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segunda-feira, novembro 17, 2014

Histórias que por cá se contam-VIII: Queiran

Foto retirada do blogue Igarei 
"A dois kilometros da egreja matriz, está o logar de Igarei, onde ha uma capella dedicada a Nossa Senhora das Neves.
Segundo a lenda, a imagem d’esta Senhora appareceu em um monte proximo, aonde hoje existe uma cruz, para memoria, e por isso se chamou o monte de Santa Cruz.
Diz-se que, depois, a mesma imagem apparecêra junto á estrada real, e perto de Igarei.
O povo construiu logo n’aquelle sitio uma ermida, toda de cantaria lavrada, com 52 palmos de comprimento e 31 de largo, com um só altar, que é o da Senhora.
Esta imagem é formada de pedra fina e de excellente esculptura".
Fonte Biblio: PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo VIII, pp. 16-17

segunda-feira, novembro 03, 2014

Histórias que por cá se contam-VII: Lenda da aparição de Nª Sra. dos Milagres

"Conta-se que em Adside, freguesia de Campia, concelho de Vouzela, apareceu Nossa Senhora debaixo dum cabeço enorme. Fala-se que essa mesma imagem já tinha aparecido noutra povoação perto, mas como não lhe fizeram nenhuma capela ela veio aparecer em Adside. Quem a viu pela primeira vez foi um cego por isso ninguém acreditou. Então ele pediu que o conduzissem até ao local onde ele dizia ter visto Nossa Senhora. Alguns mais crentes conduziram-no, subiram o monte, atravessaram penedos até que a certa altura ele disse que era ali. Não valia a pena caminhar mais. Tinha sido ali que a vira.
 Estavam perplexos, o rochedo era enorme e estava assente numa das suas partes mais estreitas, estavam admirados como é que não caía. De repente o cego começou a falar, e a caminhar sozinho, começou a ver tudo e todos e dizia continuadamente que tinha sido debaixo daquele rochedo que vira Nossa Senhora que vestia um manto branco. Como todos começaram a fazer troça só porque não viam nada, o homem resolveu ir embora. E foi visto que já conseguia ver foi sozinho.
 Quando chegou à sua povoação a ver, as pessoas começaram todas a dizer que tinha sido um milagre pois ele que não via um palmo à frente do nariz e agora conseguia ver coisas que ninguém via.
 Nessa mesma noite esse homem faleceu. A partir desse dia as pessoas que acreditavam, a sua vida continuou a correr normalmente enquanto que às pessoas que não acreditavam começaram a acontecer-lhes desgraças e os seus animais começaram a morrer. Assim as pessoas que acreditaram começaram a pensar em fazer uma capela. Mas eles começaram a fazer a capela num sítio e no dia a seguir aparecia tudo estragado e uns metros mais abaixo apareciam 4 pedras como que a indicar que era ali que a capela deveria ser feita. Andaram assim durante 15 dias, no final um senhor disse que assim não poderia continuar e apesar dos incómodos e trabalhos que isso pudesse trazer a capela teria de ser feita no sítio que aparecia marcado.
 Assim fizeram e nunca mais o trabalho apareceu estragado e o nome da Santa ficou Nossa Senhora dos Milagres porque diziam que o que aconteceu ao cego tinha sido um milagre".
Fonte Biblio CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.24

quinta-feira, outubro 09, 2014

500 anos do foral manuelino de Lafões

Imagem retirada da página do Município de Vouzela no Facebook

"(...) e portanto mandamos que todas as coisas contidas neste foral que nós pomos por lei se cumpram para sempre do teor do qual mandamos fazer três um deles para a Câmara do dito concelho de Lafões e outro para o senhorio dos ditos direitos e outro para a nossa Torre do Tombo para em todo o tempo se poder tirar qualquer dúvida que sobre isso possa sobrevir dada na nossa mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa aos XV dias de Dezembro do ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e catorze (...)"- in, Foral de Lafões 1514, Câmara Municipal de Vouzela, 1997.

No mesmo ano em que se publicou a primeira edição completa das Ordenações Manuelinas (que havia de ter uma versão definitiva em 1521), Lafões via reformadas algumas das diretivas por que se tinha regido até então e aprovado o seu novo foral para regular a vida de todos quantos por estas terras viviam. Todos? Não.  Havia exceções, como as do "lugar do Banho" (Termas), porque, como então se explicava, "particularmente se fará foral do dito lugar e foros dele para ser sempre apartado da dita terra". Assim aconteceu, no ano seguinte. Para além dele, mereciam tratamento especial Calvos, Queirã, Moçâmedes, Oliveira de Frades, o "couto do mosteiro de São Crsitovão" e Alcofra.

D. Manuel I foi o rei em cujo reinado os navegadores portugueses chegaram à Índia e ao Brasil, na continuação do rumo da política expansionista traçado pelo seu antecessor e primo, D. João II. Se a consolidação do império português foi o grande objetivo da sua política externa, o reforço do poder real, através da aplicação de normas unificadoras, fez do seu reinado um patamar importante da construção do Estado moderno. Como exemplo do que dizemos, tanto podemos referir o conjunto das suas "Ordenações" (em que, por exemplo, se generalizava a todo o reino os padrões de pesos e medidas já então usados em Lisboa), como os diversos forais publicados, conhecidos por "Forais Novos". Ao contrário dos primeiros forais, estes mais não eram do que listas de "impostos", coimas e exceções com a preocupação (nem sempre conseguida) de uniformizar.

O foral de Lafões de 15 de dezembro de 1514, é um interessante documento para se compreenderem as relações sociais da época, a vida económica da região e os valores que orientavam a vida dos homens. Fique sabendo que o imposto exigido pela venda de um escravo, era igual ao do negócio de um "cavalo rocim ou égua e de mir ou mula". Quanto às penas aplicadas por  ofensas à integridade física, ficava isenta "mulher de qualquer idade". Contudo... também disso beneficiavam "os que castigando sua mulher e filhos e escravos tirarem sangue (...)". E numa altura em que se tenta dar cobertura legal à apropriação privada dos baldios, talvez valha a pena atender ao que  se dizia sobre o uso das "terras maninhas", permitindo que "os povos ou pessoas a que tocar as podem tomar e destapar e fazer delas livremente o que faziam e converte-las em seus usos e logramento sem mais haverem mester outra autoridade de justiça nem incorrerem por isso em alguma pena (...)" (1).

Em 1997, a Câmara Municipal de Vouzela fez uma primeira edição deste documento que rapidamente esgotou. Para as comemorações do quinto centenário, está prevista nova edição, a não perder por todos quantos se interessam em conhecer os mais importantes mosaicos da nossa história coletiva.
_________
(1)- A este respeito é interessante a contradição entre o disposto na maioria destes forais e nas "Ordenações", onde aparece uma maior preocupação pelo uso coletivo destas terras (vd., História de Portugal, dir. José Mattoso, 3º vol., pág. 172 )

quarta-feira, outubro 01, 2014

Histórias que por cá se contam-VI: A cova do Lobisomem

"A cova do Lobisomem é uma caverna pré-histórica, encontra-se na povoação de Cambra de Baixo, da freguesia de Cambra, situada na margem direita do rio Alfusqueiro. Acerca desta caverna, existe uma lenda, onde se fala que havia um fantasma  que de dia descansava na margem do rio, e de noite percorria sete freguesias. A situação desta caverna em relação ao rio, e o facto de ficar na parte externa duma curva deste, onde a erosão é portanto mais activa, levando a querer que ela tenha sido em parte escavada pelas águas.
Esta caverna consta de uma galeria, ou corredor cuja entrada mede 2.40m de altura por 2m de largura, indo estreitando gradualmente para o interior, conduzindo a uma vasta câmara de forma oval irregular por um estrangulamento onde a custo cabe um homem de pé, pois não tem de largura mais de 40 cm, tendo aliás 2.20m de comprimento.
A câmara, com cerca de 5m de comprimento por 2.50m de largura e outro tanto de altura, pode comportar 10 homens bem à vontade, O comprimento total incluindo galeria e câmara mede l8m.
Toda a caverna foi aberta em saibro muito rijo, quase tão consistente como o granito, tendo na parte superior da câmara um pequeno buraco totalmente tapado por uma cobertura de pedras roladas ligadas por um cimento arenoso e argiloso muito duro e incontestavelmente produto da indústria humana. O fundo está completamente obstruído de areia e pedras roladas.
Depois de feitas algumas escavações, demonstrou-se que as águas das cheias em sucessivas invasões, levaram quaisquer restos humanos que ali porventura tivessem sido depositados, enterrados, mas a prova irrefutável de que a caverna foi habitada tivemo-la nós, pela presença de pedras calcinadas e vestígios de fogo no tecto do recinto interior".
Fonte Biblio: CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.29.

