My name is John e vivo em Real das Donas
E Mr. John explicou. Falou do poder de compra, da facilidade de acesso, da existência de serviços de saúde, da simpatia das gentes e, apesar de tudo, do clima. Também elogiou a gastronomia, embora inglês prefira peixe, o que remete para segundo plano este trunfo que gostamos de usar na conquista dos corações dos visitantes. Mas, logo de seguida, avançou com a palavra-chave: "pitoresco". Isso mesmo. O que o turista britânico aqui vem procurar, é precisamente o mesmo que sempre foi elogiado por quem nos visita, descrito desde Ramalho Ortigão a Ferreira de Castro e que, por vezes, parece que só os locais desvalorizam: a paisagem rural, a ligação perfeita entre homem e natureza, com toda a riqueza de cores, de sons, de silêncios. Procuram a variedade que ainda existe na nossa floresta (cuidado com o eucalipto e a monocultura!), o verde vivo das videiras, os socalcos, os muros de pedra, as habitações tradicionais, "o marulho doce das águas", a imponência dos horizontes marcados pelas serras. Procuram, sobretudo, o usufruto de tudo isto. Querem mexer na terra, refrescar-se nas águas, passear pela calma dos bosques, sentir a lentidão do tempo, ouvir histórias antigas, conviver com as gentes. Numa palavra, querem sentir-se em casa.
Quando, em 1978, foi lançada a experiência do Turismo em Espaço Rural (TER), Vouzela foi um dos polos escolhidos, conjuntamente com Ponte de Lima, Castelo de Vide e Vila Viçosa. Não foi por acaso. Considerou-se existir, aqui, o "cenário" desejável à experiência. Ainda existe. Mas... precisa de cuidados. Vouzela tem um número muito baixo de pessoas empregadas no setor primário, tem excessivas "feridas de desleixo" na sua paisagem, tem preocupantes sinais de que, alguns, gostariam que ela fosse outra coisa qualquer. Mas não é "outra coisa qualquer" que procuram os que nos visitam. É tão somente o que somos e temos, aquilo com que a "Mãe Natureza" nos brindou e de que os nossos antepassados cuidaram. Nada de novo. Recordem-se os projetos turísticos que foram idealizados nos idos de 70, de 60, de 50... Recuem até aos finais dos anos 20, quando Vouzela pediu a certificação com "estância de turismo" e vejam o que era privilegiado na divulgação feita pela Comissão de Iniciativa. Sim, sempre por aqui houve quem soubesse que trunfos temos para jogar. Com todas as deficiências e hesitações, hoje temos mais: temos a população mais escolarizada que alguma vez tivemos, grande ajuda para que o "estrangeiro" se sinta em casa. Assim lhe saibam dar uso.
Naquela noite de 28 de março muito mais houve para contar e registar: o saber de experiência feito da anfitriã, Celeste Carvalho; a confiança no futuro de vários investidores; a tenacidade e o excelente trabalho do único produtor de vinho de Lafões, António Costa; a vontade da nova equipa de vereadores em dialogar e mostrar serviço. De tudo isso deu conta o "Notícias de Vouzela". Pela nossa parte, quisemos dar todo o protagonismo a Mr. John. O homem que nos veio mostrar, com clareza, aquilo que sempre esteve à frente dos nossos olhos e que, talvez por isso, nem sempre temos facilidade em ver. Thank you, Mr. John.













