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sexta-feira, julho 26, 2013

Eleições autárquicas, como de costume


Texto publicado na "Gazeta da Beira" de 25 de Julho de 2013:

Para já, o ambiente que antecede as eleições autárquicas está a ser como de costume. Os partidos do costume, a prioridade dada a nomes em vez de ideias, como de costume. Seria importante que a nossa atitude, enquanto eleitores, não fosse a do costume e, para variar, exigíssemos antes de escolher. Avizinham-se tempos ainda mais difíceis que, para quem vive e trabalha no interior, podem atingir requintes de malvadez.

Estamos a viver uma austeridade que nos apresentam como inevitável, autêntica expiação de pecados que sabemos não ter cometido, mas de que somos constantemente acusados.  A pouco e pouco, começamos a perceber tratar-se de uma estratégia que visa  concentrar riqueza nalguns países e nalgumas instituições financeiras, à custa de um completo desinvestimento nos serviços sociais do Estado e de uma redução do preço do trabalho. De facto, não são necessárias muitas contas para percebermos que fica mais barato condenar os cidadãos a viverem amontoados num qualquer subúrbio de uma grande cidade, do que estar a organizar redes de transportes e serviços de proximidade espalhados pelo país. Além do mais, essa concentração, ao criar um aumento da procura de emprego nas zona onde há maior oferta, contribui para reduzir os salários. Pois é. Tudo se passa, como se o cidadão fosse um incómodo ou um mero joguete ao serviço de interesses alheios e não a razão última de qualquer política.  Mas, é com isso que precisamos de saber viver e, sobretudo, é a isso que precisamos conseguir responder.

Perante tais ameaças, o reduzido poder reivindicativo da região de Lafões é um problema. Os 10261 habitantes de Oliveira de Frades, os 10540 de Vouzela, ou os 16851 de São Pedro do Sul representam, isoladamente, um insignificante peso eleitoral e uma reduzida coleta de impostos para convencer os responsáveis pela atual adaptação nacional das diretivas europeias.  Mas, em conjunto, são quase quarenta mil que, ainda por cima, partilham um património natural comum ao longo dos seus quase 688 Km2. Saber rentabilizar essa força, tem que ser a primeira exigência a fazer às diversas candidaturas porque, sem isso, nada mais conseguimos.

Por outro lado, parece-nos importante termos consciência das prioridades e percebermos que,  oitenta e um mil milhões de euros depois de, em 1989, terem chegado os primeiros fundos europeus, somos um país diferente, mas nem sempre pelos melhores motivos. As autoestradas chegam-nos à porta, mas, fora dos grandes centros, não temos um sistema de transportes públicos minimamente satisfatório. Temos piscinas para todos os gostos e feitios, mas é evidente o desleixo de grande parte dos nossos recursos hídricos (o Vouga que o diga) e há inadmissíveis dúvidas sobre a qualidade da água da rede pública de todos os concelhos de Lafões.  Aumentou o espaço construído (raramente com qualidade), enquanto a população diminui a olhos vistos e é grave o desleixo em que se encontra parte significativa do património edificado. Temos "parques industriais" espalhados por todos os cantos, mas faltam empregos e fogem os jovens. Consumimos produtos das mais variadas partes do mundo, importamos enormes quantidades de carne de vaca, mas os produtores de vitela de Lafões estão cada vez mais envelhecidos e grande parte dos nossos produtos agrícolas mais característicos não passam de meras recordações. Bem precisávamos, agora, de alguns desses milhões que a Europa enviou. Não os vamos ter. Contudo, os problemas que sentimos são reais e exigem solução. São necessárias ideias, tanto ou mais do que dinheiro. Os que quiserem merecer o nosso voto têm que provar tê-las.

Por último, mas, talvez, o mais importante, é urgente estreitar a relação entre eleitores e eleitos, criando mecanismos de participação e controlo que não deixem reduzir a cidadania a atos simbólicos de quatro em quatro anos.  Ao contrário do que ele próprio gosta de apregoar, o poder local nunca foi, entre nós, um exemplo de democracia. Com um executivo dominante, debilmente controlado por assembleias municipais sem grandes condições de funcionamento, não admira que tenha sido terreno fértil para os muitos abusos de que há muito suspeitávamos e que, a pouco e pouco,  vão sendo denunciados. Com a fusão de freguesias promovida pela chamada "reforma Relvas", o problema agravou-se, na medida em que afastou os órgãos de decisão dos habitantes e aumentou a complexidade de gestão. As clientelas partidárias talvez agradeçam, mas nós... nem por isso.  É mais do que tempo de se introduzirem formas de democracia participativa que o reduzido número de habitantes das nossas freguesias facilita, conseguindo-se, desse modo, um maior envolvimento nas decisões e um mais eficiente controlo.  Até que ponto os candidatos a eleitos pelo povo têm dele receio?

Para já, o ambiente que antecede as eleições autárquicas está a ser como de costume. Mas não será o do costume aquele que se lhe irá seguir. Nos recursos disponíveis, nas exigências, na impossibilidade de falhar e, sobretudo, na capacidade de mobilização de vontades, tudo vai ser bem diferente. Seja, então, diferente também, o filtro a que submetemos as diversas candidaturas, para que os próximos quatro anos não se reduzam, como de costume, a um longo lamento em torno de oportunidades perdidas.

segunda-feira, março 04, 2013

Tirem as mãos da nossa água!

