segunda-feira, janeiro 08, 2007

80 anos depois: ideias que se perderam nos caminhos do tempo

Quando sopram ventos que ameaçam a permanência de alguns serviços em Vouzela, talvez seja de recordar que, há 80 anos atrás, vivia-se o conflito da supressão da Comarca, o que justificou um violento discurso do Presidente da então Comissão Administrativa Municipal, Dr. Guilherme Coutinho, contra os “juízes funcionários do Conselho Superior Judiciário inimigos de Vouzela”. No entanto, parece-nos valer a pena registar outros acontecimentos, simples ideias, muitas delas nunca concretizadas, mas que reflectem o dinamismo de vouzelenses de épocas diversas, a sua vontade, o seu sonho. Os exemplos que apresentamos, fazem 80 anos e foram retiradas da obra Vouzela- A Terra, os Homens e a Alma, Maria da Glória de Oliveira Girão de Carvalho, Maria Teresa Ferreira e Costa Tavares e Francisco da Cunha Marques, Edição da Câmara Municipal de Vouzela, 2001.

Janeiro de 1927. Com o objectivo de iniciar a iluminação pública e particular de Vouzela, Manuel Ferreira Coutinho pedia autorização “para colocar postes e montar rêde eléctrica dentro desta vila para distribuição de energia fornecida por uma queda de água no Rio Zela.” (p. 129)

Em 8 de Dezembro de 1927, a Comissão Administrativa Municipal decidiu pedir ao governo “a creação d’uma escola d’ensino primário complementar, com sede nesta vila, para ensino profissional da agricultura (...)”. É curioso registar que esta ideia foi retomada pela Comissão Administrativa que dirigiu a Câmara após o 25 de Abril de 1974 e que, numa entrevista publicada no periódico “Vouga Livre” em Julho desse ano, defendia a necessidade de se pensar numa Escola Agrícola para a região (p. 137 e p. 254).

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Mudar de agulha

Mais um estudo, desta vez da responsabilidade do Instituto de Estudos Regionais e Urbanos da Universidade de Coimbra (IERU), avançando linhas orientadoras para o “desenvolvimento de Lafões”. Como principais conclusões, a necessidade de delinear estratégias em torno dos vastos “recursos endógenos” (como a paisagem, o património edificado, as aldeias históricas, a gastronomia), a par de um investimento na qualificação dos recursos humanos. Óbvio.

Dos dados fornecidos (que apenas conhecemos pelo que foi publicado no “Notícias de Vouzela”, “Gazeta da Beira” e na página da Câmara Municipal de Vouzela), ressalta a imagem positiva que a região desfruta entre a população portuguesa, embora a maioria só a tenha conhecido através da televisão e, no grupo que realmente a visitou, 61% não tenha permanecido, em média, mais do que 12 horas. Também nos parece justificar reflexão, o facto do conhecimento de Lafões ser maior na faixa etária com mais de 54 anos, destacando-se de entre os produtos mais citados, as Termas (70%), o vinho (54%), a vitela (49%), os pastéis de Vouzela (40%) e o cabrito da Gralheira (13%). Ou seja, a maioria dos inquiridos ouviu falar mas nunca veio à região, referindo maioritariamente os produtos (à excepção do vinho que apresenta dados que nos surpreenderam) que mais divulgam a imagem fora dos seus locais de origem. Aliás, a média de permanência parece apontar o dedo a um dos problemas evidentes, sobretudo se tivermos em conta que os utentes das Termas deviam contribuir para valores mais elevados: não há oferta hoteleira satisfatória.

Uma relação difícil

Não é por falta de estudos e conselhos que a região não encontra o seu caminho. O problema parece estar nas lições que se (não) tiram e no modo como se usam. Tem havido uma relação difícil entre os autarcas e o principal recurso de Lafões- a paisagem. Muito “desenhada” por uma actividade agrícola para que se não tem sabido encontrar saídas, a paisagem de Lafões continua a impor-se, apenas, graças à baixa densidade populacional, a algumas zonas classificadas e aos cada vez mais limitados recursos das autarquias. De facto, ela persiste mais pelo que não se faz, já que a “obra” feita tem ignorado, propositadamente ou não, as características rurais do meio, precisamente as que mais atraem quem nos visita. O desafio passa, então, por integrar estas características nos projectos de desenvolvimento e não apenas criar nichos de ordenamento, no meio da destruição geral.