A lenda

Reza a lenda que em noites de lua cheia o lobisomem percorre as ruelas graníticas da povoação de Cambra, caçando quem apanhar desprevenido. As portadas das janelas fecham-se e as crianças escondem-se debaixo das mantas quando ouvem o tropel das suas patas na calçada. Mas que monstro é este que assim apavora as noites enluaradas?
Acontece que nas famílias da região, nas mais numerosas, era costume haver 7, 8, 9 e mais filhos... Se, ao chegar o sétimo filho, nascesse uma menina havia que chamar-lhe Custódia ou Benta e se fosse menino havia que pôr-lhe o nome de Bento ou Custódio. Mas, nem todas se lembravam ou então não acreditavam na maldição e assim lá lhe davam outro nome. Então, em todas as noites de lua cheia, essa criança, ao chegar à idade adolescente sofria uma terrível transformação: crescia-lhe os dentes e as orelhas, as unhas transformavam-se em garras e o corpo ficava coberto de pêlo negro e hirsuto... os olhos chamejantes vasculhavam o escuro, saltava de casa para fora, procurava as vítimas indefesas, caçava-as e depois arrastava-as para o seu esconderijo: uma gruta, na margem do rio Couto, perto de uma velha torre onde as devorava sofregamente! Testemunho disso são os ossos que por ali se iam encontrando e as paredes enfarruscadas da cova onde, nas noites mais frias, o monstro acendia uma fogueira para se aquecer.

- Retirada de Geocaching

domingo, setembro 14, 2014

Histórias que por cá se contam-V: Lenda de Santo Estêvão

 Igreja Matriz de Fornelo do Monte, construída em 1724 sobre as ruínas da capela de Santo Estêvão.
"À semelhança de outras terras, Fornelo do Monte também tem a lenda do seu padroeiro.
Santo Estêvão, que foi Papa entre os anos 254 a 257, foi um dos mártires dos primeiros tempos do cristianismo. E um dia, há muitos séculos, o seu espírito passou pelas montanhas de Fornelo, e ao contemplar as belezas naturais que Deus ali criara, resolveu transformar uma das pedras ali existentes na sua própria IMAGEM, deixando-a encostada a um grande penedo, em sítio bem visível dos moradores. E o povo guardou-a com grande devoção, construindo-lhe então uma capela em sua honra.
Mas.., os de Ventosa, quando souberam do aparecimento da milagrosa Imagem, vieram buscá-la, e levaram-na para a Igreja Paroquial de Santa Maria de Ventosa a que Fornelo nesse tempo pertencia. E sempre que os de Ventosa o faziam, a Imagem voltava ao lugar onde tinha aparecido, até que ficou definitivamente em Fornelo, depositada na capela que lhe construíram.
E foi por cima das pedras desta antiga capela, que o povo no século XVIII erigiu a sua própria Igreja".
Fonte Biblio CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.25

segunda-feira, setembro 01, 2014

Histórias que por cá se contam-IV: Lenda da caninha verde

 Caminho de acesso à Ribeira de Ribamá. Foto retirada daqui.

Nota prévia: A versão da lenda que apresentamos de seguida, da autoria de Gentil Marques, publicada em 1962,  foi por nós escolhida por ser a mais rica em pormenores. No entanto, alertamos desde já para duas referências que certamente vão parecer estranhas aos leitores mais familiarizados com a região. Desde logo, é duvidoso que na versão original da lenda fosse feita qualquer referência ao rio Vouga (quando muito a Ribamá), tendo em conta o seu percurso pela região. Depois, quando o autor integra Vouzela "na comarca de São Pedro do Sul", é preciso não esquecer que estamos perante um texto inicialmente publicado em 1962. Ora, Vouzela perdeu a comarca em 1927 e apenas a recuperou em 1973... até hoje.
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"Alguma vez, estimado leitor, já passou pela bonita e pitoresca freguesia de Fataunços, perto de Vouzela, na comarca de São Pedro do Sul, situada nas margens fascinantes do rio Vouga?... 
Pois em Fataunços há uma casa brasonada que tem a sua história lendária, recordada por uma escultura graciosa e simbólica que ainda hoje lá está.

Nos exórdios sáfaros da monarquia lusitana, vivia num palacete da freguesia de Fataunços um velho guerreiro ainda descendente do famoso chefe mouro Cid Alafum, que fora senhorio daquelas terras do couto de Alafões, havia já muitos séculos. Mas o descendente de Cid Adafum — El Haturra, era o seu nome — em nada se parecia com o terrível antepassado, que se mostrara sempre cruel e despótico.
Pelo contrário, El Haturra primava por ser bonacheirão e alegre, aceitando sem sombras de tristeza o domínio português.
Era velho e feio, sim. E usava permanentemente, à laia de bengala, uma velha cana ressequida pelo tempo e enegrecida pelo uso. Cana que vinha sendo transmitida na família, de geração em geração, sempre com palavras misteriosas murmuradas ao ouvido do novo possuidor...

