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terça-feira, outubro 16, 2007

Turismo... pois, o turismo

Doisneau

Turismo... pois, o turismo. É a ele que se confiam todas as regiões a que se não sabe o que fazer, assim uma espécie de Senhora dos Aflitos da actividade económica. Na realidade (e com as excepções do costume), tem sido mais um pretexto para construir sem limites nem sentido. Não só em Portugal.

Assim, não admira o diagnóstico feito pela Agência Europeia do Ambiente aos estragos provocados pela actividade: excesso de urbanização, elevado consumo de água, lixo e perda da biodiversidade. Curiosamente, já em Maio deste ano, o senhor Jean-Claude Baumgarten, presidente executivo do Conselho Mundial de Viagens e Turismo, avisava durante a sua estadia em Portugal: “não façam como a Espanha, não construam demais”. Pois sim...

O nosso principal problema, o nosso principal recurso

Este tema levanta importantes áreas de reflexão que interessam- muito- a Lafões. Não temos o caos do Algarve, não somos ameaçados pela cobiça que paira sobre o litoral alentejano, mas temos sido dirigidos por gente que bem gostaria de aqui ver instalados esse caos e essa cobiça. Gente, para quem é preciso “domesticar” o território, construir tudo, desde o simples “parque de merendas” até ao parque de estacionamento em cada ponto de interesse, passando pela plataforma, aplanada, de preferência cimentada para estender a toalha. Gente que se relaciona mal com as características naturais e históricas do sítio onde vive. Este é o nosso principal problema.

Turismo é, por definição, movimento, viagem. Ora, ninguém sai do mesmo sítio se não for para conhecer coisas diferentes. Quem quer estar fechado num hotel, não precisa vir para aqui, nem vem. Optar pela região de Lafões resulta da vontade em conhecer a paisagem serrana com toda a sua riqueza e contrastes, a variedade do seu património natural e edificado, a especificidade da sua gastronomia e do seu artesanato. Tudo isto existe sem necessitar de um tostão ou de uma gota de suor dos nossos responsáveis. Mais: de acordo com todos os estudos são esses os nossos principais recursos, os que mais atraem o turista, os eixos estruturantes obrigatórios de todos os projectos.

Dos responsáveis locais apenas se deseja que saibam organizar, “evitando a decoração pela decoração”, uma rede integrada de serviços que facilite e enriqueça o contacto com o meio envolvente, tendo em conta os destinatários (o mercado). De forma discreta, respeitando as duas regras de ouro destas coisas:
1º- o principal protagonista é o meio e não o presidente da câmara, o presidente da junta, o industrial, o comerciante;
2º- a preservação do meio (a galinha dos ovos de ouro) obriga a definir limites de ocupação, ou seja, o ponto a partir do qual começa o estrago.

Assumir as especificidades da região

Infelizmente, não é isso que se tem feito. Para além das intervenções desordenadas que se têm permitido, com significativos impactos na paisagem, alguns dos empreendimentos pura e simplesmente ignoram as especificidades locais. Veja-se, por exemplo, o sítio na net das Termas de São Pedro do Sul, o nosso principal serviço turístico (aqui). Será difícil encontrar melhor exemplo de incapacidade de assumir a região em que se insere, sentindo-se, ainda, o velho tique provinciano de não querer falar em nada que saia dos estreitos limites do concelho. Por muito simpáticas que consideremos as duas “recepcionistas” da página, nada ali existe que nos revele a relação entre o empreendimento e as características naturais da sua localização. E se a ideia é apresentarem-se como alternativa a uma viagem ao Hawai... esqueçam (já agora, onde será que foram buscar a ideia dos castores?). Só por curiosidade, compare-se com a página das termas de Spa (Bélgica) e veja-se o seu álbum de fotografias (aqui).

Não é, pois, de estranhar a avaliação negativa que mereceram no “Estudo de Planeamento de Marketing para a Região de Turismo Dão Lafões”, da responsabilidade do Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo. Para sermos rigorosos (e independentemente do estilo promocional com que a Câmara Municipal de Vouzela gosta de divulgar os números), a avaliação negativa tem que se estender a toda a região de Lafões e a muitos dos que se têm debruçado sobre este assunto. Recorde-se, a este respeito, que as principais medidas propostas no estudo desenvolvido pelo Instituto de Estudos Regionais e Urbanos da Universidade de Coimbra e intitulado “Que projectos para o desenvolvimento de Lafões”, eram a “instalação de um restaurante com gastronomia regional num grande centro comercial de Lisboa ou Porto” e a abertura de um Hotel Geriátrico, devido ao envelhecimento da população. Estamos a brincar?

De facto, o envelhecimento da população europeia ( e não apenas portuguesa) pode e deve ser encarado como potencial mercado. No entanto, como já por aí escrevemos, hotéis de qualidade, entendidos como unidades isoladas, é o que não falta por essa Europa fora. O que essas pessoas podem vir procurar “é o usufruto do espaço, é a alternativa aos grandes centros urbanos, é o paradigma da diferença. Longe de se contentarem com unidades isoladas ou 'centros históricos' de delimitação duvidosa, vão procurar a vivência só possível numa região inteira, que saiba preservar e permitir o uso do seu património natural e edificado, fornecendo, ao mesmo tempo, as melhores respostas ao nível das comunicações, da saúde e da segurança. Elas vão ter idade e cultura para saberem o que querem e dinheiro para o pagar” . Será que conseguiremos resistir de modo a aproveitar a oportunidade?

domingo, outubro 07, 2007

Águas paradas

Lembraram-se de nós. Infelizmente. Fomos contemplados com uma das barragens com que o governo de Sócrates quer salvar o mundo, pelo menos o dele. Nós, os pós- socráticos, assumimo-nos cépticos, preferindo realçar que a obra é lançada sem que nada tenha sido feito para reduzir o desperdício de energia. E que desperdício…

Mas na antevisão do charco gigante previsto para o Vouga, os autarcas opinaram. E um deles deu largas à imaginação, falando de “actividades geradoras de mais valias económicas, como sejam os desportos náuticos” (Lusa, 4 de Outubro de 2007). Já estou a ver: um enorme recreio com monitores, quem sabe se umas máquinas de fazer ondas e aulas de surf ou jet- ski e, de certeza, aparelhagens sonoras a berrarem “levante o seu astrauuuuu!”, com sotaque brasileiro, porque tem mais ritmo. Nada de novo. Apenas o assumir de um conceito de turismo que nos vai arruinando o território, a paciência e tudo o resto. Sobretudo, um conceito que não percebe que o segredo do turismo está na diferença e não na uniformidade.

A região de Lafões será procurada enquanto a deixarem mostrar o que é. Deixará de o ser, quando a quiserem transformar numa espécie de Algarve, de Lisboa, ou o raio que os parta. Mas, com a retenção de águas que se avizinha, ainda vai aparecer algum a querer bordejá-la de palmeiras, prática que fez escola na gestão autárquica portuguesa. Talvez- porque não?- um coqueiro, que até pode justificar uma visita presidencial.

Vão-nos prender as águas, mas vai-se libertar a asneira. Querem apostar?