quarta-feira, dezembro 13, 2006

Tremido na fotografia

(Quo)

O Instituto Nacional de Estatística disponibiliza na sua página, os dados do “Inquérito à Estrutura das Explorações Agrícolas 2005”. Ao fim e ao cabo, trata-se da confirmação do que todos suspeitávamos e que se torna evidente para quem percorre o País: grande parte do território tem sido abandonado sem projecto nem simples ideia, limitando as opções à emigração ou à especulação imobiliária. Mas, sobretudo, é um retrato em que, todos, continuamos a ficar mal e em que, apesar das aparências, o Poder Autárquico também entra.

Neste momento, Portugal tem a população agrícola mais idosa e menos escolarizada de toda a União Europeia, com uma reduzida capacidade para beneficiar de ajudas, mas com uma forte dependência, ao nível da origem dos principais rendimentos do agregado do produtor, de pensões e reformas. Se acrescentarmos o facto do sector secundário representar a terceira fonte dos principais rendimentos destes agregados (trabalhadores inevitavelmente pouco qualificados), facilmente concluímos que o nosso “mundo rural” é já um “barril de pólvora”, com impactos ambientais, sociais e económicas profundamente negativos. Tenha-se em conta que, nas estatísticas sobre o comércio internacional, no período entre Janeiro e Setembro de 2006, verificou-se um aumento de 8,2% nas entradas de produtos alimentares e bebidas (quer produtos primários, quer transformados).

Se é verdade que a maior parte das decisões para o sector, já pouco dependem das instâncias nacionais, não o é menos que pouco se fez para o reorganizar, tendo em conta os dois maiores serviços que pode prestar ao país: apoiar o ordenamento do território e impedir o extremar de situações sociais de carência. Ao fim e ao cabo, era isto que se exigia dos tais projectos de “economia sustentada” de que tantos falam e poucos praticam: conseguir o financiamento que permitisse a continuação de parte de uma actividade economicamente deficitária, mas que garantia uma percentagem do sustento de pessoas de difícil reconversão, dando-lhes condições mínimas para permanecerem nas localidades e delas cuidarem. Educação, formação e “paradigmas finlandeses”, deviam ter sido as metas a atingir com a geração seguinte, que, desse modo, estaria apta para dar corpo às reformas necessárias.

As autarquias tinham um papel a desempenhar que, salvo raras e honrosas excepções, recusaram. Promover a selecção e promoção de produtos de excelência, apoiar na criação de redes de distribuição, estimular o associativismo e a redefinição das propriedades, facilitar investimentos de que resultasse a reconversão de actividades menos produtivas, era um serviço que o poder autárquico podia ter prestado às regiões, ao país e a si próprio, sem grandes custos e apenas com ideias. Em vez disso, abandonaram-se as pessoas à “sorte” e aos ditames do mercado, que na prática significou esperar pela morte dos mais idosos, perverter os princípios de apoio da Segurança Social e abrir portas aos desvarios do imobiliário ou à “fé” nas “zonas industriais” (onde estão os trabalhadores qualificados que as permitam em bases sólidas?). Numa segunda fase, os responsáveis locais perceberam que estavam a perder população e, consequentemente, peso negocial. Azar. Dos autarcas e, sobretudo, nosso, condenados a um território desordenado, desleixado, em muitos casos abandonado.

O pior de tudo, é que se prevê ser difícil a recuperação, já que a base social que a podia sustentar, envelhece ou, pura e simplesmente, não está a ser preparada para tal. Na maior parte dos casos, emigra. Para o litoral, ou para onde quer que seja. Ficam os sinais destes tempos: rotundas, pavilhões, muito alcatrão, urbanizações sem sentido. Espera-se que baptizados com os nomes dos seus mentores. Para que ninguém os esqueça.

domingo, dezembro 10, 2006

Um pagode

Vouzela está um pagode. Não se trata de uma piada à proliferação de casas de comércio chinês, mas a constatação de um facto: é uma paródia pegada. Já teve um combóio a sério, mas não descansou enquanto não acabou com ele. Agora, tem um a brincar a que dá honras de “atracção turística”- ou, pelo menos, do que alguns chamam como tal. Já teve turismo, com um hotel e várias pensões. Agora, não tem um local de jeito para acolher quem nos visita, mas farta-se de discursar sobre a importância do Turismo para a economia local e, claro está, “sustentada”. Tem recursos hídricos impressionantes, mas já passou por faltas de água. Tem dois rios que despreza, enquanto se enternece com piscinas vulgares. Teve generosos favores da “Mãe Natureza”, mas prefere destruí-los para edificar obra de duvidoso gosto e largo orçamento. Tem a população a diminuir, mas não para de construir. De facto, só com muito sentido de humor. Negro.