Os seus amigos rodeavam-no e perseguiam-no com perguntas acerca de tão estranha caninha. Principalmente Álvaro, um moço português ao qual o velho mouro se afeiçoara sinceramente. E, um dia, Álvaro resolveu-se a falar com ele a sério, muito a sério, sobre o assunto que o intrigava.
— Escutai, El Haturra... Para vosso bem, aconselho-vos a abandonar essa vara negra e feia que utilizais como bordão.
E olhando-o bem de frente, acentuou:
— Para vosso bem, repito!
Mas o velho El Haturra limitou-se a encolher os ombros com ar displicente, e a dizer em tom firme:
— Não quero!
Álvaro voltou a olhá-lo, sem compreender.
— Como é isso possível, se sois um homem de bom raciocínio?... Pois não entendeis que tal vara serve de gáudio à rapaziada e é motivo de constante troça para vós?
Soberbamente, num jeito que contrastava com a sua aparente velhice, o mouro limitou-se a dizer, sem qualquer hesitação:
— Eu sei o que faço, amigo! Esta vara negra e seca vale muito... Muito mais do que podeis pensar... É o bastão derradeiro do comando que usou Alafum, na célebre retirada dos agarenos…
Um sorriso leve nasceu e morreu nos lábios de Álvaro.
— Ora, ninharias!... Velharias!...
Foi a vez de El Haturra o fitar bem no fundo dos olhos.
— Pois não acreditais que esta vara tem magia?
O ligeiro sorriso de Álvaro voltou a aparecer, para logo se transformar numa clamorosa gargalhada.
— Magia? Claro que não acredito que possa haver qualquer espécie de magia nessa vara grotesca!
E voltou a gargalhar, num provocante desafio.
O velho El Haturra primeiramente pareceu irritado. Os seus olhos semicerraram-se e parecia que ia explodir em cólera. Mas depois acalmou-se, e a sua voz tornou-se branda, confidencial:
— Álvaro, vós bem mereceis a minha confiança. Tendes mostrado muita vez que sois realmente meu amigo. Por isso mesmo vou confiar-vos um segredo que somente tem sido transmitido na nossa família, de pais para filhos ou de tios a sobrinhos...
Respirou fundo e fez um gesto de chamamento.
— Aproximai-vos mais, por favor. O que tenho a dizer-vos é segredo, absoluto segredo. Só pode ficar entre nós dois...
E espiando ainda em redor, atentamente, para se convencer de que estavam sozinhos, El Haturra fez a grande revelação.
— Ouvi bem, Álvaro... Quando esta vara, velha e ressequida pelo tempo, conseguir reverdecer é sinal sagrado do almejado encontro de dois primos descendentes de Cid Alafum… Compreendeis agora porque eu nunca deixo esta varinha, meu bom Álvaro?
Este mostrou-se um pouco aturdido. E no seu rosto espelhou-se a dúvida que se lhe formava no espírito.
El Haturra decidiu portanto ser mais explícito.
— Como sabeis, quando Cid Alafum perdeu a batalha, todos os seus tesouros ficaram escondidos por artes mágicas… E com eles as lindas sarracenas que se ouvem por aí, de noite, encantadas, carpindo as suas mágoas...
Um brilho mais vivo passou no seu olhar.
— Porém, no dia em que nestas terras se encontrarem, face a face, um descendente e uma descendente de Cid Alafum...
— Que acontecerá? — perguntou o moço Álvaro, sem poder conter a sua curiosidade.
El Haturra respondeu no mesmo tom calmo de sempre:
— Acontecerá que todo o antigo senhorio destas terras voltará a pertencer-nos... as belas mouras serão desencantadas... e a alegria tornará a substituir a tristeza nos seus corações!
Cordialmente, o moço Álvaro pousou a sua mão forte no ombro de El Haturra.
— E achais... que esse encontro virá a dar-se?
El Haturra elevou os olhos para o alto.
— Estou certo de que sim. Mas já não sei se será no meu tempo... sinto-me velho e cansado...
E baixando a voz, de novo em tom confidencial, ajuntou:
— Além disso, é preciso que os dois primos que se encontrem professem ambos a lei de Mafamede.
— Porquê a de Mafamede?
— Porque é a mais completa em sortilégios!
Álvaro nada mais disse. E, agora em silêncio, os dois homens continuaram o seu passeio.

E muitos outros passeios deram pelos campos fora, falando sobre o mesmo assunto, comentando-o cada um deles à sua maneira...
Até que, em certa linda tarde de Primavera, quando juntos deambulavam nas margens do rio Vouga, viram descer de um dos montes vizinhos uma princesa jovem e esbelta montando um ginete branco. A seu lado cavalgava uma formosíssima aia, montada num cavalo negro. 
O velho El Haturra e o seu companheiro quedaram-se encantados com tão magnífico quadro vivo, na moldura da natureza enebriante. E a princesa e a aia mais belas se mostravam à medida que se aproximavam.
Especialmente a aia apresentava um curioso e estranho contraste entre os seus olhos azuis e a sua trança muito negra...
De súbito, Álvaro agarrou com força o braço de El Haturra e apontou a vara que o outro segurava.
— Vede! Olhai! O vosso bordão está a reverdecer!
E a voz de El Haturra, como que remoçada, confirmou também:
— É verdade... Cumpre-se a profecia do grande Cid Alafum! Acreditais agora?
— Decerto que sim!
Mas já o próprio Álvaro se assombrava mais ainda diante da profunda e inesperada transformação de El Haturra. Desaparecera o velho por completo. O corpo endireitara-se, os ombros tinham alargado, as rugas do rosto sumiram-se, os olhos ganharam novo brilho, o cabelo voltou a ser negro e farto. El Haturra era agora um jovem como ele!
E Álvaro, intrigado, confuso, mal pôde articular uma exclamação de surpresa.
— É fantástico!... Estais jovem e belo!
El Haturra soltou uma risada fresca.
— Ainda bem que testemunhastes tudo quanto se passou, meu bom Álvaro. Assim não tendes mais que duvidar...
A voz de Álvaro balbuciou uma pergunta a medo, demorada e hesitante:
— Quer então dizer... que... nas antigas terras de Cid Alafum... se encontraram dois descendentes seus?...
— É isso mesmo, Álvaro!... No instante em que a olhei, senti logo dentro de mim que algo iria passar-se.
— Referis-vos à princesa, El Haturra?
O agora jovem mouro abanou a cabeça num decidido gesto de negação.
— Não, meu amigo! Falo-vos da aia. A bela aia de cabelos soltos e que montava o cavalo negro... Essa, sim!... Tenho a certeza que é essa que eu encontrei… Ainda oiço a música da sua presença dentro de mim!...
Desde esse dia, não mais El Haturra teve sossego. E o moço Álvaro também não, já que desejava acompanhá-lo na sua aventura. Seguindo no encalço das duas jovens, acabaram por saber que se dirigiam à corte do rei de Portugal. E eles lançaram-se também no mesmo caminho...
Conta a história velhinha que depressa o novo El Haturra conseguiu que a bela aia correspondesse ao seu amor. Tudo os atraía, como se esse encontro estivesse, de facto, marcado pelo Destino...
E, graças à influência de Álvaro e da sua família, fácil foi alcançar também a permissão do rei de Portugal para que o casamento se realizasse o mais rapidamente possível.
Simplesmente, o rei impôs uma condição. Condição essa que a jovem e bela aia se apressou a transmitir ao enamorado El Haturra, pedindo-lhe que viesse falar com ela.
Ele não se fez esperar.
— Aqui estou, minha bem-amada… Passa-se algo de grave?
— Um tanto, sim, meu senhor… Trata-se do nosso futuro.
Os nervos de El Haturra puseram-se em alerta. Desconfiados. Excitados.
— Mas que há? Dizei depressa! Bem sabeis como vos amo... El-rei voltou atrás com a sua palavra?
Ela sorriu, a acalmá-lo.
— Que ideia, meu senhor!... Bem sabeis que palavra de rei não volta atrás...
E inclinando-se para ele, confidenciou-lhe:
— Sim, el-rei consente na nossa união, e até me prometeu como presente de noivado o senhorio destas terras... Porém, impõe uma condição.
De novo, os nervos de El Haturra se alteraram.
— Uma condição? Qual?
O sorriso da bela aia tornou-se ainda mais doce.
— Apenas isto, meu bem: el-rei de Portugal quer que vos baptizeis! 
A reacção foi imediata e violenta.
— Quê? Baptizar-me, eu? Eu que sou um mouro… um descendente do grande Cid Alafum?...
Ela tentou envolvê-lo com a sua sedução.
— Por isso mesmo, meu senhor! El-rei deseja que sejais um dos nossos.
Ainda desta vez El Haturra se refugiou na sua obstinada recusa.
— El-rei pede-me o impossível!
Foi a vez dela se mostrar retraída. Magoada. Chorosa.
— Não aceitais?
Sem a olhar sequer, como que falando consigo próprio, o mouro repetiu monocordicamente.
— Não aceito... Não aceito...
E a donzela, aproximando-se mais, falou-lhe num misto de ternura amimada e de aflita emoção:
— Pensai bem, meu senhor!... Se consentirdes em ser baptizado, el-rei dar-vos-á todas as terras dos vossos antepassados e eu poderei ser a vossa esposa fiel e dedicada... Que mais quereis, meu senhor?
Ele segurou-lhe as mãos. Longamente. Apaixonadamente.
— Amo-vos tanto, senhora... E el-rei pede-me tanto também!
A jovem e bela aia arriscou então uma pergunta decisiva.
— Valerá mais a vossa fé do que o vosso amor?
E logo El Haturra respondeu, como ela esperava que ele respondesse:
— Não, mil vezes não!... Sem vós, eu não serei nada! Só desejo na vida possuir o vosso amor!
— Pois ele vos dará igualmente todas estas terras... Aceitais?
Sem olhar mais para o passado, voltado apenas para o futuro, El Haturra respondeu:
— Aceito!... Aceito, sim, meu amor!
Tudo se aprontou, portanto, para o casamento de El Haturra com jovem e bela aia. Porém, antes da cerimónia nupcial, conforme estava combinado, houve que proceder ao baptismo do noivo. E pela força das circunstâncias este viu-se obrigado a deixar a caninha verde fora da igreja...
Então aconteceu algo de extraordinário. Ao ser baptizado, El Haturra instantaneamente deixou de ser o moço forte e garboso em que se tornara, para se transformar de novo no velho alquebrado e feio que já fora. Conforme fora transmitido de geração em geração, a magia da caninha verde só se realizava se os dois parentes de Cid Alfum obedecessem à lei de Mafamede!
 