Para ver as legendas em português, passe com o rato sobre a parte inferior do filme e, quando aparecer a barra com as diversas opções, clique em "cc".

É um bem essencial e escasso, logo, um potencial negócio de lucro certo e nulos riscos. Num momento de crise como o que vivemos, a pressão para se arranjarem uns "cobres" com a sua privatização é grande, a que a péssima gestão pública, como a que tem sido feita em Vouzela, cria condições favoráveis. Os problemas vêm depois: aumento do preço, dúvidas sobre a qualidade e, sobretudo, um bem essencial e escasso que sai do controlo público. Numa região de muitos recursos mal aproveitados e mal tratados, convém estar alerta e conhecer as teias dum negócio que devemos recusar. Também interessa saber o que sobre o assunto têm a dizer os candidatos à direção do município. Porque, se o governo pode ser despedido ao som da "Grândola", convém começar a pensar no "E Depois do Adeus".

sábado, fevereiro 02, 2013

Um exemplo a seguir

O Município de Vendas Novas (...), manifestou-se contra a privatização da “água e resíduos” tendo enviado para a ANMP – Associação Nacional de Municípios Portugueses um parecer desfavorável sobre esta matéria. Esta opinião foi formada depois da análise do projeto de decreto-lei que altera o “regime jurídico dos sistemas multinacionais de captação, tratamento e distribuição de água para consumo público, de recolha, tratamento e rejeição de efluentes e de recolha e tratamento de resíduos” e sobre a proposta de lei que procede à alteração do “regime jurídico dos serviços municipais de abastecimento público de água, do saneamento de águas residuais e de gestão de resíduos urbanos”- Ler toda a notícia

quarta-feira, agosto 15, 2012

Vamos dar um mergulho a outro lado... e o Vouga corre lá em baixo

Rio Vouga- Arrabidazinha- Foto de Guilherme de Figueiredo

"Melhor água, saneamento e higiene são cruciais para promover a saúde humana e o desenvolvimento"- Margaret Chan, diretora-geral da Organização Mundial de Saúde em comentário ao relatório da ONU "Progress on Drinking Water and Sanitation, 2012".

Pois é, o Vouga corre lá em baixo. Quase quatro mil crianças morrem diariamente por doenças associadas à falta de qualidade da água? Pois, coisas que acontecem... aos outros. Talvez assinar uma petição ou acender uma vela ao santo. Grande parte do país está em seca extrema? Malandros dos espanhois que já nada de jeito mandavam quanto a ventos e casamentos e agora até a água fecham... E o Vouga corre lá em baixo, ignorado pelos mesmos poderes que se queixam da falta de iniciativa privada e de recursos. "Ah, sim, o turismo e coisa e tal".

Passando mais um ano sem mergulharmos no Vouga, vamos dar um mergulho a outro lado. Regressamos a tempo das vindimas, como de costume.

quarta-feira, março 14, 2012

Serenata à chuva ou as trancas na porta depois da casa roubada

Jack Vettriano

Foi através do "Humano és" que chegamos à notícia: "A Câmara de Vouzela vai lançar uma campanha junto da população com vista à redução do consumo de água, numa tentativa de prevenir problemas graves no abastecimento público durante os próximos meses, devido à seca". Pois. Já tínhamos reparado que não tem chovido...

Claro que nada podíamos fazer para evitar a seca e, na situação atual, justificam-se as medidas anunciadas pela Câmara. Mas é incompreensível esta atitude reativa, quase pavloviana, como se nunca imaginássemos poderem ocorrer situações que há muito (ver também aqui) se sabem ser fatais como o destino.

Falta de água em Vouzela é fenómeno recente. Deve-se a desleixo e incompetência. O presidente da Câmara acerta, em parte, no alvo, quando reconhece: "foram feitas obras que diminuíram as nascentes". Pois foram. Mas também é verdade que, depois disso, nada foi feito para enfrentar o problema. Em que estado estão as canalizações públicas? Que é que obriga as novas construções a incluirem sistemas de recuperação e reaproveitamento de águas, ao fim e ao cabo, o retomar de hábitos que, num passado ainda recente, estavam generalizados? A elaboração, em 2008, do Regulamento de Edificações Urbanas, tinha sido uma boa oportunidade... que se perdeu (ver aqui).

Que não fiquem dúvidas: apoiamos totalmente a campanha (?) que a Câmara vai lançar, alertando para a necessidade de racionalizar o consumo de água. O que não aceitamos é esta atitude de "casa roubada, trancas à porta", de falta de planeamento que tudo vai deixar na mesma logo que caiam os primeiros pingos. "I'm singing in the rain..."

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Ter ideias não custa um cêntimo

"(...) custa ouvir o silêncio sobre a recuperação do nosso Vouga"

Através da candidatura da Câmara Municipal de Vouzela à medida "Valorização Ambiental dos Espaços Ambientais" (Programa de Desenvolvimento Rural- PRODER), vão ser investidos cerca de 78 mil euros na requalificação dos rios e ribeiras do concelho. Boas notícias, mas... pede-se mais.