A procura da diferença

Quando se anuncia até à exaustão a importância de uma simples unidade hoteleira virada para o “turismo sénior”, está-se a insistir no erro. Quando se limitam projectos ao mercado nacional, revela-se uma ignorância grave. De acordo com o Eurostat, em 2020 a população dos países da UE (antes do alargamento), com mais de 60 anos, deve rondar os 25%. Isto representa um mercado potencial que não pode ser ignorado (sobretudo se tivermos em conta uma esperança média de vida a rondar os 80 anos), constituído por pessoas com significativo poder de compra e grande mobilidade, disponíveis para usufruir ofertas de qualidade. Simples hotéis com equipamento específico e animação pensada para as manter fechadas, têm elas nas suas terras. O que vão procurar é o usufruto do espaço, é a alternativa aos grandes centros urbanos, é o paradigma da diferença. Longe de se contentarem com unidades isoladas ou “centros históricos” de delimitação duvidosa, vão procurar a vivência só possível numa região inteira, que saiba preservar e permitir o uso do seu património natural e edificado, fornecendo, ao mesmo tempo, as melhores respostas ao nível das comunicações, da saúde e da segurança. Elas vão ter idade e cultura para saberem o que querem e dinheiro para o pagar.

Mas, apostar neste tipo de projecto, tem ainda outra vantagem: não é necessário “inventar” uma “população ideal” para o conseguir. Basta incentivar a que existe a fazer o que sempre fez, apoiando-a do ponto de vista técnico e permitindo-lhe aceder às necessárias contrapartidas, directamente relacionadas com o êxito da iniciativa. Difícil é convencer os autarcas a “mudar de agulha”, a redefinirem os objectivos que têm presidido à sua acção. Isto, porque uma nova orientação implica preservar em vez de construir, manter e melhorar em vez de alterar. E, no entanto, os ventos que sopram deviam levar a uma mudança de estratégias. Ou de autarcas...

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Radão: para uma coexistência pacífica

Este é um daqueles casos em que temos, mesmo, que aprender a conviver com o “inimigo”. O radão é um gás de origem natural, radioactivo, proveniente do urânio e rádio existente na maior parte dos solos e rochas (mas, sobretudo, nas graníticas) e que se associa a doenças pulmonares de elevada gravidade. Se nos espaços exteriores, dificilmente se encontram valores perigosos para a saúde, já nos interiores deve haver algum cuidado, justificando-se, até, a definição de normas para construções em zonas de elevado risco. Mais: justificava-se a colaboração permanente entre autarquias e organismos especializados, de modo a que houvesse um esclarecimento das populações e fossem realizadas medições periódicas, única defesa eficaz, já que estamos na presença de um gás não detectável pelos nossos sentidos.

De acordo com um estudo realizado pela Deco em 2001, os distritos de Braga, Vila Real, Porto, Guarda, Viseu, Castelo Branco e Portalegre (Serra de São Mamede), são considerados de risco. Medições efectuadas entre Novembro de 2003 e Julho de 2004, revelaram que cerca de 34% das habitações analisadas ultrapassavam os limites de segurança admitidos pela União Europeia (Directiva 90/143 EUROATOM). No entanto, como em muitas outras coisas, mais do que temer, importa conhecer. Nesse sentido, aqui deixamos o contacto de dois organismos portugueses especializados, com diversas sugestões para construções antigas e recentes e disponíveis para a realização de testes. Fica também a ligação para a página da "Health Protection Agency", onde se apresentam interessantes propostas de resolução do problema em habitações.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Os exemplos que damos, as gravatas que usamos e os votos que desejamos

“(...) muitas empresas deixaram de produzir os chamados bens transaccionáveis- aqueles que podem ser exportados ou que podem sofrer concorrência de produtos semelhantes importados- e refugiaram-se nos serviços ou na construção civil, escapando à pressão de empresas internacionais mas perdendo, ao mesmo tempo, capacidades para competir em mercados globais.”- Paulo Ferreira, De bom aluno a mau exemplo, in Público, 28 de Dezembro de 2006.

Vêm-nos à memória os versos de O’Neill, “País engravatado todo o ano/ e a assoar-se na gravata por engano”. De facto, é como se estivéssemos condenados a vestir uma pele que não nos pertence, num faz de conta permanente: faz de conta que somos muito espertos, faz de conta que somos muito desenvolvidos, muito... modernos.