Segundo se diz, a noiva desmaiou de comoção. Quando recobrou os sentidos fugiu para o palácio — e não mais quis ouvir falar do seu estranho noivado.
Por seu turno, El Haturra desapareceu também para sempre. Não se voltou a falar dele. Mas a caninha verde foi arrecadada e guardada em sítio secreto, para nunca mais ser descoberta.
Contudo, reza a tradição popular, se na mesma hora e no mesmo local de Fataunços em que se deu o encontro entre os dois descendentes do grande Cid Alafum alguém gritar três vezes: «Viva o fidalgo da caninha verde!» (como o povo ficou a chamar-lhe), logo se escutam pelos montes vizinhos gargalhadas argentinas, seguidas do sussurrar plangente das águas do rio Vouga. Para o bom povo da região trata-se da alegria das mouras encantadas que se julgan libertadas do seu cativeiro, e logo compreendem que tudo continua na mesma..."
Fonte Biblio: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 143-148, in Arquivo Português de Lendas.

quarta-feira, agosto 20, 2014

Histórias que por cá se contam-III: lenda da Santa Combinha

"A imagem de Santa Combinha apareceu no meio de um monte, num sítio designado por “ladeira da Santa”.
 Muito em segredo, algumas pessoas de Cambra ali iam e carregavam com a imagem para a Igreja. Depois de várias tentativas, foram baldados todos os esforços para levarem até ao fim os seus intentos.
 Mal a colocavam no altar, fugia novamente para o lugar onde aparecera. Por isso, foi necessário construir-lhe a capela naquele lugar, de modo a que ali ficasse para sempre.
 Naturalmente que o povo assim o quis e religiosamente lhe construiu a capela.
 É daquele mirante de paisagem extraordinária que SANTA COMBINHA, - protectora das ovelhas, - recebe no seu seio os suplicantes devotos. No dia 20 de Julho, fazem-lhe a festa, que é muito concorrida por forasteiros que vêm de todos os lados.
 É da tradição que nesse dia da festa, os lavradores com mais bem estar económico abrissem as portas das suas adegas a amigos e conhecidos, contribuindo assim para aumentar a alegria dos forasteiros".
Fonte Biblio CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.25. Imagem retirada daqui.

terça-feira, agosto 12, 2014

Histórias que por cá se contam-II: Lendas populares de Figueiredo das Donas

Foto retirada daqui
"Segundo relatos populares, existia no antigo Paço de Figueiredo das Donas, um Pombal.
Junto a esse pombal, há um grande monte de pedras, onde se julga que no meio existe uma, com a forma de cabeça de cavalo que, segundo crença antiga, localizaria o tesouro dos Mouros.
Também é dito que o corpo do cavalo já foi visto, e os crentes em patranhas acreditam que o tesouro está sujeito a um encanto. Encanto esse, que fará desaparecer o tesouro no momento em que for descoberto: - visto já terem encontrado um cálice de ouro e que na altura em que iam para lhe pegar,... a terra engoliu-o!..."
Fonte Biblio: CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.26
 ___________
"Uma outra lenda que o povo tem transmitido através de muitas gerações, é a seguinte:
Há uma pia de pedra que se encontra nas redondezas do paço e perto da estrada romana que então ali passava, pia essa que tem o nome de “bica do Fuzeiro”, tendo sido ali que começou a desenrolar-se o facto histórico, que deu o nome à freguesia. Foi neste lugar, que o cavaleiro Guesto Ansures encontrou o pai de Mécia, ficando a saber, a partir deste momento, onde se encontrava a sua amada".
Fonte Biblio CRUZ, Julio Lendas Lafonenses Vouzela, AVIZ / Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela / ADRL, 1998 , p.26

sexta-feira, agosto 01, 2014

Histórias que por cá se contam

Deve ser por este chão de granito que nos queima no verão e gela no inverno. Ou, talvez, pela pequenez que sentimos perante a imensidão dos horizontes,  pelo contraste das cores e dos humores das águas nas diversas estações. Deve ser por tudo isso que a memória do que por cá houve nunca se ficou pelas meias tintas. Amor ou ódio, comédia ou tragédia, tudo ou nada. Sentimentos sinceros, mas extremos, que vão muito para além do entendimento da razão. É então que entra a lenda. E elas não faltam por estas terras de santos e pecadores, heróis e mártires. Os gregos usavam-nas para ensinar as virtudes aos seus jovens e adverti-los para as misérias. Desde sempre, passaram de geração em geração, numa tentativa de explicar o inexplicável. Seja como for, as lendas, esse misto de realidade e ficção, refletem o modo como um povo se relacionou com o seu meio, com os seus medos, com os seus desejos. Aí ficam as nossas. Heróis, moiras encantadas, tesouros escondidos, milagres e lobisomens, aí se apresentam.  Apenas acessíveis a corações puros e imaginações largas.

Na última tertúlia organizada pela Associação D. Duarte de Almeida e pelo Agrupamento de Escolas de Vouzela, foi salientada a importância de se fazer uma recolha das lendas locais, usando-as para melhor dar a conhecer os diversos cantos do concelho. Com as oito publicações que se seguem, iniciamos o nosso modesto contributo. Já de seguida, publicamos a conhecida lenda do Tributo das Donzelas, associada a Figueiredo das Donas e, posteriormente, iremos publicar a referência a duas outras dessa localidade (Lendas Populares de Figueiredo das Donas). Seguem-se a lenda da Santa Combinha, a da Caninha Verde, a de Santo Estêvão, a da Cova do Lobisomem, a da aparição de Nossa Senhora dos Milagres e, por último, Queiran (escrita assim mesmo e que se refere a Igarei). Em cada publicação serão indicadas as fontes usadas. No entanto, deixamos já duas referências: a excelente coletânea disponibilizada pelo Arquivo Português de Lendas e o trabalho de recolha realizado, há uns anos, pelo Clube de Ambiente e Património da Escola Secundária de Vouzela e pela ADRL.