Recentemente, na página da autarquia divulgava-se a iniciativa “Natal Ecológico”, da responsabilidade do Projecto “Anima Senior”. Pensei logo que vinha mesmo a calhar, até porque nada como a transmissão da experiência dos mais idosos, para equilibrar a tendência consumista das nossas crianças. Já assisti a iniciativas dessas e todos gostam: os idosos e as crianças que descobrem o prazer de inventar os próprios brinquedos, de os recriar, a partir de materiais simples. Tenho a certeza que qualquer uma daquelas pessoas do “Anima Senior”, teria muito que contar, muito para ensinar. Mas, afinal de contas, a ideia foi totalmente ao contrário: tratou-se de “sensibilizar os mais velhos (sic) para a importância de reciclar o lixo”. Como? Construindo presépios “utilizando materiais recicláveis, como por exemplo papel, embalagens, plástico, garrafas, entre outros”. Ou seja, aquelas pessoas que tiveram uma experiência real de reaproveitamento e reciclagem de materiais, foram “sensibilizadas” para fazerem um São José a partir de uma garrafa de "Coca-Cola" e uma Nossa Senhora de um iogurte “Yoplait”. Na verdade, foram “sensibilizadas” para reciclar um lixo que, em grande parte dos casos, nunca produziram.

Os organizadores garantem estar já “a pensar em novas actividades”. Tendo em conta o “público-alvo”, talvez possamos esperar que o “sensibilizem” para a importância da preservação dos ecossistemas, através da construção de aquários, ou para as boas práticas na gestão da floresta, com um curso sobre tratamento de “bonsais”. Não me digam que isto não é um pagode.

sábado, dezembro 09, 2006

Sai uma caixa de dúzia!

O segredo está no folhado. Finíssimo, estaladiço, só os “eleitos” o sabem fazer e poucos o sabem comer. Exige dentada firme, noção de medida, paladar apurado, tempo. Os pasteis genuínos não se encontram em áreas de serviço, ou ao virar da esquina. É preciso procurá-los e merecê-los. Em Vouzela.

Mas, há os que se atrapalham com o folhado, que até o sacodem, lambões, indo direitos ao recheio. Para esses, aconselhamos a Bola de Berlim. Com creme. Também há quem gostasse de ver o Pastel de Vouzela transformado noutra coisa qualquer. Talvez, até, com cobertura de morango, ou encimado por uma rodela de kiwi. Um “pedaço” do tipo “faça você mesmo”, à disposição numa qualquer prateleira de supermercado em embalagens de celofane. Desses não temos, nem queremos. No pastel e em Vouzela, interessa-nos o que têm de único, de diferente. Pedras, flores, pessoas. Interessa-nos o verde da paisagem, a leveza das águas, o som do silêncio, a frontalidade das gentes. E o finíssimo folhado, claro- é esta a riqueza de Vouzela. O resto não passa da mediocridade dos adoradores de “donuts” e de “Reboleiras” universais.

O espaço que hoje abrimos, está à disposição de todos os que queiram reflectir sobre Vouzela e a região de Lafões. Não pretende ser isento- tomamos partido, sem rodeios ou cedências- mas respeita (quase) todas as opiniões. À mesa, vai sentar-se gente que conhece Vouzela e dela usufruiu plenamente. Gente que experimentou os rios, o espaço livre, que aprendeu com as pessoas. Mas gente que tem assistido ao progressivo domínio dos fãs do folhado de microondas, das urbanizações canhestras, dos que se envergonham do seu passado rural. O “Pastel de Vouzela” está disponível para reflectir sobre tudo isso, com dentada firme, mas aberto a outros paladares, até porque não recusamos um “caladinho”, uma fatia de folar ou um caçoilinho. Quem for servido, que faça o favor de se sentar. A conversa vai começar. Com Vouzela em fundo, já que, apesar de todas as asneiras de que tem sido vítima... continua linda!

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Da Feira ao Monte cavalo

Nestes limites acontece Vouzela.Do concelho se falará por não menos importante.
Importa reter que em Vouzela a sabedoria das pedras é tanta que dos homens pouca história reza,mas reza...e é tambem dessas histórias de amor e preconceito,orgulho e inveja,sensibilidade e maledicência ,bem como todos os titulos de filmes com drama ,que o vosso manel vaca vai tentar dizer,mais sobre o amor e traição claro ,pois sempre fizeram parte do imaginário vivido e muito vivenciado de entre a feira e o monte de cavalo.
Lá iremos ...Beijos do manel