Num estudo da responsabilidade da Comissão Europeia, Portugal é apresentado como o exemplo do que NÃO deve ser feito, por todos quantos vão aceder ao euro. Explorando até ao osso o mercado interno e evitando o risco da abertura ao mercado internacional, grande parte das empresas portuguesas assinaram a sua própria sentença de morte. A construção civil foi um dos estratagemas então usados, com os impactos conhecidos no desordenamento do território e sem outra contrapartida que não o ganho imediato do especulador. Dito por outras palavras, não só nada ganhamos com a asneira, como temos que suportar as suas consequências.

Para todos quantos se preocupam com o ordenamento do território, é fraco o consolo de verem confirmadas as suas teses: a transformação do país num estaleiro de obras (em grande parte) inúteis, mais não tem feito do que destruir os principais recursos ligados ao património natural e edificado. A triste realidade, é que grande parte dos nossos “dirigentes” locais e nacionais, continua a confundir desenvolvimento com construção desenfreada, não percebendo o caracter efémero do que criam e a destruição que provocam. É o tal fatinho que se tenta vestir sem que lá caiba a pança e a vistosa gravatinha de que falava o O’Neill... Quase apetece desejar que se mantenham quietos, quietinhos, só a fazer figura, até que surja uma onda de novas ideias. E que a nova Lei das Finanças Locais lhes aperte... a gravata.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Urbanização de Sampaio começa com destruição de muro de pedra

Urbanização de Sampaio. Quem desce, do lado direito, encontra um muro recentemente construído, separando os loteamentos do passeio público. Trata-se de um vulgaríssimo muro em cimento. Nada de novo. Surpreendente é ter sido destruído um muro em pedra (ainda visível), para dar lugar à “modernaça” construção. Porquê?

Os muros de pedra, são marcas características da nossa região, reflectindo o esforço dos que, ao longo de séculos, souberam conquistar espaço à dureza da serra. São marcas do esforço, da técnica e do regime de propriedade. Como tal, deviam ser classificados e protegidos, se houvesse conhecimento para mais do que para delimitar “centros históricos” de pouco rigor, cenário para fotografias de turista ocasional. Se quiserem um argumento mais de acordo com a sensibilidade dos que nos têm dirigido, digo: foram desperdiçados milhares de euros!

Como início de uma urbanização num dos bonitos espaços da vila de Vouzela, é um sinal preocupante. Haverá sensibilidade para proteger o que resta, para evitar o corte dos carvalhos, para saber conviver com o Zela que corre ao fundo? Duvido. Os autarcas que vamos tendo, são óptimos a encomendar estudos, mas revelam algumas dificuldades de interpretação...

terça-feira, dezembro 19, 2006


"Olho para ti"

segunda-feira, dezembro 18, 2006

"Quando somente pensar é aprofundar a tristeza..."

Uma mulher em Vouzela num determinado dia ,abraçou e beijou os seus filhos ,que eram tudo o que sempre desejou e tinha.
Nutria por eles um amor doido , maior que a dor que a enchia de lágrimas e de desespero ,lhe rasgava o coração e sobretudo a Alma.
Alimentou-os de manhã e saiu para passear ,contou-lhes todas as histórias que se lembrou ,sorrindo de angustia.
Fez uma brincadeira de todos se amarrarem com cordas junto á ponte do Vouga,e saltou para o rio.
O silêncio que se seguiu foi brutal, como se os homens e as mulheres de todos os cantos do mundo tivessem sido trespassados por essa culpa esse vazio esse espanto, esse gesto para além da linha do entendimento e da razão.
No dia em que fazia um ano em que esta mulher se matou com os filhos,o pai e marido resolveu queimar as cordas deste drama e imolou-se , silenciando pelo fogo o que a água gritou...

-Aconteceu em Vouzela e estes factos extraordinários não estão sujeitos a qualquer julgamento ou análise a não ser a ficção da escrita.

-Parte de um poema de Keats que só conheço a versão em castelhano ,perdoem-me os puristas da lingua:
Aquí, donde los hombres se sientan y oyen sus mutuos quejidos;

donde la parálisis agita algunas tristes,ultimas canas,

donde la juventud palidece,adelgaza como un espectro y muere;

donde tan solo pensar es estar lleno de tristeza[...]

John Keats

Beijos do manel vaca