Tributo das Donzelas


"Contam todos os nossos historiadores que o que deu a esta freguezia o sobrenome (das Donas) foi o facto seguinte.
Mauregato, filho de D. Affonso, o catholico, e d’uma escrava, pretendeu usurpar (como usurpou) o throno a seu sobrinho, D. Afonso, filho de D. Fruela, e para isto pediu e obteve o auxilio das tropas do kalifa de Córdova, Abd-el-Raman, em 783, mediante o vergonhoso tributo de 100 donzellas lusitanas, para os harens mouriscos.
Em 784, Orélia e mais 5 companheiras, d’estes sitios, foram escolhidas pelos caçadores do usurpador, para fazerem parte do tributo d’esse anno. Hiam ellas passando por Figueiredo, acompanhadas e guardadas por 20 mouros e 40 castelhanos, todos de cavallaria, álem dos guardas de pé.
Um nobre cavalleiro lusitano, de sangue gôdo, natural de Lafões, chamado D. Guesto Ansur, era namorado de Orelia, que lhe mandou dizer a desgraça que lhe acontecera e pedir-lhe que a salvasse.
D. Guesto junta á pressa uns trinta homens de Lafões e com elles cahe inopinadamente sobre a escolta que conduzia as donzellas a Merida, quando ella passava a Figueiredo. O furor de D. Guesto e dos seus era tal, que os mouros e castelhanos morreram quasi todos no combate. As damas foram libertadas, e D. Guesto as levou para o seu castello e alli casou com Orelia.
(Ha tambem quem diga que este facto não occorreu aqui, mas em Figueiró dos Vinhos. Estes, quanto a mim, fundam-se sómente nos primeiros dois versos da poesia de D. Guesto, que em muitos escripmres veem assim – «No figueyrol de figueyredo – A no figueyrol entrei.»)
No maior furor da peleja, tinha quebrado a espada D. Guesto; mas este estroncando um grosso ramo d’uma figueira, continuou com elle a esmagar os inimigos.
Por esta façanha, D. Bermudo 1.º deu, em 789,  a D. Guesto Ansur o appellido de Fígueiredo (outros ditem, de Figueirôa) e por armas um ramo de figueira.
Depois, na reforma dos brazões, em logar do ramo, foram 5 folhas de figueira, que ainda hoje são as armas dos Figueirôas.
O mesmo rei determinou que ao logar da peleja te chamasse d’ahi em diante Fígueiredo das Donas.
Dizem outros escriptores que estes appelidos e estas armas, foram dadas por D. Ramiro 1.º em 848, mas é mais provavel que fosse D. Bermudo 1.º porque é de suppor que D. Ansur já não existisse 64 annos depois d’este facto, e mesmo porque o rei não demoraria tanto tempo um premio que nada lhe custava.
Os gallegos dizem que um facto semelhante aconteceu junto a Mondonhêdo, por esse tempo, com um cavalleiro da Galliza, que tambem com uma pernada de figueira matou os guardas que escoltavam algumas donzellas d’aquelle reino, destinadas ao infame tributo, resgatando-as. Outros escriptores gallegos e castelhanos dizem que o tal cavalleiro que obrou esta façanha tinha por appellido Figueirôa já antes a d’ella, e que é por esse motivo e não por ter combatido armado do ramo de figueira, que aos seus descendentes se conserva o appellido de Figueirôas.
O que é certissimo é que todos os escriptores de boa nota contam o facto e a origem do appellido e das armas, como primeiro relatei – que em Hespanha ha tambem o appellido de Figueirôa, – e que, nem só em Figueiredo das Donas e Mondonhêdo, mas em varias terras das Hespanhas, o povo por varias vezes sahiu ás escoltas que levavam as donzellas do tributo, e as libertaram, com mais ou menos derramamento de sangue.
Este infamante tributo só durou 6 annos, porque, tendo morrido o usurpador Mauregato, em 789, e subindo ao throno D. Bermudo I, só n’esse anno pagou o tributo, porque atacando as tropas do kalifa Abd-el-Raman, junto de Aledo, as derrotou, e livrou os christãos de tão humilhante tributo".
Fonte Biblio: PINHO LEAL, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Portugal Antigo e Moderno Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873] , p.Tomo III, pp. 193-194, in Arquivo Português de Lendas.
___________

Relacionada com esta lenda, existe a "canção do figueiral", datada do século XIII e cuja letra apresentamos de seguida (a adaptação musical feita por Luís Cília e incluída no album de 1974, "O Guerrilheiro", pode ser ouvida aqui):

No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei,
Seis niñas encontrara
Seis niñas encontrei.
Para ellas andara,
Para ellas andei,
Lhorando las achara
Lhorando las achei
Logo las pescudara
Logo las pescudei.
Quem las maltratara
Y a tão mala ley?
No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei.

Uma repricara:
"Infançom nom sey,
Mal houvesse a terra
Que teme o mal rey
S'eu las armas usara
Y a mim fee nom sey
Se hombre a mim levara
De tão mala ley.
A Deus vos vayades,
Garçom, cá nom sey
Se onde me falades
Mais vos falarey;"
No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei.

Eu lhe repricara:
"A mim fee nom irey
Cá nos olhos dessa cara
Caro los comprarey;
A las longas terras
Entraz vós me irey,
Las compridas vias
Eu las andarey,
Lingoa de aravias
Eu las falarey,
Mouros se me visse
Eu los matarey".
No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei.

Mouro que los goarda
Cerca lo achey
Mal la ameaçara
Eu mal me anogey,
Trocom desgalhara
Todolos machuquey,
Las niñas furtara,
Las niñas furtey.
Lá que a mim falara
N'alma la chantey.
No figueiral figueiredo
A no figueiral entrei.

segunda-feira, julho 21, 2014

Indicadores de gestão de municípios, áreas metropolitanas e comunidades intermunicipais


Estão no Portal de Transparência Municipal e podem ter algum interesse, sobretudo através da comparação de dados entre municípios. Aqui fica para consulta.

segunda-feira, abril 07, 2014

My name is John e vivo em Real das Donas

Vouzela, Quinta de Cima, Caritel.

Foi durante a tertúlia sobre turismo, organizada pela Associação D. Duarte de Almeida e pelo Agrupamento de Escolas de Vouzela. Cenário: a Casa Museu, ali na Praça Morais Carvalho, passava das nove da noite. António Liz Dias tinha acabado de iniciar a sessão com um conjunto de ideias, daquelas que mostram como é fácil abrir portas que pensamos irremediavelmente fechadas . Passou a palavra. No meio da sala levantou-se uma figura imponente, cabelo branco, que se apresentou com sotaque acentuado: "My name is John e vivo em Real das Donas". E em tudo o que disse, tudo ficou dito. Um verdadeiro programa.

Mr. John, cidadão britânico, escolheu o concelho de Vouzela para viver. Porquê? Foi isso mesmo que ali foi explicar, alargando o âmbito: que é que pode levar alguém, depois de uma vida de trabalho,  a sair de Inglaterra para vir residir neste concelho? Gente com algum dinheiro, a querer saborear até à última gota uma energia que ainda tem e que a rotina do trabalho limitou, mas com a segurança necessária para quem sabe aproximarem-se aqueles anos em que a jovialidade do espírito pode não encontrar resposta à altura nas limitações do corpo.

E Mr. John explicou. Falou do poder de compra, da facilidade de acesso, da existência de serviços de saúde, da simpatia das gentes e, apesar de tudo, do clima. Também elogiou a gastronomia, embora inglês prefira peixe, o que remete para segundo plano este trunfo que gostamos de usar na conquista dos corações dos visitantes. Mas, logo de seguida, avançou com a palavra-chave: "pitoresco". Isso mesmo. O que o turista britânico aqui vem procurar, é precisamente o mesmo que sempre foi elogiado por quem nos visita, descrito desde Ramalho Ortigão a Ferreira de Castro e que, por vezes, parece que só os locais desvalorizam: a paisagem rural, a ligação perfeita entre homem e natureza, com toda a riqueza de cores, de sons, de silêncios. Procuram a variedade que ainda existe na nossa floresta (cuidado com o eucalipto e a monocultura!), o verde vivo das videiras, os socalcos, os muros de pedra, as habitações tradicionais, "o marulho doce das águas", a imponência dos horizontes marcados pelas serras. Procuram, sobretudo, o usufruto de tudo isto. Querem mexer na terra, refrescar-se nas águas, passear pela calma dos bosques, sentir a lentidão do tempo, ouvir histórias antigas, conviver com as gentes. Numa palavra, querem sentir-se em casa.