Um concelho que tem como principal trunfo o património natural e edificado, deve entender a sua preservação com uma prioridade. É ele que nos diferencia e permite ganhar vantagem no que à oferta de bens e serviços de qualidade diz respeito. Não são necessárias grandes "obras", entendidas como arranjos e construções demasiadas vezes de gosto duvidoso. Apenas é necessário permitir, a quem nos procura, o uso pleno dos nossos espaços.

A iniciativa da Câmara vai nesse sentido e, por isso, a elogiamos. Mas podia ser mais arrojada, acrescentando iniciativas que estimulassem a recuperação do património edificado que está nas mãos de particulares, como já por diversas vezes aqui propusemos. Para além disso, importa organizar as diversas iniciativas do concelho, de modo a preencher o calendário e a criar "pacotes" de oferta articulados entre si (a este respeito, vale a pena pensar na ideia do deputado municipal Fausto Carvalho, no sentido de afastar a iniciativa Doce Vouzela das Festas do Castelo, organizando-a numa estação mais propícia ao consumo de calorias; vale também a pena estar atento ao projecto Viajando por Besanas). Por último, e apesar de sabermos que é responsabilidade de outros, custa ouvir o silêncio sobre a recuperação do (também) nosso Vouga. A este respeito, os nossos responsáveis autárquicos bem podiam falar um pouco mais alto...

Vivemos tempos difíceis em que vai faltar o dinheiro outrora esbanjado. Numa região com graves carências estruturais e pouca oferta de emprego, é absolutamente necessário que surjam iniciativas que permitam respirar, que dinamizem e organizem as actividades económicas, que mobilizem. Ter ideias não custa um cêntimo. Se todos nos sentirmos com direito a dá-las, não hão de faltar.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Alerta vermelho, com madeixas

Foto de Guilherme Figueiredo

Amarelo, laranja vermelho- são as cores do sobressalto. Um estado de inquietação e alerta permanentes em que nos querem ver, como se corrêssemos o risco de ser invadidos por extraterrestres. Responsável? O "mau tempo". Vejam lá onde chegámos: até já chove em finais de Outubro...

Cai uma chuvinha e o "império" fica debaixo de água. Sobem as temperaturas e é como se vivêssemos numa caixa de fósforos. Perante a sucessão das imagens da "catástrofe", ninguém parece estar muito interessado em perguntar: "porquê"? Por que carga de água metade do País fica a boiar, mal caem as primeiras chuvas? O que é que correu mal? Foi o facto de chover em Outubro, ou foram antes obras mal planeadas, serviços desorganizados, irresponsabilidades nunca assumidas? Parece que nos adaptamos mais facilmente a estas, do que as uns pingos na cara e a umas rajadas de vento forte.

Na Assembleia Municipal de Vouzela, uma voz levantou-se para denunciar ciclos de falta de água em Figueiredo das Donas. Sabe-se que o assunto não é novo, nem exclusivo dessa freguesia. Sabe-se, até, que ainda o PS estava à frente da Câmara, já se desenhavam soluções a partir da (então hipotética) barragem do Pinhosão. Pois é. O que ninguém parece saber, é explicar como se chegou a este ponto, numa região que nunca teve falta de água. Talvez tenhamos que procurar respostas em obras mal planeadas, pouco ou nada fiscalizadas, irresponsabilidades nunca assumidas. Talvez seja tempo de percebermos ( e denunciarmos) que uma obra mal feita, justifica outra para a corrigir, numa espiral de contratos e despesas que "alguém" há de pagar. Até lá, propomos que se crie uma nova categoria de alerta: o vermelho, com madeixas. Para a estupidez e a irresponsabilidade.

sexta-feira, julho 23, 2010

Metam as barbas de molho!

"Nas contas da SEMA – Associação Empresarial de Estarreja, Murtosa, Sever do Vouga e Albergaria-A-Velha, o tarifário aplicado ao comércio, serviços e indústria representa aumento de custos na ordem dos 100 por cento para água e de 300 por cento no saneamento"- Notícias de Aveiro

quarta-feira, dezembro 09, 2009

A propósito de (mais) uma cimeira

Bartoon, Público de 9 de Dezembro

Vai animado o debate sobre as alterações climáticas (veja estes exemplos domésticos aqui e aqui). Sobretudo a partir de Quioto, começaram a ser divulgados "rigorosos estudos científicos" que procuram contrariar o peso da influência humana no aquecimento global. O ponto alto desta história foi atingido com a divulgação de um conjunto de "mails" que deviam demonstrar que alguns cientistas exageraram, propositadamente, as conclusões. A resposta não se fez esperar, denunciando o facto das mensagens divulgadas terem sido retiradas do contexto. Como cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal, a única conclusão a tirar é que acreditar na isenção da ciência é como acreditar no Pai Natal: pura ilusão. Agradável, mas de curta duração.

