou “garantes da salvação”, logo, sem o empecilho do debate. Por exemplo, como já anteriormente se referiu, estão criadas condições para novo avanço dos interesses ligados à energia nuclear, assim como também o estão, para que se evitem grandes reflexões em torno de medidas que transfiram para a comunidade o ónus do caos. É o caso das restrições à circulação automóvel, sem qualquer investimento em alternativas, como é o da anunciada construção de três novas grandes barragens, a acrescentar aos projectos da EDP “de reforço da Bemposta e Picote e de construção do Baixo Sabor e do Foz Tua” (in, Público, 3/2/2007). É duvidoso que haja condições para pensar um pouco nas consequências de tais medidas que, para além de outros problemas, vão aumentar a retenção de areias, facilitando o avanço das águas do mar.

Tendo sido assunto que, até agora, pouco ocupou o conteúdo do debate político, as questões ambientais apanham a “opinião pública” desprevenida e, consequentemente, facilmente mobilizável por “vendedores de ilusões”. Se ainda não há muito tempo, a tendência era para olhar para as advertências dos cientistas, como uma simples questão de óculos escuros e protector solar, o inevitável aumento da divulgação de dados pode ter o efeito perverso de criar uma receptividade total (e incondicional!) para qualquer "patranha" que ostente o rótulo “verde”. A ausência de planeamento e de reflexão, foi uma das responsáveis pelo estado a que chegamos. A situação não se resolve, pelo simples facto de substituirmos a selvajaria com que se espalharam eucaliptos ao longo do território, por idêntica atitude na instalação de parques eólicos, privatização de recursos hídricos, ou “opções nucleares”. Não vale tudo, para que tudo fique na mesma. O que vale, é saber o que mudar (e como), porque é de mudança que precisamos.