Quando, em 1978, foi lançada a experiência do Turismo em Espaço Rural (TER), Vouzela foi um dos polos escolhidos, conjuntamente com Ponte de Lima, Castelo de Vide e Vila Viçosa. Não foi por acaso. Considerou-se existir, aqui, o "cenário" desejável à experiência. Ainda existe. Mas... precisa de cuidados. Vouzela tem um número muito baixo de pessoas empregadas no setor primário, tem excessivas "feridas de desleixo" na sua paisagem, tem preocupantes sinais de que, alguns, gostariam que ela fosse outra coisa qualquer. Mas não é "outra coisa qualquer" que procuram os que nos visitam. É tão somente o que somos e temos, aquilo com que a "Mãe Natureza" nos brindou e de que os nossos antepassados cuidaram. Nada de novo. Recordem-se os projetos turísticos que foram idealizados nos idos de 70, de 60, de 50... Recuem até aos finais dos anos 20, quando Vouzela pediu a certificação com "estância de turismo" e vejam o que era privilegiado na divulgação feita pela Comissão de Iniciativa. Sim, sempre por aqui houve quem soubesse que trunfos temos para jogar. Com todas as deficiências e hesitações, hoje temos mais: temos a população mais escolarizada que alguma vez tivemos, grande ajuda para que o "estrangeiro" se sinta em casa. Assim lhe saibam dar uso.

Naquela noite de 28 de março muito mais houve para contar e registar: o saber de experiência feito da  anfitriã, Celeste Carvalho; a confiança no futuro de vários investidores; a tenacidade e o excelente trabalho do único produtor de vinho de Lafões, António Costa; a vontade da nova equipa de vereadores em dialogar e mostrar serviço. De tudo isso deu conta o "Notícias de Vouzela". Pela nossa parte, quisemos dar todo o protagonismo a Mr. John. O homem que nos veio mostrar, com clareza, aquilo que sempre esteve à frente dos nossos olhos e que, talvez por isso, nem sempre temos facilidade em ver. Thank you, Mr. John.

terça-feira, março 18, 2014

Turismo: que fazer?

Já faz parte do calendário: na última sexta feira de cada mês, a Associação D. Duarte de Almeida e o Agrupamento de Escolas de Vouzela propoem um tema de reflexão aos vouzelenses. O próximo é sobre o turismo, esse objetivo que sempre tivemos no horizonte dos nossos desejos, mas que, por um motivo ou por outro, nunca alcançamos satisfatoriamente. Que fazer? É isso mesmo que nos propomos debater no próximo dia 28 de março, pelas 20.30 horas, no ambiente acolhedor (e inspirador) da Casa Museu. A não perder.

domingo, fevereiro 23, 2014

Água de fevereiro, enche o celeiro

 Doisneau

"Vale mais no rebanho ter um lobo, que mês de fevereiro formoso".

São curiosos, os ditados populares. Criados num tempo de grande dependência dos homens em relação às atividades do setor primário, registavam observações de muitos anos sobre as consequências dos ditames de uma natureza de que dependiam em absoluto, transmitindo esse conhecimento e alertando para a diferença entre o parecer e o ser. Hoje, perdeu-se muito desta memória e da natureza quase só nos lembramos quando nos entra pela casa dentro em avalanches de imagens aterradoras, normalmente pondo a nu a ignorância dos homens.

Mas, apetece-nos recorrer aos ditados populares para algo mais do que prever como irá ser o ano agrícola. É que, bem sabemos não necessitarmos de chuvas e ventos fortes para sentirmos que o temporal desaba sobre nós. E Fevereiro aí esteve, feio como os trovões, a inundar-nos de água e más notícias. Desta vez foi a confirmação do encerramento do tribunal, transformado numa coisa que não se sabe muito bem o que seja. Nada de totalmente inesperado, mas uma machadada mais na nossa já debilitada autoestima.

Tal como todo o interior, Vouzela está a ser vítima duma estratégia nacional de concentração de serviços que não tem a mínima preocupação com o equilíbrio do território, nem com a qualidade de vida das pessoas. O objetivo é uma redução de custos imediata em recursos humanos e materiais,  que nos vai custar bem caro a médio prazo, tal o despovoamento que provoca em vastas zonas do país, inevitavelmente condenadas ao desaproveitamento. Mas, é o que temos. No entanto, também nos parece ser tempo de perceber que nada ganhamos com a atitude defensiva a que nos temos remetido, mortos de medo pelo passo seguinte que antecipamos, a que respondemos com indignação e lamentos impotentes. Atacam-nos porque somos fracos, porque temos pouco peso eleitoral, porque somos insignificantes na coleta de impostos- sim, o lobo está dentro do rebanho, fevereiro está a ser horrível mas o importante é que daqui saiam boas "colheitas" futuras.

Em primeiro lugar, é preciso avaliar a verdadeira dimensão do problema e, mais uma vez, as lições do passado dão uma ajuda. Em 1927, Vouzela perdeu a sua comarca. A medida foi sentida como uma humilhação, provocou tomadas de posição firmes, mas também marcou o ponto de partida para um dos mais dinâmicos períodos da história local do século passado: iniciou-se o processo de eletrificação da vila, pediu-se a classificação como "estância de turismo" e organizou-se a famosa Comissão de Iniciativa. Para tudo isto houve uma união de vontades e forças, colocando lado a lado gente de orientações políticas muito diferentes (as polémicas da I República estavam, ainda, muito presentes), mas que percebeu que a causa local era transversal a todas elas.

Em 1973 viveu-se a parte final desta história: Vouzela recuperou a comarca. Motivo de grande contentamento e orgulho... não impediu o agravamento de uma crise que, embora com intervalos de esperança, continuou até aos dias de hoje.

Entendamo-nos: não queremos desvalorizar a importância dos ataques que nos estão a fazer. Queremos, isso sim, saber o que estamos dispostos a fazer para deixarmos de andar a reboque das situações e conquistarmos a liderança das reformas locais. Dito por outras palavras, Vouzela  precisa saber qual a margem de autonomia que lhe resta. Que medidas pode tomar para conter o despovoamento, para reabilitar setores de atividade, para potenciar os seus pontos fortes e, desse modo, conseguir algum resguardo para a avalanche de más notícias da atual estratégia nacional. Limitar a emigração pressupõe a criação de empregos e estes exigem uma definição clara das atividades que se querem desenvolver. Isto, porque não podemos ter "sol na eira e chuva no nabal". Não faz sentido lamentarmo-nos da pouca divulgação do que de melhor temos e não sermos, nós próprios, os primeiros divulgadores em todas as nossas atividades. Não podemos dar rédea solta a construções que descaracterizem os espaços e, ao mesmo tempo, querer manter a tal harmonia entre património natural e edificado que todos elogiam. Não podemos assistir, indiferentes, ao abandono do cultivo da vinha e querer manter a "acentuada beleza policromática" de que falava Amorim Girão. Não podemos encolher os ombros perante o excessivo abandono da agricultura (de todo o setor primário!) e continuar com as características rurais que desenharam a tal paisagem que os estudos apontam como o nosso grande trunfo.  Se Vouzela permanece, hoje, como a mais harmoniosa das três sedes de concelho, isso apenas se deve ao facto de não ter entrado no desvario da construção e não porque haja uma qualquer "lei divina" que nos garanta a beleza eterna. Manter essas características e conciliá-las com o desejado desenvolvimento, parece-nos ser, pois, o desafio que temos que vencer, porque uma coisa não é possível sem a outra.

Também diz o povo que "água em fevereiro, enche o celeiro". Ora, água não tem faltado, tal como más notícias. Dar-lhes algum sentido, transformá-las em algo de produtivo só depende de todos nós. Se assim for, é certo e sabido que "em fevereiro chuva, em agosto uva".

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

E a imagem do nosso município?

Há um lado imediato que surge à vista, a imagem. Desde a pessoal, à das empresas e de todo o tipo de organismos públicos e privados.

Não há qualquer dúvida que hoje em dia a imagem conta. Muito e cada vez mais. O aspeto visual que se transmite, marca, não fossemos nós seres tão visuais. À nossa volta há um constante estímulo. A imagem de divulgação, mais publicitária, pretende sempre um arregalar do olhar.

Mas, e a imagem das nossas terras? Ela existe? Há uma imagem/símbolo que represente os nossos municípios? Claro que sim, todos saberão disso. Além dos brasões, há algum tempo que os municípios  desenvolvem imagens que os representam, logótipos  (e perdoem-me os entendidos se estiver a utilizar terminologia errada, pois não sou especialista nestas matérias, apenas um curioso).
  