Para o cidadão comum, estes problemas colocam-se de modo, digamos, mais terra-a-terra: seja qual for a causa, as alterações climáticas significam falta de água, alteração no ciclo das plantas, com consequências na alimentação de pessoas e animais e, a prazo, na área habitável do planeta. Ponto final. É para isto que se exigem soluções.

Claro que, num mundo cada vez mais (sub)urbanizado, enquanto o copo puder estar cheio com água engarrafada e a saladinha no prato (mesmo que à custa de produtos que viajaram milhares de quilómetros), estes problemas ou são remetidos para as curiosidades jornalísticas, ou, quando muito, podem justificar uma velinha à janela pela felicidade dos netos. Isto, apesar de já por aí andarem alguns a tremer, perante a ameaça de massivos movimentos migratórios. A manter-se a situação actual, tal cenário parece inevitável, a menos que entremos num nível de barbárie que consiga fechar os olhos à condenação à morte de milhões de pessoas.

Portanto, o que queremos são medidas concretas que, baseando-se nos conhecimentos científicos (que não faltam), permitam corrigir o que se sabe estar mal: quantidade e qualidade da água, excessiva dependência dos combustíveis fósseis, emissões poluentes e qualidade do ar.

Ouvimos, há dias, o secretário de Estado Humberto Rosa falar a este respeito, enaltecendo o investimento feito pelo governo nas energias renováveis. Pena foi que não tivesse falado na avaliação negativa feita pela Comissão Europeia ao famoso Plano Nacional de Barragens, onde se afirma que ele põe em causa a qualidade da água. Pena foi que não tivesse explicado a obsessão pelas auto-estradas, quando, ao mesmo tempo, se despreza o transporte ferroviário que não rime com TGV. Pena foi que não tivesse explicado o que levou o governo a apoiar o fabrico de automóveis eléctricos para consumo privado, quando nada fez para melhorar e alargar a rede de transportes públicos. Enfim, como tem sido hábito, o mais importante é o que não se diz...

Consta que os participantes na cimeira de Copenhaga não conseguiram evitar uma lágrima furtiva, perante os emotivos documentários e os discursos inflamados que abriram os trabalhos. Veremos que sentimentos vão dominar o seu encerramento. Para já, nada de novo: continua-se a condicionar tudo a saber quem vai pagar a factura das alterações necessárias, como se nestas coisas do ambiente fosse possível alterar alguma coisa, sem alterar tudo e todos. A continuar assim, Copenhaga não será mais do que uma desculpa para que tudo continue na mesma.

Aguardemos, pois, pelo desenrolar dos trabalhos, para sabermos se devemos concluir que "algo está podre no reino da Dinamarca", ou se, no mesmo registo shakespeareano, podemos respirar de alívio por, finalmente, se ter percebido que "há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia".

quinta-feira, novembro 05, 2009

Completamente de borla

Rua de São Frei Gil

Pronto! Temos governo novo, nova equipa camarária, os vencedores lançaram os foguetes da praxe, os vencidos deram as justificações de ocasião. Feitos os habituais balanços, uma conclusão é inevitável: estamos na mesma! Do estado geral da Nação, outros se irão ocupar com maior competência. Ficamo-nos por um olhar por estas margens de um Vouga com água a menos e dúvidas a mais.

No seu discurso de vitória, o Dr. Telmo Antunes realçou mais uma maioria absoluta alcançada pelo seu partido. Convém que tenha consciência de que esse mesmo (legítimo) motivo de orgulho é, também, o que não lhe dá qualquer margem para falhar. O mandato que agora se inicia, vai usufruir de um empréstimo polémico, apresentado como solução para a calamitosa situação financeira da Câmara. Ninguém perdoará que um simples cêntimo seja gasto, sem uma criteriosa definição de prioridades.

Em bom rigor, muito do que Vouzela necessita, tem mais que ver com ideias do que com dinheiro. Trata-se, sobretudo, de manter a casa arrumada, proteger o que a "Mãe Natureza" nos deu... completamente de borla. Às vezes fazemos lembrar uma riquíssima casa senhorial, cheia de tradição e valiosíssimo mobiliário que o desleixo vai abandonando ao caruncho e o mau gosto leva a substituir por cangalhada em contraplacado...

Estimular a recuperação do património edificado, em grande parte nas mãos de privados, pode ser feito através de facilidades fiscais e de licenciamento, melhorando a imagem da região e criando emprego. É verdade que se perdeu uma oportunidade aquando da elaboração do Regulamento de Edificações Urbanas, de modo a criar condições para a preservação de marcas importantes da nossa identidade e, até, para obrigar a construção a preparar-se para os desafios inevitáveis com as alterações climáticas. Mas, são precisamente esses descuidos que dificilmente se podem voltar a admitir a quem tem todas as condições para trilhar um caminho que ele prórpio abriu.

O mesmo se pode dizer da resolução, de uma vez por todas, do tratamento de águas residuais, acabando com a anedótica situação de uma ETAR curta para as necessidades e de que a recuperação das águas do Vouga bem necessita. O final desta história vai exigir muito dinheiro. Só que, até lá chegarmos, apenas necessitamos de habilidade, de capacidade de persuasão, para levar as autoridades de São Pedro do Sul a assumirem as suas responsabilidades.

Por último, ainda no domínio do que não custa um cêntimo, convém não desperdiçar recursos. A Reserva Botânica de Cambarinho tem oito meses para ver definida a sua situação legal; a divulgação da imagem do concelho, tem tudo por fazer. Lemos, há dias, que alguns jornalistas tentaram contactar os responsáveis pela produção tradicional dos nossos pasteis e não conseguiram. Desconhecemos os motivos do fracasso, mas a verdade é que não conseguimos compreender que a história do mais famoso produto regional, não seja "cantada" a cada esquina, que é como quem diz, devidamente publicitada. Sem entrar na divulgação do que apenas deve ser do domínio dos eleitos, quer o Turismo, quer o Museu municipal, podiam organizar uma pequena exposição permanente, ilustrando os diversos passos da produção da iguaria e realçando as suas especificidades- barato e eficaz.

Claro que muito falta fazer e muito dinheiro será necessário- aí, o importante é sentirmos serem justificados os impostos que pagamos. Mas é tempo de assumirmos que a preservação é mais barata do que a construção e que a "Mãe Natureza" é, por si só, o melhor dos executivos camarários. Completamente de borla.

quinta-feira, julho 23, 2009

Três ou quatro reflexões em torno de uma garrafa de água


Steve Greenburg (campanha organizada nos Estados Unidos)

"Moradores de uma cidade rural australiana votaram para banir a venda de água engarrafada. São a primeira comunidade no mundo a tomar esta medida. A localidade chama-se Bundanoon comemoraram a aprovação da medida numa reunião na cidade (...)"- iol Diário, via A Ilusão da Visão. Ver também aqui.

Primeiro era uma extravagância, depois ganhou estatuto de hábito e hoje é algo que consideramos tão natural como a roupa que vestimos- sim, faz parte do traje. Refiro-me à garrafinha de água, maioritariamente de plástico, que nos acompanha nos mais insignificantes momentos, como se todos fossemos atletas de alta competição em risco de desidratar.

Só que tal garrafinha está muito longe de ser a versão moderna do cantil, reflectindo antes uma total desconfiança na qualidade do líquido que nos sai das torneiras. De acordo com dados publicados na comunicação social, 40% dos portugueses justificavam desse modo o recurso à água engarrafada. E aqui começa um problema: ao mesmo tempo que se criam condições para um negócio gigantesco, reduz-se a pressão sobre os serviços para garantirem a e informarem sobre a qualidade da água do abastecimento público. A garrafinha simboliza, de facto, um cair de braços, uma desistência, ainda por cima sem a garantia de conseguirmos um produto mais seguro. Em 2006, a Câmara de São Francisco deliberou a proibição de compra de água engarrafada pelos seus serviços, na sequência de um longo processo em que, entre outros problemas, algumas marcas foram obrigadas a reconhecer que a água que vendiam era a mesma que era fornecida pelos serviços municipais.

Em garrafa ou garrafão, só na aparência é "pura e cristalina" a água assim comercializada. Muito longe da inocência que lhe associamos, é um problema ambiental, um peso nos orçamentos familiares e um risco para os direitos dos cidadãos. Os dados divulgados em 2008 pelo Centro Nacional Independente de Informação sobre Resíduos, referiam um uso , anual, de cerca de 2,7 milhões de toneladas de derivados de petróleo, para produzir as embalagens. Quanto ao peso no orçamento das famílias, é só fazer contas, tendo em conta que três quartos dos portugueses são clientes fieis. Por último, mas não menos importante, o negócio tem estimulado a privatização das fontes de captação, estratégia que alguns defendem dever ser alargada a todo o abastecimento público (ver aqui, aqui e aqui).

Vouzela não é excepção no que diz respeito às dúvidas sobre a qualidade da água do sistema público de abastecimento. Acreditamos (e desejamos!) que sejam infundadas(1)- o que não podem é ser ignoradas. Fez bem a Delegada de Saúde, Dra. Maria Alexandre Cruz, quando em 2008 declarou ao Notícias de Vouzela: “(...) há sistemas de tratamento deficientes e deficientes zonas de protecção das origens/ captações, situações estas que, embora não nos tenham originado até hoje grandes preocupações, exigem da parte dos responsáveis solução eficaz e urgente (...)”. Confiamos mais em quem não nos esconde os problemas. Mas falta o resto. Em primeiro lugar, falta reconhecer interesse nos responsáveis locais pela recuperação dos nossos recursos hídricos (e as eleições aqui tão perto...). Depois, falta informação. Para quem, no início do mandato, deu tanta importância à imagem e à comunicação com os munícipes, o silêncio que sobre este assunto tem caracterizado a autarquia, alimenta as maiores suspeitas. Ou também vai aparecer alguém a defender que não é da sua competência?
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(1)- Dados sobre as análises efectuadas em 2007 à água para consumo humano no concelho de Vouzela (ver aqui)

quarta-feira, março 11, 2009

A invasão dos urbanóides- 4: Bom tempo

Magritte, Les valeurs personnelles

“Finalmente, o bom tempo!”- exclamava a locutora de um daqueles programas radiofónicos das manhãs, assim como quem diz, “já cá devias estar há muito tempo, de que é que estavas à espera”? Março mal começou mas, tivesse a Mãe Natureza consultado os nossos urbanóides e ter-se-ia ficado por duas estações: a do ski, com neve a pedido, e o Verão, oscilando entre os 20 e os 34 graus, dependendo do contexto. Chuva? Que horror! Manifestação típica de subdesenvolvidos, preocupados com couves e batatais. Vade retro!