A imagem que represente um município deve ser alvo de preocupação. O design deve ser levado com seriedade. E esta é uma discussão que surge aqui e aqui, e deverá surgir em muitos outros locais, bastará pesquisar.

Neste ponto surge a minha reflexão sobre o logótipo do município de Vouzela. Na sua elaboração está patente que não existiu qualquer preocupação com o design, não tem qualquer sentido estético. É um conjunto de "coisas". Até podem significar algo e significam, mas não como um todo, não com esta imagem. Para um concelho que pretende "marcar a diferença" não é de todo um bom marketing

Para se conseguir esse bom marketing será necessário algo completamente diferente da imagem que já existe. Encontrar um novo "símbolo" é necessário, podendo ser por concurso aberto a todos, para que também profissionais possam participar. E a imagem final deverá ser reflexo de uma seleção rigorosa para se conseguir algo sério, profissional, interessante e criativo. Em suma, uma melhor "imagem-símbolo" do município. A mim parece-me que a que já existe reflecte algum desmazelo e confusão. É muito pouco ou mesmo nada interessante e dá ideia de muito "amadorismo". É essa a imagem que o município quer transmitir? Nós queremos essa imagem da nossa terra?

Aproveitando uma maré que se quer de mudança, exigindo-se que neste 2014 se cresça para melhor, que tal repensar e discutir seriamente sobre a imagem da autarquia? A imagem de uma autarquia quer-se séria, robusta e profissional. Havendo sempre espaço para a criatividade. Conseguiremos sintetizar numa imagem de marca a "alma" da nossa terra? Porque é disso que se trata, conseguir uma imagem que reflita a alma de Vouzela. De todo o concelho.

quarta-feira, janeiro 08, 2014

IV Cinclus- Festival de Imagem de Natureza de Vouzela


Notem o pormenor: Festival de Imagem de Natureza DE Vouzela. Isso mesmo. Vai na sua quarta edição e, durante dois dias, traz ao nosso convívio alguns dos maiores nomes da fotografia da Natureza. Já o quiseram "desviar" para outras paragens, mas é... "de Vouzela". E Vouzela só tem que agradecer e tudo fazer para que possa continuar a chamar-lhe "seu", até porque nada do que diga respeito à Natureza nos pode ser indiferente. Para começar, reconheçamos o esforço, o entusiasmo e a competência do seu dinamizador: chama-se João Cosme, é fotógrafo da Natureza e... é de Vouzela. Vai ser nos próximos dias 25 e 26 de Janeiro.

segunda-feira, novembro 11, 2013

Rua Conselheiro Morais de Carvalho

1950's


Colecção Passaporte "LOTY"

terça-feira, novembro 05, 2013

Temos um comboio para apanhar

O dia da inauguração. Foto gentilmente cedida pelo Augusto Rodrigues

Novembro de 1913. À incerteza da obra tinha sucedido a esperança e o espanto. Centenas de operários e engenhos nunca antes vistos, ergueram um viaduto com os seus dezasseis arcos de pedra que muitos apostavam não conseguir resistir. Finalmente, o comboio ia chegar. Todos quantos alguma vez o viram, podem imaginá-lo a entrar na ponte, lançando aos ares o seu apito de aviso de aproximação, ampliado pela dimensão do vale e do silêncio. Do outro lado, junto à estação, o povo apinhado, olhando, admirado e incrédulo, aquela massa de ferro preto que avançava com um som cadenciado por entre nuvens de fumo branco. Finalmente,  o comboio chegou.

Vouzela sempre foi local de "encontros e despedidas". Desde que os romanos lhe toparam a orografia e alargaram e empedraram estradas, a sua história ficou indissociavelmente ligada a vias de comunicação. Para o bem e para o mal. A linha do caminho de ferro do Vale do Vouga foi uma delas e a chegada do comboio naquele dia de 1913, marcou o início duma revolução nos afazeres e nos hábitos, imagem de marca  do último período de desenvolvimento que por estas terras houve. 

Hermínio Dias, no texto que redigiu para o cinquentenário da linha, descreveu os primeiros tempos com o poder de síntese do grande fotógrafo que era: "Festas, foguetes, contentamentos, encorajamentos para viagens a Espinho (...)". Encorajamento, sim, que isso de entregar a vida a um amontoado de parafusos a que não se podia puxar rédeas, nem obedecia a voz de comando, era aventura arriscada para quem, naqueles tempos, estava mais habituado a confiar nos músculos do que na técnica.

Mas da novidade passou-se à oportunidade e desta à rotina. Aos poucos, Vouzela foi-se familiarizando com uma nova categoria de gente composta por fatores, fogueiros, revisores, guarda freios, carregadores... e esse símbolo de autoridade, respeitado e invejado, o chefe da estação. Aos poucos, foi-se habituando à mistura com os operários da Serração- que, entretanto, tinha procurado a proximidade ao comboio- e das muitas partidas e chegadas, como a da comitiva de António Ferro que, em 1930, ainda antes de dirigir o Secretariado Nacional da Propaganda, usou o caminho de ferro para vir apresentar as entranhas do país aos jornalistas da capital e acabou no Castelo a admirar as vistas, extasiado, enquanto matava a sede com taças de Lafões fresquinho- parece que estava um calor dos diabos. Chegavam estudantes aos fins-de-semana, chegavam jornais ao fim da tarde, chegava gente diferente no verão que, mal descia o último degrau e punha os pés na terra, esticava as costas e enchia o peito de ar, o tal bem puro que por cá a trazia em estadias mais ou menos prolongadas numa das unidades hoteleiras da vila. O Mira Vouga era logo ali, depois da ponte, a caminho do São Sebastião. O comboio marcava o ritmo e os humores. Até os amores, porque o "vou ali ver chegar o comboio" era desculpa aceite e pretexto válido para passeios de namorados e os arcos da ponte sempre foram pilares seguros para as toneladas de ferro e de afetos.

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". Num tarda nada já eram mais as partidas do que as chegadas e os risos dos encontros não chegavam para fazer esquecer as lágrimas das despedidas. Brasil, África, mais tarde França e Alemanha "porque aqui não dá e é preciso fazer pela vida". Ou enganar a morte... E o soldado lá escolhia partir, bem cedo, sozinho, gola do capote levantada para que não se percebesse que, afinal, um homem também chora. Ao comboio descobria-se o desconforto dos bancos, a lentidão da marcha, o lado do negro do fumo. Provocava fogos, diziam- graças a Deus que de então para cá nunca mais tal coisa  vimos! O futuro estava nas quatro rodas, de preferência individuais e nessas mortalhas de alcatrão negro que nos levavam à porta e haviam de cobrir o país. Recusaram-se propostas de modernização e ignoraram-se sugestões de aproveitamento turístico. Em 27 de Dezembro de 1983, cobriram-no com coroas de flores e bandeiras e chamaram-lhe "Histórico", porque não se diz mal dum defunto. Pela última vez, o seu apito ecoou ao entrar na ponte, ampliado pela dimensão do vale e do silêncio das gentes que lhe prestavam a última homenagem, suspeitando estarem a enterrar muito mais do que aquela massa de ferro que se despedia por entre nuvens de fumo branco.

Mas os senhores deste mundo, não conhecem a ironia corrosiva do beirão. Vamos ouvindo as notícias sobre a crise do petróleo e os insuportáveis custos da energia e, então, fecho os olhos e imagino-me na sala de jantar da saudosa Pensão Jardim, amplas janelas abertas para o vale e para a ponte. Recordo o som cadenciado da aproximação e aquele silvo agudo que desperta e grita: "acordem, vouzelenses! Temos um comboio para apanhar".
- Texto escrito para a exposição "100 anos da chegada do comboio a Vouzela".