Dizia o povo, “Março, marçagão, de manhã inverno, de tarde verão”. O Borda d’Água ainda fala em geadas e manda preparar as terras para culturas de regadio. Mas o Instituto de Meteorologia avisa: “O ano (2008) termina em situação de seca”. Feitas as contas, 68% do território estava em “seca fraca”, 31% em “seca moderada” e 1% em “seca severa”. Por muito molhado que tenha sido Janeiro, mais os salpicos de Fevereiro, não há água engarrafada que resista. Até quando os recursos hídricos vão estar fora da lista de prioridades dos nossos responsáveis? Até quando vamos continuar a fingir que tudo está bem na protecção das fontes de captação e no tratamento das águas residuais?

“Eleições à porta, seja Deus louvado”. Finalmente, o bom tempo?

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Em defesa do direito à água

A partir do ruitavares.net/blog

"É portanto indispensável a definição de uma nova estratégia de longo prazo para a gestão dos recursos hídricos (à escala mundial, à escala nacional e à escala regional e local), que respeite os direitos dos cidadãos e que promova a sustentabilidade dos ecossistemas, a conservação da água, a gestão da procura. Mas o que se constata é que existe actualmente uma falta de consenso em relação aos princípios e aos valores éticos que devem presidir à concepção e implementação das políticas da água".- Manifesto

Não, não é assunto lá para as "áfricas". É mesmo a nós que diz respeito. A nós que, aqui pelas encostas do Caramulo, vemos desperdiçar importantes recursos hídricos, totalmente ignorados por autoridades locais e nacionais.

Calcula-se que seja o "petróleo" do futuro, o "ouro branco". Há quem afirme que pode ser causa de guerras. E há quem esfregue as mãos de contente, antevendo a negociata permitida pela escassez e pressionando a sua privatização. É a água e sobre ela quem se proponha reflectir, entendendo-a como um bem comum, um direito, um património da humanidade. Inalienável. Vale a pena conhecer (ver o Manifesto, aqui) e estar atento.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Água, esse negócio

Em declarações ao Público (08/12/2008), Pedro Serra, administrador das Águas de Portugal, divulgou a estratégia do grupo para o período 2007-2013. O assunto não teria particular interesse, não fosse estar em causa a água que nos corre nas torneiras e a (des)confiança sobre a qualidade desse serviço.

Por exemplo, ficámos a saber que o grupo vai entrar nos “sistemas em baixa” (ligação à rede doméstica), depois de vários anos limitado aos “sistemas em alta” (desde a captação na fonte, até à entrada nos sistemas de distribuição municipais). E porquê? Porque se concluiu ser necessário “corrigir as ineficiências detectadas nas estratégias anteriores, dando ao mesmo tempo mais sustentabilidade ao negócio. Mas, para que não ficassem dúvidas, a jornalista explicou: “Os grandes obstáculos assentaram na falta de capacidade de investimento das autarquias nos serviços em baixa, muito devido à pequena escala dos sistemas, que desincentivaram o interesse dos privados.

Ou seja, se acreditava ser o acesso à agua de qualidade um direito, o leitor não passa de um ingénuo que ainda julga ver o Pai Natal a entrar pela chaminé. A água que a "Mãe Natureza" põe à nossa disposição, é uma mercadoria que alguns “iluminados” decidem quando e como deve chegar a nossa casa. O problema não está em eliminar o desperdício ou discriminar formas de consumo. Está no mais básico dos argumentos: há ou não há dinheiro para pagar. Por isso mesmo, o administrador Pedro Serra anuncia que o aumento das tarifas é uma hipótese para 2010-2011. E quem tiver dificuldade em pagar? Também está previsto: “há casos onde terá de haver apoio social (…). O problema é que há dezenas de operadores no sector da água, o que dificulta a aplicação desta solução”. Estamos totalmente esclarecidos…

quarta-feira, outubro 29, 2008

As canalizações estão todas rotas!

Portugal é o 6º maior consumidor de água de uma lista de 151 países organizada pela a WWF. No relatório agora divulgado, também se revela que a nossa área produtiva por habitante era, em 2005, de apenas 1,2 hectares, cerca de metade do considerado necessário. E tanta terra inculta no horizonte...

quinta-feira, outubro 09, 2008

Isto é que é meter água

Angel Boligan Corbo-Cuba
Nestas coisas do “Dia de...”, safa-se o de Natal e pelo caminho que as coisas levam, justificam-se os maiores receios. Os restantes, quedam-se pela inutilidade da rotina, naquele jeito de reconfortar consciências, quando nada mais se quer fazer. É o caso do “Dia Nacional da Água”. Comemorou-se a semana passada, sem que ela (a água) tenha motivos para agradecer.

Aproveitando a efeméride, o ministro do Ambiente anunciou uma medida...à sua medida: Portugal vai começar, já a partir de Janeiro, a pagar uma taxa (mais uma) sobre recursos hídricos que os outros países da União Europeia só vão pagar a partir de 2010. Mas, não contente com isso, Nunes Correia, deitando mão àquela inabilidade comunicacional que tem feito escola no actual governo, não arranjou melhor justificação para a coisa do que dizer: “(...) Nós temos que fazer isto. Portugal é penalizado se não fizer isto. E, portanto, como o que tem que ser, tem muita força...” (RDP- Antena 1)

Podia ter dito que se procurava racionalizar o consumo, penalizar o desperdício, podia ter dito tanta coisa e, no entanto, disse apenas o que não devia: que Portugal não tem qualquer estratégia para o sector, limitando-se a aproveitar a boleia de Bruxelas sempre que daí resulte o amealhar de receitas. Enfim, em bom português diz-se que lhe fugiu a boca para a verdade.

Ora, no mesmo dia, foram divulgados resultados (a partir daqui) de 20 amostras recolhidas pela Quercus em 14 dos principais cursos de água portugueses (ver aqui a distribuição nacional). Se o “nosso” Vouga apresentou (surpreendentemente) valores razoáveis, o balanço geral não podia ser pior.

Como disse o dirigente Hélder Spínola, os principais focos de poluição “continuam a ser os esgotos domésticos, que não têm ou têm um tratamento deficiente, o abandono de resíduos que contamina as linhas de água e as escorrências de campos de cultivo por se usarem pesticidas em excesso”. Ou seja, tanta coisa para Nunes Correia dissertar. Tanta coisa para que esperamos ideias de autoridades nacionais e locais, nem que mais não seja para fazerem algum sentido os impostos que pagamos.

Nós por cá...

Bem gostávamos de acreditar que vamos bem. No entanto, os receios são muitos. Na sua edição de 17 de Janeiro de 2008, o Notícias de Vouzela publicava declarações da Delegada de Saúde, Dra. Maria Alexandre Cruz, que não deixavam margem para dúvidas: “(...) há sistemas de tratamento deficientes e deficientes zonas de protecção das origens/ captações, situações estas que, embora não nos tenham originado até hoje grandes preocupações, exigem da parte dos responsáveis solução eficaz e urgente (...)”.

Por outro lado, é antiga a suspeita sobre a qualidade das águas do Vouga, sobretudo a partir das Termas, havendo quem há muito defenda a necessidade de uma nova ETAR. No que à abundância de recursos diz respeito, nos últimos anos houve casos de falta de água em algumas freguesias e, ao mesmo tempo, “desapareceram” nascentes após a realização de algumas obras. O silêncio das autoridades locais sobre tudo isto, não é a melhor forma de recuperar a confiança dos cidadãos. O comércio da água engarrafada, agradece. Nós, não.

segunda-feira, agosto 11, 2008

Ao sabor da corrente

Rio Zela, junto à Foz. Mais imagens, aqui, aqui, aqui , aqui, aqui e aqui

O som da água a correr, por entre o silêncio geral. A frescura de um mergulho num fundão de águas límpidas, daquelas de ver o fundo. Sim, ainda é possível, mas é necessário procurar... e guardar segredo. Talvez por não justificarem inauguração oficial, com nome na lápide e discurso, os nossos recursos hídricos têm sido ignorados pelas "autoridades competentes". Não tardará muito, e isso mesmo será dado como justificação para os privatizar. Aproveite enquanto pode. E proteste.

As imagens que aqui deixamos, são do rio Zela. Rio de montanha, segue o seu curso desde Adsamo, freguesia de Ventosa, até se encontrar com o Vouga, nos limites de Vouzela, sede de concelho que lhe deve o nome (sobre isso se irá falar em próxima oportunidade). Pode ser conhecido, junto à foz, num percurso já aqui divulgado, ou acompanhando o seu leito, rio acima- convém pedir informações.

Pela parte que nos toca, vamos uns dias procurar outras águas, ao sabor da corrente. Por uma vez. Voltaremos antes das vindimas, que se prevêem com bons resultados, ao contrário do ano que aí vem. O Pastel de Vouzela continua com o ritmo próprio da época: devagarinho, para melhor saborear.

sexta-feira, junho 06, 2008

Para guardar em local seco-IV

Ideias de outros que interessa guardar. Para consumir mais tarde ou para reproduzir em futuras sementeiras.

A auto-suficiência que não temos

Os números de auto-suficiência da produção alimentar do país não são brilhantes, excepto no caso do leite e do vinho, em que a produção excede o consumo interno. Entre os cereais, o arroz ainda é aquele onde se atingem taxas mais elevadas, chegando aos 74 por cento. Nos restantes, o panorama é desolador: o trigo situa-se em cerca de dez por cento e o milho em menos de 33 por cento.
(...)
toda a produção animal intensiva depende de rações e, neste caso, o país importa 80 por cento de matéria-prima (cereais) utilizada nesta indústria
-
Público.