Ao Carlos Pereira

A exposição que a Associação D. Duarte de Almeida inaugura, neste 5 de Novembro, no Museu Municipal de Vouzela, deve muito ao investimento e ao entusiasmo do nosso colaborador, Carlos Pereira. Contactamos com ele, pela primeira vez, em 2007, numa altura em que dinamizava um blogue irónica mas certeiramente chamado "Postal de Vouzela". Já então tinha publicadas dezenas de imagens da vila, revelando um amor pela terra onde, jovem, andou a estudar. Mais tarde, decidiu integrar o grupo de colaboradores do "Pastel de Vouzela" e o resultado final é conhecido: muitas das mais de duzentas imagens da região de Lafões que publicamos, vieram da sua coleção particular. Mas um outro interesse sempre o animou que, curiosamente, ligava bem com as iniciais, "CP", com que assinava e assina os seus textos: a história da linha do Vale do Vouga. Esta exposição é o resultado desse interesse, mas também uma simples homenagem a um homem que, embora afastado da região, a sente como poucos. Obrigado, Carlos Pereira.  Vouzela precisa de amigos como tu.


segunda-feira, outubro 21, 2013

Hotel Mira Vouga


1950's


Colecção Passaporte "LOTY"

quarta-feira, setembro 25, 2013

Contra os mitos marchar, marchar!

Tempos houve em que o homem acreditou ser a Terra o centro do universo

Prometemos não interferir na campanha eleitoral e vamos cumprir. No entanto, o "calor do debate" tem dado eco a uma série de ideias feitas, de mitos, que podem provocar estragos caso alimentem a ânsia populista do voto fácil. Parece-nos, pois, necessária, uma chamada de atenção, sem referir concretamente qualquer das candidaturas, sem termos a ilusão de conseguir alterar o que quer que seja, mas deixando registo para... memória futura.

A que ideias feitas nos referimos? Fundamentalmente, a duas: zonas industriais são a solução para aumentar a oferta de emprego e promover o desenvolvimento; criar zonas de expansão na vila de Vouzela é a solução para evitar a saída de jovens. Vamos por partes.

Zonas industriais: a solução?

Limitando-nos à informação disponível na página da Câmara Municipal de Vouzela (procurar em Planeamento/Parque Empresarial) que está muito desatualizada, o que é que concluímos? Na zona industrial do Monte Cavalo, há 13 lotes desocupados em 33 possíveis. A de Campia tem 12 lotes ocupados. Sobre os últimos espaços não há informação disponível, mas lemos no Notícias de Vouzela que a de Vasconha (Queirã), vai oferecer 20 lotes e vai custar um milhão e trezentos mil euros, beneficiando de um financiamento comunitário de um milhão de euros.

Que podemos concluir de tudo isto? Num concelho com 10540 habitantes e que beneficia de excelentes vias de comunicação, esta oferta, com este nível de investimento, devia ter entusiasmado muitos jovens,  atraindo-os ou, pelo menos, impedindo a sua saída. Não entusiasmou! Se olharmos para as áreas de negócio das empresas instaladas, percebemos que se relacionam, maioritariamente, com setores que atravessam crises graves (construção), que estão muito dependentes do mercado local (reparações automóveis) ou que pouca articulação têm com outras áreas económicas da região, nomeadamente as que necessitamos de recuperar. Quer isto dizer que a oferta de emprego é limitada, quer no número, quer nas áreas, quer nas perspetivas de futuro. Claro que as empresas não têm culpa alguma. Mas a verdade é que se está a fazer um investimento significativo de modo desordenado, sem obedecer a qualquer plano estratégico para o concelho. É o preço a pagar pelo dogma de que o poder local não deve interferir no funcionamento da economia (o que, ainda por cima, é falso).

Os jovens saem de Vouzela porque não há casas disponíveis?

Mas, talvez o problema esteja na falta de habitação e centenas ou milhares de jovens não consigam encontrar uma única casa vaga na vila. Assim de memória e num rápido passeio pelas ruas de Vouzela, encontram-se casas à venda ou espaços desocupados e a exigirem intervenção urgente no Largo da Feira, na Avenida João Ramalho, na Sidónio Pais, Ayres de Gouveia (para venda e para alugar), Rua de São Frei Gil, Morais de Carvalho, várias no percurso entre esta rua e o Largo do Convento (onde também há), no bairro da Senra, Praça da República, Mousinho de Albuquerque e na Avenida João de Melo. Arriscamos dizer que não há rua na vila de Vouzela onde não apareça uma oferta para venda ou um espaço desocupado a exigir intervenção. Se quisermos alargar a pesquisa a Fataunços, Vilharigues ou até Ventosa, a oferta que encontramos entre casas, terrenos e quintas, assusta, pelo que revela sobre eventuais dificuldades financeiras dos proprietários e, sobretudo, sobre a vontade de abandonar a terra.

Claro que sempre que avançamos com esta lista, respondem-nos que a maior parte da oferta é constituída por edifícios antigos a necessitarem de obras e "é mais caro restaurar do que construir ou comprar novo". Reconheça-se que este argumento ultrapassa as fronteiras regionais e pode ser ouvido do Minho ao Algarve. Só que precisamos de pensar nos seus fundamentos, já que se limita a ser uma especificidade portuguesa, recusada por essa Europa fora onde sempre foi dada maior atenção ao restauro do que á construção. É que, talvez tenhamos que nos confrontar com mais uma triste consequência do modo como, durante anos, se deu rédea solta à especulação imobiliária, criando perversões no setor da construção. Porque, como já alguém disse, "hoje, em Portugal, é fácil amontoar tijolos. Difícil é encontrar um bom pedreiro". E nós até somos de uma região com tradições no trabalho da pedra... Queremos ou não continuar a sê-lo?

Resumindo e concluindo: se querem contribuir para a resolução dos problemas sentidos pelos vouzelenses, enfrentem os verdadeiros e não se refugiem em "mitos" e desculpas fáceis.

"Nunca devemos admitir senão aquilo que a razão nos mostra como evidentes; em caso algum podemos aceitar o que nos é imposto pela nossa imaginação ou pelos nossos sentidos. (...) Não devmos pensar que o Sol tem, de facto, o tamanho com que o vemos"
- René Descartes, Discursos do Método, 1637


quinta-feira, setembro 12, 2013

Foi você que falou em "pretensões turísticas"?


"Esta perspetiva, gostam? Há quem fale da paisagem, património, planeamento... Eu fui brindada com este acrescento paisagístico. Um mimo! Adoro o campo!"- Ângela Carvalhas no Facebook.

É um problema antigo e, por isso mesmo, ainda mais irritante: passeamos pelos locais mais interessantes, escolhemos os melhores ângulos para uma fotografia e... lá está o diabo de um fio elétrico a estragar a composição. Às vezes, até a instalação toda! Não, não somos saudosistas dos lampiões de carbureto. Apenas sabemos haver alternativas mais de acordo com as pretensões turísticas de Vouzela.

O "obelisco" que mostramos na imagem, foi colocado a norte, cortando, sem dó nem piedade,  uma belíssima mancha verde ainda ocupada por algumas quintas que, num passado não muito longínquo, constituíam parte importante da cintura agrícola da vila. Não é o caso mais chocante. Apenas é o mais recente. É verdade que se trata duma zona já bastante maltratada. Mas também o é que o objetivo não pode ser dar asas à asneira em tudo o que saia do que administrativamente foi batizado de "centro histórico". Antes pelo contrário.

Num momento em que se avança para uma eleição para a autarquia local, gostaríamos de saber quem é que, de facto, já percebeu que, mais do que defender "centros históricos", esta vila e grande parte do concelho é, no seu todo, um conjunto histórico que tem que ser cuidado e preservado nos mais pequenos pormenores. E os responsáveis locais da EDP ou da REN, ou do raio que os parta, têm que perceber isso. Para que, de uma vez por todas, as tais "pretensões turísticas" sejam mais do que palavras de circunstância.