Agro-urbanismo

Assistimos ao aumento continuado dos preços de bens alimentares em consequência de um fenómeno de escassez à escala global. As preocupações perante esta nova realidade começam a tomar forma em diversas propostas de modelos de exploração agrícola no território das cidades. De dimensão local ou expressão utópica, vale a pena conhecer o fruto de algumas destas investigações em dois artigos recentes (...)- ler a partir de A barriga de um arquitecto.

Preservação dos lençóis freáticos

Muitas vezes, quando ouvimos falar na contaminação das águas, surge logo a imagem de que algo de grave ocorreu na água que existe à superfície. No entanto, da pouca água doce disponível (aproximadamente 3%), 30% são águas subterrâneas. Na nossa região, as águas subterrâneas são exploradas utilizando poços e furos artesianos, maioritariamente para uso privado. Muitas vezes, esta exploração torna-se abusiva, devido à falta de controlo no que diz respeito à abertura e exploração dos furos, contribuindo para uma diminuição de volume dos aquíferos- Desenvolvimento Sustentado.

Pela preservação do vale do rio Paiva- petição

Somos um grupo de cidadãos mobilizados de forma simples e humilde, empenhados na defesa e preservação do vale do Rio Paiva, classificado como um Sítio de Importância Comunitária (S.I.C.) da Rede Natura 2000, e que abrange os concelhos de Castelo de Paiva, Cinfães, Arouca, Castro Daire, S. Pedro do Sul, Vila Nova de Paiva, Satão, Sernancelhe e Moimenta da Beira.

Os subscritores deste Manifesto lançam um grito de alerta para a necessidade urgente da preservação dos habitats do bacia hidrográfica do rio Paiva, para que todo este Património possa ser entregue aos vindouros em bom estado de conservação (...)- ver aqui, com petição para assinar.

Há países assim

Com campos eólicos enormes, no mar. Há países assim, com a visão e com os recursos para a concretizar.
A partir do Quinta do Sargaçal, chegamos aqui. Para ver como os outros pensam as energias alternativas.

Sinais preocupantes

Richard Corbett, a British Labour MEP, is leading the charge to cut the number of party political tendencies in the Parliament next year (...)- Telegraph, a partir daqui.

quarta-feira, maio 28, 2008

Roleta russa

Há qualquer coisa de suicida no modo como enfrentamos os problemas. A catástrofe pode estar anunciada com enorme antecedência, mas só a encaramos quando nos bate à porta. Normalmente para a deixar entrar.

O aumento do preço dos combustíveis, está a provocar uma turbulência que atravessa toda a sociedade portuguesa. Organizam-se boicotes, fazem-se cálculos para encontrar o “preço justo”, exigem-se descidas de impostos. Os governantes pedem estudos e calma. Mas poucos têm a coragem de reconhecer que o problema era mais do que previsível e nada se fez para o evitar.

Somos o país das auto-estradas e do automóvel à porta. Não é um problema de preguiça, mas de opções políticas e de ausência de alternativas. Transportes públicos miseráveis ou inexistentes, completo desprezo pela ferrovia e uma enorme lata de alguns para tudo justificarem em nome de uma “rentabilidade” que só eles vêem e que, na realidade, se limita a um conjunto de truques para explorar, até à medula, os bolsos do cidadão. Previsão, planeamento, investimentos de longo prazo, não fazem parte do manual de instruções dos nossos governantes. Nacionais e locais.

Se pensarmos que o próximo recurso de que vamos sentir falta é nem mais nem menos do que a água, temos todos os motivos para grandes preocupações. O diagnóstico está feito, a indiferença é a do costume. Como aconteceu com o petróleo. Medidas, também as do costume: apenas projectos de privatização do sector (lembram-se da Galp?). Recuperação dos recursos hídricos, controlo das fontes de captação (vale a pena ler isto), generalização do saneamento básico a todo o território nacional, são assuntos estranhos às preocupações oficiais. Não me digam que não vos faz lembrar a roleta russa. Desta vez, com um só espaço vazio no tambor do revólver. Mas há quem acredite na sorte

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Águas chocas

“As barragens podem ser feitas em mais sítios, mas a linha e o Vale do Tua são únicos”- Presidente da Câmara Municipal de Mirandela, Público, 7 de Fevereiro

“Um dos aspectos que os jornalistas britânicos compararam entre a realidade inglesa e a portuguesa, foi a rapidez do processo (aprovação do plano de barragens). Este tipo de empreendimentos no Reino Unido costuma merecer uma ampla e minuciosa discussão pública e a morosidade deste tipo de projectos é à partida assumida e aceite por todas as partes envolvidas”-A propósito da presença em Portugal de uma equipa da BBC2 para fazer uma reportagem sobre as metas do governo português para o uso das energias renováveis, Público 6 de Fevereiro.

“(...) o que mais intriga são os atropelos à lei e ao património natural que têm sido protagonizados pela EDP até à data, e a postura patenteada por alguns autarcas que já anunciaram estar disponíveis para, a troco de alguns benefícios económicos (...), permitir a destruição de património natural único, demonstrando que nem consciência têm do tesouro que existe nos seus concelhos”- Professor Alberto Aroso, O grito dos últimos, in Público de 7 de Fevereiro.

E mais esta, para um final (relativamente) feliz.